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Filhos da Guerra ou Filhos de Sebald?

Posted in Literaturância with tags on 28/12/2017 by Pedro Miguel Gon

A guerra exerce um tal fascínio no homem que não se pode falar da evolução da Humanidade sem se falar da guerra. Parece que é nessa situação-limite que se testa a substância da Humanidade, que melhor se redefine a essência da Humanidade, em contraste com a barbárie, e que melhor se esclarece o significado de ser humano. Não é por acaso que passados 4 ou 5 mil anos ainda se fale da Guerra de Tróia. A mãe de todas as guerras? Pelo menos das históricas. E nós, que testemunhámos o séc. XX, remetemo-nos sempre para a Segunda Guerra Mundial, afinal a nossa Tróia. Já se passaram cerca de oitenta anos e outros tantos hão-de passar sem que se deixe de escrever, refletir e espantar com o que aconteceu, para o bem e para o mal, nessa guerra. A guerra que tudo fez mudar nos equilíbrios do mundo e que terá mudado o próprio homem: mudou, pelo menos, os olhos com que se observa o homem.

O choque de ver confirmado que não somos, afinal, tão civilizados quanto se julgava, que não somos tão nobres, tão fortes e infalíveis, tão seguros e confiáveis, ressoa por toda a sociedade e faz com que se volte constantemente, com maior ou menor sensacionalismo, ao tema da Segunda Guerra. Ninguém visita tanto o tema da Segunda Guerra quanto os americanos. Bom, esse é, para eles, o momento em que entram no fluxo da história universal. Não lhes pertencem as vicissitudes de Romanos e Bizantinos, desconhecem as intrigas medievais, não assistiram ao Renascimento, mas têm a Segunda Guerra Mundial, que venceram. Os europeus ofereceram de bandeja uma Tróia aos americanos – e agora nunca mais se calam.

Tal como a história de Tróia é a história dos que a venceram, também a história da nossa Tróia tem sido sobretudo uma história dos vencedores. Os alemães que estão no epicentro da Segunda Guerra não se manifestaram muito. Não gastaram a interpretá-la nem um milésimo da energia que gastaram a fazê-la. Mas, em termos práticos, os alemães não ficaram incapacitados de o fazer. Podiam-no ter feito. No entanto, a esmagadora maioria dos historiadores que se entregaram à análise e interpretação desse período são os americanos, ingleses, franceses, russos. Os vencedores. Por que é que os historiadores alemães se silenciaram? No campo da literatura os Aliados produziram uma plêiade de obras tendo como pano de fundo a Segunda Guerra, mas na esfera alemã essa obras são muito menos frequentes. Por que razão tantos escritores e jornalistas se abstiveram de registar o decurso e o desfecho da destruição na Alemanha?

W.G. Sebald interessou-se por esse aspecto da psique alemã e desenvolveu sobre o assunto uma reflexão pertinente que apresentou nas chamadas Lições de Zurique em 1997. Mais tarde coligiu esses textos no livro “História Natural da Destruição”, um título algo irónico e amargo, já que é tributário de expressões usadas por alguns dos que testemunharam o horror do fim da guerra na Alemanha. O livro parte da perplexidade de constatar que “a experiência de uma humilhação nacional sem precedentes sentida por milhões de pessoas nunca encontrara verdadeira expressão verbal e que os que a sofreram diretamente nem a partilharam uns com os outros nem a transmitiram aos que nasceram depois”, passando todo o povo alemão para uma nova experiência de construção, segundo palavras de Alfred Doblin, “como se nada tivesse acontecido”. W. G. Sebald deu especial atenção “ao horrível bombardeamento de cidades indefesas” levado a cabo por americanos e ingleses em múltiplas operações, a mais famosa das quais foi a Operação Gomorra, que praticamente fez desaparecer a cidade de Hamburgo. Note-se bem que estas operações tinham como alvo explícito as populações civis das cidades, afinal uma ação eticamente indefensável quanto tantas outras atribuídas aos nazis. Os enormes bombardeiros aliados, os Lancaster e os B-17, largaram nos céus da Alemanha toneladas de bombas. Não foi só Berlim a ficar destruída, foram 131 cidades alemães reduzidas a escombros, erradicando a vida urbana e condenando milhões a condições de sobrevivência, atirados de chofre para o “estádio de evolução dos recolectores nómadas”. A quantas pessoas não terá faltado o “legítimo desejo de viver”?

É em especial no texto “Guerra Aérea e Literatura” que Sebald analisa esses momentos finais de sistemática destruição das cidades alemãs. É quase inimaginável que não tenham ficado cicatrizes psíquicas no povo alemão. Onde é que na literatura alemã ficou plasmado o horror e a dor do povo alemão? Aqui está a perplexidade de Sebald: não ficou. “A capacidade que as pessoas têm para esquecer o que não querem saber, para não ver o que têm diante dos olhos”, escreve Sebald, “raras vezes foi tão posta à prova como nesses tempos da Alemanha”. Deveria haver uma “literatura das ruínas”, mas, a aceitá-la, é muito incipiente, as poucas obras sobre o assunto apareceram em editoras marginais e fora de coleções consentâneas. Os alemães nem sequer protestaram contra a agressão bárbara feita contra populações indefesas. Calaram-se. Assim, “este mutismo, esta maneira reservada e alheada constitui o motivo por que sabemos tão pouco do que os alemães pensaram e viram entre 1942 e 1947”. Além disso, “esta falta de relatos contemporâneos não encontrou compensação depois de 1947”. Então o que faziam os escritores alemães nesse período mais trágico da história mundial em que o povo alemão tinha um protagonismo destacado?

Mesmo contando com os escritos de jornalistas e repórteres estrangeiros que percorreram a Alemanha devastada, Sebald considera que muito pouco se escreveu sobre aquele período. Só uns poucos autores tentaram traduzir o horror que se vivia nas cidades destroçadas: cidades sem ruas, sem casas ou prédios, sem transportes, sem canalização, sem esgotos, sem serviços médicos, polícias ou justiça. Só ruínas e entulho. E cadáveres. Muitos cadáveres e muitos ratos gordos, gordos, nuvens de moscas gordas, gordas, e um ar sufocante de tão fétido. Por terem gerado obras tão genuínas, tornaram-se impossíveis de ler de tão amargas, cruéis, repulsivas, onde os pormenores do macabro ainda hoje indispõem os mais robustos leitores. Os alemães estavam emersos nessa vida repulsiva e não sentiam o mínimo gosto em ler sobre essas mesmas situações degradantes que as obras retratavam. Ninguém as procurou ler e os seus autores acabaram “afastados da memória cultural”. Os leitores alemães precisavam do oposto, precisavam de esquecer que estavam reduzidos a uma vida miserável. A melhor dessas obras terá sido “O Anjo Silenciado”, de Heinrich Boll, uma obra escrita nos anos 40 que se revelou tão dura que só veio a ser publicada em 1992 e ainda hoje dizem que é difícil de ler. Ironicamente, as obras que mais relatam a “destruição das cidades e a sobrevivência num país em ruínas” não são contemporâneas da destruição e têm um carácter documental, como é o trabalho de Hubert Fichte e de Alexander Kluge. Neste reduzido lote de autores que lutaram explicitamente contra o esquecimento e pela memória da catástrofe, Sebald incluiu Jean Améry e Peter Weiss, autores de língua alemã mas de origem judia, que tiveram a surpresa extra, durante a guerra, de se verem espoliados pelos próprios concidadãos. Assim, estes textos, apesar de claros e factuais, estudam sobretudo o horror do genocídio e não tanto o caos das cidades alemãs e o dia-a-dia dos alemães.

W.G.Sebald considera que outros autores alemães escreveram sobre a guerra sem a chegarem a retratar. O contexto dessas obras era o da Segunda Guerra, mas tratando a guerra como uma ilustração estereotipada, em pano de fundo, para outros dramas mais importantes. Retratam uma realidade parcial, quase de costas para a ruínas, como se a destruição fosse um pretexto para outra coisa muito mais nobre. Lá está: muito mais nobre… As ruínas não eram ruínas, mas um cenário de algo muito mais importante… Autores contemporâneos da derrocada alemã como Hermann Kasack, Hans Erich Nossack, Peter de Mendelssohn e até, mais tarde, Arno Schmidt, criaram obras que, pese embora alguns instantes de atenção factual, perdem-se em “exagero filosófico”, “falsa transcendência”, “tendência para o melodramático”, mantendo uma estética anterior ao colapso. Os alemães nunca são apresentados como vítimas, mas como heróis que persistem em lutar contra todas as adversidades, mesmo quando toda a sociedade implode e desagua no absurdo. Nem mesmo Thomas Mann, com o seu “Doutor Fausto”, fez uma transposição literária da destruição das cidades alemãs, pois a obra consiste num debate filosófico que discute a relação entre ética e estética, ou seja, desvia-se da realidade factual que então se vivia.

Pode-se ainda apontar um terceiro tipo de escritor e de escritos sobre a Segunda Guerra e o colapso dos alemães. Alguns autores criaram obras que consistiram num exercício consciente de reconstrução da realidade, saldando assim as contas com o passado, muitas vezes por razões pessoais. São obras onde a ficção se coloca ao serviço da falsificação da história, uma via que atenua a sensação de tergiversação da realidade. O mais ousado dos autores que utilizou este processo foi Alfred Andersch, alguém que tinha fortes razões para pretender camuflar as relações antes da guerra que tornariam evidente o seu passado nazi, não hesitando, para isso, manipular factos. Alfred Andersch apresentou-se ao público como um “emigrante interno” (para se distinguir de Thomas Mann, que abandonara a Alemanha nazi em 1933) e como membro da “resistência passiva” ao regime nazi. No entanto, não conseguiu esconder totalmente a “linguagem fascista” nos seus textos e consultando a produção literária contemporânea da guerra veio a verificar-se como estava em linha com o regime.

Tudo somado, fica sempre a noção que os alemães ainda não tiveram o seu momento para mergulhar de cabeça na ferida psíquica mais profunda do último século e que isso talvez seja determinante para o que possa vir a ser a construção futura da Europa.

Surge esta reflexão porquê? Porque tive a oportunidade de acompanhar há pouco uma série televisiva realizada por alemães e que retrata o contexto da Segunda Guerra na Alemanha. Finalmente os alemães a contar por si mesmos aquilo que andaram sempre a evitar. A série produzida pela ZDF recebeu em Portugal o título “Os Filhos da Guerra”, mas o título original tem um sentido muito mais sugestivo que o título português não conseguiu traduzir. O original é Unsere Mutter, Unsere Vater, ou seja, “As nossas mães, os nossos pais” o que é mais significativo neste contexto de revisitar o passado trágico por parte dos alemães. Esta série é uma das poucas séries sobre a Segunda Guerra em que o foco narrativo não é o americano (leia-se: os Aliados), mas sim o alemão. Nesta narrativa os alemães não são os outros; desta vez os alemães somos nós. O normal é converter os alemães num personagem coletivo que desempenha o irremediável papel da encarnação do MAL. Um personagem abstrato, o papel fácil de Lobo Mau, que convém a qualquer argumentista que escreve em função da tradição de elogio das forças vencedoras. Mas, escusado seria dizer, um personagem destes é muito pobre e nada representativo de uma realidade histórica. Tem que se reconhecer nos alemães a mesma densidade humana que se reconhece nos outros povos e, por isso, a variedade e a diversidade que implicam contradições e tensões dentro dos grupos sociais.

W.G. Sebald considera que os alemães da segunda metade do séc. XX são “um povo nitidamente cego para a história”, em virtude dos anos de recalcamento em que se reergueu o estado alemão que hoje domina a Europa – e que o mundo toma por superpotência tímida. São cegos para a história porque cresceram virados para o futuro, deixando de lado a história recente. Talvez a produção desta série queira significar um despertar de consciência entre os alemães para a necessidade de processar o obsesso mnésico que ficou recalcado. Em todo o caso, esta fuga à história teve uma virtude, pois Enzensberger considera que a inconsciência dos alemães foi “a condição do seu sucesso” na reconstrução do novo estado.

Os alemães estarão com vontade de olhar o passado? E o que poderão vislumbrar desse passado se aquilo que se passou ficou registado pelo olhar dos vencedores? Não será legitimo querer ver, mesmo, pelos próprios olhos? Parece sintomático que a exibição da série tenha sido motivo de amplo debate na Alemanha e que a exibição de cada episódio tenha registado altos níveis de audiência.

Aparentemente à data em que a série estreou na Alemanha, em 2013, as reações foram as mais diversas. Consta que as reações na Polónia e na Rússia foram as piores, onde os media acusaram os produtores da ZDF de estarem a disfarçar a história. Parece que não gostaram de ver desvirtuado o consagrado personagem-fantoche tradicionalmente entregue aos alemães como bastonários de todo o Mal que os bonzinhos conseguiram derrotar. Nenhum dos intervenientes quer abandonar o papel tradicional. Mas atrevo-me a sugerir que se Sebald estivesse vivo, na altura em que a série se exibiu, teria comentado: finalmente os alemães assumem que também foram vítimas da guerra. E neste sentido, os argumentistas e produtores da série alemã que agora mergulham na história são, afinal, os “filhos de Sebald”. E não os filhos da guerra.

Epílogo. Não se acredite que a guerra é um fenómeno arrumado no passado. Quem viveu a destruição e depois a reconstrução pode ficar com a impressão que estes longos 80 anos de paz na Europa, sempre numa evolução positiva de crescimento da prosperidade social e económica (pese embora pontuais vicissitudes), são irreversíveis. Se cairmos na inocência de acreditar que o desenvolvimento da sociedade é um continuum crescente que há-de levar a sociedade a contextos cada vez melhores, pomos de lado a possibilidade de retrocesso civilizacional. O período da Segunda Guerra foi tão mau que muitos acreditam que a Europa jamais se deixará voltar a cair numa situação catastrófica como aquela, pois os cidadãos e os líderes não teriam desculpa para a inconsciência que outros tiveram. Mas o tempo passa, as gerações mudam, e agora são adultos certos indivíduos que perderam a sintonia com o significado existencial da Segunda Guerra. Só a conseguem compreender como um acontecimento em si, sem nexos, sem causas e efeitos nas múltiplas dimensões humanas, e, por isso, isolado das suas vidas particulares. Talvez a evolução das sociedades humanas não seja um continuum estável, mas uma sequência repetida de ciclos, onde as sociedades passam sempre pelo mesmo, ora construção, ora destruição, de modo que a catástrofe pode vir a repetir-se. Se calhar é de esperar a perda dos valores democráticos e consequente crescendo do autoritarismo, a degradação dos processos democráticos em favor de processo autocráticos, o desprestigio dos homens íntegros perante os homens-show populistas, a diminuição do pacifismo e emergência do belicismo, a perda da coesão para a emergência dos nacionalismos, a perda de respeito pela dignidade humana e pelo valor do trabalho, até nos acharmos todos num beco sem saída onde abundam valores de todo o género que ninguém quer abdicar. Soa familiar?

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Vende-se

Posted in Literaturância on 19/04/2014 by Pedro Miguel Gon

Vende-se texto em segunda mão. Só foi lido duas ou três vezes. Como novo. Apenas lhe falta um personagem credível e uma focalização coerente, de resto funciona bem. Os interessados poderão contactar pelo telemóvel 96 50 63 933. Entrego em mão, sai mais barato. Fará qualquer autor feliz.

 

 

 

 

 

O Decote

Posted in Literaturância on 28/07/2013 by Pedro Miguel Gon

O meu amigo Vandelli tem uma facilidade masculina em ficar disponível para qualquer pessoa do sexo oposto. Uma mulher que lhe dirija a palavra, mesmo de longe, encontra sempre uma simpatia preferencial que deixa, nela, a permissão de mais simpatia. Algumas mulheres ficam logo a reluzir; outras preferem ser pessoas a serem mulheres.

Pode uma mulher perguntar-lhe, onde está a esfregona?, que ele se aproxima solicito, com ou sem esfregona, cheio de intenções horizontais (ele por cima) que mal se notam na capa de ambiguidade do rosto simpático. Sorri. E obtém sorrisos. E quando faz contacto leva a conversa miúda ao mais elevado requinte da palavrosidade com que se sustentam os lugares comuns.

A simpatia de Vandelli mede-se numa escala de vários impactos curvilíneos. A expressão da sua simpatia é proporcional à beleza do decote, cuja beleza é, por sua vez, proporcional à circularidade dos volumes. Um decote é uma paisagem pneumática, diz Vandelli.

Às vezes Vandelli acrescenta com ar sonhador, de quem já esteve mais acordado: a curvatura num decote é a promessa de movimento. O motor imóvel sobre o qual não é preciso teorizar.

E se um dia…

Posted in Literaturância on 25/07/2013 by Pedro Miguel Gon

E se um dia uma palavra se revoltasse contra a ditadura da gramática e fugisse ao dicionário? Todos os professores dizem que isso nunca aconteceu, mas garanto-vos que houve uma palavra que já uma vez o fez.

Um dia a palavra AMOR cansou-se da falta de amor das outras palavras e desapareceu sem ninguém dar por ela. Pegou nas suas quatro letrinhas, convencida que ao desaparecer iria fazer falta a muita gente e, por um processo misterioso, abandonou todos os dicionários do mundo.

Foi tão engenhosa que nenhum poeta, nenhum escritor, nenhum actor, nenhum professor deu por isso. As pessoas continuaram a falar e a escrever como sempre; e ninguém descobriu que a palavra AMOR faltava no dicionário. Nem sequer era uma palavra fugitiva, pois se ninguém dera pela sua fuga também ninguém a perseguia.

Quando a palavra AMOR se escondeu pensou que o seu refúgio iria durar pouco menos de dois meses. Certamente que alguém ia dar conta da sua falta nos dicionários. Mas os dois meses passaram e ninguém deu o alerta. E depois mais dois meses. E mais dois. Havia-se escondido atrás de outras palavras, disfarçando-se com outras letras, e a camuflagem era tão boa que ninguém a encontrou nem por acaso.

Isto que vos conto aconteceu há muito tempo, por isso pergunto: será que a palavra AMOR chegou a voltar aos dicionários? Tens a certeza que ela se encontra lá? Quando foi a última vez que lá foste procurá-la? Tens a certeza que sabes o que realmente ela significa? Se eu fosse a ti pegava num dicionário e corria a procurá-la.

Uma mulher a sério

Posted in Literaturância with tags on 12/03/2012 by Pedro Miguel Gon

 

Francisca saiu do quarto com as cuequinhas e o soutien na mão (e o telemóvel) para ir tomar banho. O aparelho vibrou e Francisca consultou-o: a Joana fazia mais uma pergunta; Francisca respondeu, sem conteúdo, só o acto (a pergunta era parva e desprovida de possibilidade de resposta). Depois resolveu acender um cigarro: foi para a varanda de trás e sentou-se num pufe vermelho a fazer publicidade da La Roche. O cigarro na mão direita e o telemóvel na mão esquerda: usando apenas o polegar ia verificando as mensagens sms e os comentários no facebook. A parva da Martina estava outra vez adoentada (fingia-se); a Rute, coitada, estava triste com a cena que o grupo lhe fizera na noite anterior; o Lourenço continuava o carroceiro do costume; e de Carlota, nenhuma pista.

Apagou a prisca e foi para dentro. Ia tomar banho. Recolheu novamente as cuequinhas e o soutien que deixara sobre o cadeirão junto à porta da varanda de trás e entrou na casa de banho. Fez um xixi com o telemóvel na mão (se tivesse alguém perto de si estaria a palrar os inúmeros fogachos de impressões que lhe afloravam em mente como fogo de artificio). O aparelho dizia-lhe que o Eduardo acordou, mais uma vez, mal disposto: este tipo está sempre insatisfeito. Aproveitou para comentar o estado da Marta, sem ser muito pessoal, pois não queria comprometer-se com nada: a Marta é uma cola.

Olhou-se ao espelho. Limpeza de pele, cuidado especial com os olhos, escovar o cabelo. O aparelho (pousado ao lado do estojo de beleza, dos frascos de perfume e dos cremes) vibrou: consultou-o. Ainda não era a Carlota. Estaria ainda a dormir? Era o João com mais um comentário estúpido que toda a gente ia fingir ser engraçado com essa maneira muito portuguesa de desviar a frontalidade num aparente acordo (Não faz mal…). O João era um parvo do mais profundo que há, mas, ao mesmo tempo, um querido; podia-se fazer dele o que se quisesse desde que não contrariado, como se faz com as crianças. Logo a seguir recebeu um sms do João: queria saber se a Francisca ia almoçar em casa ou se ia comer por fora. Que chatice, não estava com disposição para aturar o João: não respondeu. Não havia maneira da Carlota dar sinais de vida. Mandou uma mensagem à Martina comentando: o João perguntou-me se vou almoçar em casa, o que é que ele quer?

Voltou à cozinha e abriu o frigorífico: retirou um iogurte líquido probiótico. Bebeu-o enquanto olhava pela janela, tentando evitar as fachadas dos prédios, tinha uma nesga de paisagem sobre um jardim urbano (encastrado entre prédios, mal cuidado e com mobiliário urbano mal conservado).

Foi para o quarto e fez a cama num instante. Pensou: vou tomar banho. Depois escolheu a roupa com todo o critério. O aparelho vibrou: a Martina respondia: os pais do João foram a Londres por estes dias e ele deve estar sozinho, uma vez que o Lúcio foi fazer a tal viagem ao deserto. Francisca sentou-se na beira da cama e perguntou teclando muito rapidamente: o Lúcio já foi para o touareg? Finita a mensagem, pensou: safado, nem sequer se despediu para não ter que falar comigo; ele sabia bem que eu queria ter uma conversa séria. Francisca achava que os outros tinham que ter a certeza quanto aos próprios sentimentos por outrem. Sim, debitou o aparelho. Francisca ficou irritada. Pegou no aparelho e no maço de tabaco e voltou à varanda de trás. Era a varanda mais resguardada, menos vulnerável ao ruído do trânsito que passava na avenida fronteira ao prédio. Sentou-se no pufe, acendeu o cigarro e com o expedito polegar mandou outra mensagem à Carlota. Era a terceira mensagem nessa manhã. Vamos tomar café ao Ritz, ou não?

Um tipo que não conhecia de lado nenhum, mas que adicionara recentemente aos amigos do facebook, comentou o estado de espírito dela, um comentário oco, um grunhido gráfico só para se fazer notar. Francisca agradeceu calorosamente. Como se o mundo fosse brilhante.

Voltou para a casa de banho onde as cuequinhas e o soutien a aguardavam em cima do armário do lavatório. Sentou-se na sanita e experimentou fazer outro xixi, porque não queria ficar com uma bexiga preguiçosa. Escovou os dentes, olhando-se ao espelho. Ainda não estava velha, pensava ela com profundidade.

Vou tomar banho, decidiu. Abriu as portadas do chuveiro e pôs a água quente a correr. Tinha horror a água fria e preferia delapidar a energia do planeta a suportar um horror pessoal. O aparelho vibrou: um sms da Beatriz perguntava se ia tomar café ao Ritz. Francisca respondeu que pensava que sim, mas ainda não tinha a certeza, ainda não decidira, depois lhe confirmaria. Foi à sala e com o aparelho na mão foi visualizando o estado de espírito de certos amigos de facebook, ao mesmo tempo que dava uma arrumadela rápida a objectos (recentrando-os na geometria apropriada), a almofadas (concertando a sequência ideal) e a sofás e cadeiras (questões de esquadria). Em suma, deixando tudo no sítio.

Voltou à casa de banho. Uma nuvem de vapor praticamente impenetrável. Fechou a porta, despiu o roupão e consultou uma última vez o aparelho para ver se havia mensagens da Carlota. Nada. Meteu-se debaixo de água e tratou ritualmente do corpo, confirmando a regularidade das linhas mestras da silhueta, o volume das coxas, a textura do abdómen. A certa altura, Francisca escutou o som do aparelho atravessar as brumas do chuveiro anunciando a chegada de uma mensagem. Ficou nervosa, irritada e furiosa ao mesmo tempo. Terminava, invariavelmente, o duche com o seguinte pensamento: tenho que me convencer a fazer mais exercício.

Limpou-se à toalha turca de cor ocre. Enxugou a cara com cuidado (a cara era uma secção à parte, com cuidados especiais), depois o cabelo e o peito. Finalmente as mãos. Pegou no aparelho: um sms do João convidava-a a almoçar com ele no Gira. Essa mensagem podia esperar. Tratou de se cobrir com o creme reafirmante, primeiro, e depois com o creme anti-rugas; tudo produtos exclusivos da Garniettet que já tinham vendido mais de trezentos milhões de unidades. Vestiu as cuequinhas (um momento ontológico que a tornava absolutamente real), acomodou o pensinho e depois o soutien, operação mais demorada que justificava mais ponderados ajustes, pois nenhuma mulher tem os seios absolutamente simétricos em localização e volume. Vestiu as calças e a camisola que a esperavam em cima da cama.

Resolveu telefonar à Carlota. Demorou a atender. Perguntou-lhe porque ainda não respondera a nenhuma das mensagens e a Carlota respondeu, num tom de súplica, que ainda não tinha tido disposição para tal e segundo motivos subentendidos que Francisca tinha toda a obrigação de saber. O ónus estava, claro está, do lado de Francisca. Sim, vamos tomar café ao Ritz. Ficou confirmado para as 14:00.

Francisca fez mais uma visita à varanda de trás e voltou a sentar-se no pufe vermelho. Acendeu um cigarro e com o polegar esquerdo aceitou o convite de João para ir almoçar ao Gira. E depois respondeu com um Like a um comentário engraçado do Eduardo sobre qualquer trica que tinha a ver com o mundo real. Entretanto o João confirmou que a vinha buscar a casa à uma hora. Francisca deteve-se um pouco projectando o que seria almoçar com o João no McDonald’s, pegou no telemóvel que decididamente a ajudava a pensar: e o polegar convidou a Marta a vir almoçar com ela e com o João ao Gira.

Francisca voltou ao quarto. Mirou-se ao espelho. E mudou de calças. Esteve para mudar de camisolinha, mas bastou optar por outro casaquinho mais adequado ao conjunto. Finalmente encerrou o caso: estava vestida para esse dia, para bem ou para o mal, com a fé de uma aposta num casino. Um novo sms avisava que Marta ia ter com ela ao Gira para almoçar.

Resolveu consultar a segunda conta de correio electrónico e preferiu usar o lap-top que estava ligado na sala. Sentou-se no sofá e gastou 30 minutos a reenviar emails que lhe tinham sido reenviados numa cadeia gigantesca de reenvios que já havia cruzado várias vezes a rede sem centro do mundo virtual. Pensou com bonomia: como é que há gente que se permite gastar tempo a fazer estas palhaçadas inúteis e depois as faz circular na internet?

Enviou um sms à Joana a informá-la que ia almoçar com o João. Joana devolveu dizendo: que bom. Depois enviou outro sms ao João a dizer-lhe para não se atrasar, porque às 14:00 queria estar no Ritz. Por volta da uma hora, quando João já devia estar a chegar ao prédio, Francisca não conseguiu dominar o impulso de lhe enviar um sms a perguntar se sabia do Lúcio. Trinta segundos depois João respondeu: foi fazer a tão badalada viagem iniciática. Quinze segundos depois outro sms comentava, dubiamente: gostos não se discutem. Dizendo implicitamente que viajar, para ele, era ir para Paris, Londres ou Viena, isso sim. Dois minutos depois o aparelho de Francisca voltou a vibrar e exibiu a palavra: desce.

Os três jovens e os três telemóveis encontraram-se como combinado no Gira. Deram umas voltitas pelas lojas e depois foram ao McDonald’s. Apesar do cheiro a fritos até era positivo comer hambúrgueres nestas incursões rápidas ao mundo das refeições pragmáticas, onde não se parava muito tempo: a refeição terá durado vinte minutos. E depois passaram à esplanada do Gira, onde beberam o primeiro café.

Marta desviou o olhar do seu telemóvel e disse: sabem qual é a nova tara do Eduardo? Só Francisca perguntou: qual? E Marta disse: o Eduardo agora acredita que uma mulher a sério é como Neytiri a proteger o seu Jakessuly, e não essas patas a encherem-se de rímel (segundo Marta, o Eduardo já reproduzira isto dezenas de vezes essa semana).

O Eduardo é um idiota, disse João enquanto teclava no telemóvel. Como se o Eduardo olhasse para alguma garota sem rímel, pensou Francisca. Depois mandou um sms ao Eduardo a dizer: eu, o João e a Marta estamos no Gira. Mas não dava para perceber se seria um pedido de socorro.

Depois a Marta disse para a Francisca: a Beatriz acabou de me mandar um sms a perguntar se estou contigo… que lhe digo? Esqueci-me, respondeu, e revirou o olhar numa hipótese altamente trágica. Francisca enviou imediatamente um sms pedindo à Beatriz vir rapidamente ter com eles: agora quase ansiava a presença de Beatriz. Porque não tinha ela vindo mais cedo?

O outro telemóvel não tardou a chegar; devia estar nas redondezas. Antes de mais nada Marta contou-lhe da nova tara de Eduardo. Ele que vá mas é brincar com as bolas nas urtigas, disparou Beatriz. Aquela resposta devia ser para outra pessoa.

João levantou os olhos do telemóvel e comentou: se vocês tivessem uns tin-tins tão salientes e acessíveis como os nossos, tão fáceis de tocar, não gozavam com a masturbação masculina; é só inveja.

Vamos para o Ritz, perguntou a Francisca, como se o lóló do João a incomodasse. Mas não se levantou quando o aparelho lhe pediu atenção: recebera um sms da Martina a dizer que o João tinha colocado um comentário no facebook, dizendo como estava a curtir estar com três gatas na esplanada do Gira. Francisca já estava impaciente.

Vamos, acudiu a Marta, é para ir ou não é para ir?

A Carlota já lá estava, a fumar na esplanada, com um desconhecido a seu lado. Ninguém tinha o número dele. Francisca não conseguia fechar a boca. Pensava: por isso é que ela não respondia às minhas mensagens. Francisca e Carlota beijaram-se sem que esta largasse o telemóvel. Quis sentar-se ao lado dela, quis fazer-lhe todas as perguntas sem poder fazê-las diante do desconhecido; por isso ria muito, não parava calada um segundo e não dizia nada com nada. As apresentações: uma larachas comuns, quem conhece quem e o quê, donde vem, por onde andou e tal. Sentaram-se os telemóveis e por meio minuto houve a oportunidade de buscarem os olhos uns dos outros. Nesse meio minuto as raparigas estavam excitadas, todas elas com o bonito aspecto de bonecas, mas com gestos infantis ancorados em torno do cigarro e do cabelo esticado, deixando a desenxabida impressão de adolescentes fáceis. João colocou o seu aparelho topo de gama em cima da mesa onde já estava exibicionado o aparelho do desconhecido.

Logo a seguir Francisca sentiu uma impaciência no polegar e quando procurou o aparelho no bolso não o encontrou. No outro bolso também não. Ao terceiro bolso vazio sofreu um aperto na aorta. Onde está o meu telemóvel? Pegou na carteira e despejou-a em cima da mesa metálica, sempre a grasnar e sem os outros perceberem que ela procurava o telemóvel. Dizê-lo era despir-se em público. Num instante recordou-se da sensação de desespero que a tomara aquando da última privação de telemóvel (já perdera sete daqueles aparelhos) e ficara horas sem o acessório, incomunicável, isolada da sociedade, sentindo-se diferente da humanidade aceitável.

De repente calou-se. Automaticamente o olhar dos outros recaiu sobre si. O que foi, perguntou a Marta. Está-se a passar, comentou a Beatriz. Tu estás bem, riu-se a Carlota num tom ligeiramente interrogativo. Até que não resistiu mais e perguntou: alguém viu o meu telemóvel? O drama foi acolhido com impaciência, a mesma dimensão de perguntar: onde está o meu casaco. Mas Francisca sentia-se despida: era como se alguém lhe conseguisse ver, à transparência, as mamas, o púbis, o refego do abdómen. Já procuraste bem? Francisca voltou a percorrer a fundura de todos os bolsos que transportava consigo.

Vocês deviam ver a fotografia que o Eduardo acabou de colocar no Facebook, disse a Beatriz com o telemóvel à direita e o cigarro à esquerda. Já vi, disse o João. Qual, perguntou a Carlota. Aquela do verão passado, na Figueira, indicava a Marta, quando juntámos o grupo naquele restaurante da marginal… já não me lembro o nome. Francisca acabou a vistoria e ficou sem lugar para as mãos.

Não encontras, perguntou o desconhecido. Não, miou ela, sem se mexer.

Talvez o tenhas deixado no meu carro, atirou o João, e levantou-se brusco. Vou lá ver, disse, já de costas para a mesa. João dirigiu-se ao parque de estacionamento sem perder a atenção no aparelho e a andar conseguiu mandar um sms ao Eduardo e ao Lúcio informando que a Francisca tinha perdido o telemóvel outra vez. Pouco depois regressou à esplanada do Ritz com a mesma expressão indiferente com que partira. Sentou-se e fingiu estar alheado como se aquilo que encontrava no aparelho contivesse um desafio intelectual absorvente.

Então, perguntou o desconhecido, estava lá? João não lhe dispensou um olhar, mas arquitetou um sorriso dirigido a Francisca: toma lá, estava no banco do pendura. Francisca agarrou no aparelho, puxou-o contra o peito e consultou imediatamente as mensagens. Num instante recuperou para a vida; afinal o dia não estava perdido. E por um milésimo de segundo, praticamente simultâneo ao arfar que lhe restaurava a vida, viu aflorar no palco da consciência o pensamento, “sou uma mulher a sério”, logo esmagado por um esquecimento necessário à sedução. Aquele desconhecido era mesmo um querido.

 

 

 

 

 

Pedro Miguel Gon

Coimbra, Janeiro 2012

O Posto de Turismo

Posted in Literaturância with tags on 13/01/2012 by Pedro Miguel Gon

Uma ciclista holandesa que acabava de cumprir três mil quilómetros a pedalar desde Amesterdão, cometeu a imprudência de tentar estacionar a bicicleta perto da arma antiaérea montada diante do posto de turismo português. Quando se preparava para baixar o descanso da bicicleta, ouviu um assobio vigoroso proveniente do posto de turismo. Carlitos abeirou-se da porta e fez-lhe um sinal com dois dedos em bailado negativo sem desperdiçar uma palavra. A holandesa escusava de saber que ele não falava inglês, ou alemão, ou francês e, já agora, espanhol. A moça sofreu um qualquer conflito de perplexidade enquanto observava o estranho funcionário do posto de turismo vestido com farda caqui e botas militares. A rapariga também não conseguiu soltar qualquer palavra, encravada que estava entre opções de inglês, neerlandês e espanhol – que ainda na véspera ensaiara com melhor acerto em Ciudad Rodrigo. Afastou a bicicleta, mas, mais adiante, também o agente da PSP a escorraçou da frontaria do Banco de Portugal, e a moça acabou por encosta-la no gradeamento que cerca a estátua do Mata-Frades. Carlitos, que seguira com o olhar o atribulado embaraço estrangeiro, apontou para dentro do posto, com autoridade, mas com calma, e a moça entrou; como quem assegura: eu sou a autoridade, filha, mas tens sorte que estamos numa democracia.

Outros turistas aproximavam-se do posto de turismo com curiosidade, supondo na peça militar um determinado valor museológico que se oferecia ali, no centro da cidade, talvez um ardil para atrair o ímpeto fotográfico das hordas de turistas. Depois contornavam a peça delimitada por fitas separadoras e admiravam o seu excelente estado de conservação, até parecia ter funcionado recentemente. Mas o desconcerto de reconhecer uma arma de fabrico americano, em 1942, montada numa praça onde as crianças, os turistas e os cães traçavam trajetórias despreocupadas, levava-os a abandonar essa clínica de turista esclarecido que em tudo quer ver plausibilidades históricas, para se acomodarem naquela vulgar impressão que reduzia a exibição do objecto a perfeito disparate. Isso não os impedia de circular alegremente, entrar no posto de turismo, recolher a brochura e o mapa da cidade, para depois dispararem os flashes diante dos monumentos do bairro histórico. Na verdade, depois das primeiras impressões indecisas, os turistas habituavam-se à presença da arma do mesmo modo que se habituavam à presença da estátua do Mata-Frades ou das pombas a jogar com as fachadas, e deixavam as rotinas mentais impor a necessária paz de espírito.

O Carlitos do posto era um homem meditabundo. Mesmo aceitando que a sua iridescência espiritual pouco superava as demoradas recapitulações da ironia de ver, dezenas de vezes por dia, as pombas a largar lastro sobre a careca do Mata-Frades.

De súbito debruçou-se nas esplanadas o som mecânico de um besouro gigante. Carlitos pôs-se à escuta. Segundos depois uma sirene gritava entre o sossego dos monumentos. Carlitos arregaçou as células e colocou os neurónios em sentido: ele sabia muito bem o que se estava a passar. O vigilante na torre da universidade havia detectado uma unidade voadora a invadir o espaço aéreo de turismo exclusivo da cidade, património da Unesco, a mais bela e mais histórica cidade neste velho pais, a primeira capital do reino ainda durante a primeira dinastia, local onde se ergueu o mais antigo dos palácios reais, local onde se encontra o primeiro dos panteões reais, albergando os túmulos dos reis fundadores da nacionalidade, os inventores de Portugal, para não falar das inúmeras peças artísticas que inauguraram períodos de mudança no gosto artístico em Portugal. Aquele alarme queria dizer tudo isto.

Carlitos deu um salto para o lugar do artilheiro, apertou-se com um cinto ao acento da antiaérea e apontou a metralhadora Browning de duplo cano aos céus, berrando: onde está ele? Até que detectou um ultra-leve a atravessar o vale do Mondego em direcção à Alta: está ali!, gritou num tom esganiçado, como se mantivesse um diálogo hierárquico entre duas patentes militares diferentes. E no instante seguinte despejou dois pentes inteiros de munições perfurantes de 10 milímetros que teriam rompido a carapaça blindada de um A16. Não acertou o alvo, mas o piloto do ultra-leve, e único tripulante, apanhou um susto de morte e despenhou-se no rio. Os turistas civilizados, belgas, ingleses, suecos, que se haviam lançado de rojo ao primeiro disparo, olharam assombrados a queda do aparelho.

Saiu do posto de turismo um tipo de fato e gravata: acertaste-lhe Carlitos? E o outro respondeu: este já não faz mais fotografias ilegais, chefe! Sacou do bolso das calças caqui um marcador vermelho e desenhou na armadura de proteção do artilheiro uma cruz perfeita no enfiamento de numerosas outras. Por ali se podia confirmar a eficácia das medidas municipais para salvaguarda do património.

O outro escarrou satisfeito, mas com cara de poucos amigos, adejou a mão em direcção aos finlandeses como quem diz deixem-se lá desse espanto civilizado que nós sabemos como resolver os nossos problemas e vão lá comprar qualquer coisa.

O Clique

Posted in Literaturância with tags on 02/08/2011 by Pedro Miguel Gon

Há uma clareira no topo da montanha onde um indivíduo aparece periodicamente. Ele só vem quando a montanha se encontra na mais íntima deserção. O automóvel corta o silêncio dos bosques com um ronco esforçado; e quando chega, abandona o carro e senta-se, adiante, numa pedra que parece uma ponta de iceberg de tanto estar enterrada no húmus.

Deixa-se ficar durante muito tempo, por vezes até amanhecer. Normalmente quieto. Só os olhos perseguem os súbitos sons quebrados que sussurram. E depois de um tanto tempo a esvaziar-se, faz o jogo. Por vezes chega, senta-se e começa imediatamente o jogo. Houve, aliás, uma ocasião em que o indivíduo nem se chegou a sentar, tal era a ânsia de fazer a aposta; e partiu de seguida com o resultado encravado na consciência.

Desta vez o indivíduo vinha a arrastar-se. Demorou uma eternidade a sair do carro. Fumou um cigarro como o derradeiro. E foi com uma espécie de remorso que se sentou na rocha. Despiu o casaco e depositou-o com falso desdém sobre as ervas em redor. Depois levantou-se, arregaçou as mangas da camisa, uma por uma, com cuidado, e começou a caminhar para trás e para a frente, diante da rocha, sem ponta de tarefa. E enquanto as pernas burilavam a ansiedade, pequenos gestos amparavam o indivíduo: as mãos esfregando o pescoço como quem quer arrancar uma sensação diferente; as mãos percorrendo o rosto como que a limpá-lo; as mãos espremendo a nuca. O queixo ossudo, a barba cultivada, o cabelo vândalo e pendente como ramos numa falésia.

Finalmente o vento veio. Já tardava. Meteu as mãos nos bolsos, fechou os olhos e parou a caminhada. Sentiu o cabelo agitar-se. E ficou estante alguns minutos, ali, ao efeito do vento, como estátua que se esculpe. E depois de escalar a alma, reencontrou o corpo e pôde mover-se outra vez com decisão.

Estava no casaco. Pegar nele não era agora uma circunstância mas um projecto. Mas no acto notou que algumas folhas secas se haviam agarrado ao casaco e esse detalhe foi suficiente para o desviar do projecto. Surgiu fácil um gesto comum nos indivíduos sedentários: com a dorsal da mão direita sacudiu as frentes do casaco até soltar as poucas partículas secas; e a mão repetiu aquele gesto de esmero sem parcimónia, ficando o gesto por várias vezes quando o casaco já estava austeramente limpo. Só depois voltou ao futuro. Aquele pequeno lampejo de esmero foi o seu último comportamento conservador. Havia sido um gesto semelhante a tantos outros, daqueles que normalmente são atributo de um indivíduo culto e organizado; logo a seguir, deixou tombar nas ervas a consciência para começar o jogo.

A mão no bolso exterior do lado direito. Um objecto metálico. E frio. Encheu a mão nesse objecto e puxou-o para fora; em duas arestas do tambor cintilou a luz da lua. As mãos neutras faziam os gestos desenhados por uma eficácia falsa, abriram-lhe o percutor, o tambor saltou para o lado e fizeram-no rodar. Depois, uma das mãos introduziu um projéctil numa das sete câmaras do tambor com uma rapidez demasiado rápida. Rodou-o de novo e fechou-o. Aliás, rodou-o várias vezes.

As mãos, que foram gémeas desde a nascença, abandonaram-se como parentes muito afastados e esquecidos. A da esquerda esgueirou-se para o bolso das calças, como quem vai dormir zangado. A outra ficou sujeita ao revólver. O metal frio colado à pele, a exalar uma vibração próxima da excitação. Hesitava.

O indivíduo pensou em fumar outro cigarro. Para voltar a ter aquele concreto entre os dedos e poder adiar tudo pelo tempo de dez centímetros de tabaco incendiado. Mas, afinal, a qualquer momento teria de expor-se à decisão. E a sua situação já era irreversível. Era assim, com a carne, com o sangue que decidia. Sempre que chegava a uma encruzilhada vital vinha ali apostar uma decisão, medindo as suas possibilidades de sucesso pelo resultado da aposta. Ele fazia do revólver o acerto da escolha. Os miolos mediam-se com a arma até ao momento do disparo e só no último instante a arma se afastava para disparar para o ar.

Uma única bala no revólver poderia ditar o sentido da sua sorte. A roleta da decisão: se a arma disparasse isso significava não avançar na tal situação em escrutínio; se não disparasse significava que poderia avançar. A escolha tornara-se, assim, uma tarefa metafísica. Não era por um cálculo racional incertamente humano que conseguia ler o arbítrio: entregava-se a desígnios muito superiores – mas em vez de se entregar ao universal, entregava-se à singularidade de uma bala.

Desta vez, porém, o disparo não é para o ar. É para o parietal direito. Encostou o cano do revólver por cima da orelha e esperou, inspirou, a mão vacilou, estava a conter a respiração, não que o pretendesse fazer, tudo em silêncio, aquele que torna os segundos mais longos que horas. Ouviu um clique, estremeceu, e ficou no soslaio da alma.