Archive for the Phrontistérion Category

O que estraga um escritor?

Posted in Phrontistérion with tags on 05/03/2015 by Pedro Miguel Gon

Nas vésperas de morrer, Tolstoi escreveu que, de modo genérico, é imoral que um escritor publique as suas obras enquanto está vivo. Deve contentar-se, dizia, em entesourar; que nos publiquem, se quiserem, depois da nossa morte. Para não falarmos no facto de que Tolstoi só chegou a todos esses bons pensamentos depois de haver dado a volta das paixões e dos pecados, cumpre dizer que neste ponto ele se engana, ainda que se trate de épocas calmas; quanto mais estando em causa uma época tão apressada quanto a nossa. Ele tem razão ao dizer que o desejo de um novo êxito junto ao público estraga a pena do escritor, mas há outra coisa que a estraga ainda mais: a impossibilidade, durante anos, de ter leitores – leitores severos, hostis, entusiastas –, a impossibilidade de exercer alguma influência, por pequena que seja, graças à pena, sobre a vida ambiente, sobre a mocidade que cresce. O mutismo confere pureza, mas também acarreta certa irresponsabilidade.

Alexandre Soljenitsine, O Carvalho e o Bezerro, O escritor subterrâneo

 

 

Soljenitsine Bezerro

Mitos na criação literária…

Posted in Leituras, Phrontistérion with tags on 25/04/2014 by Pedro Miguel Gon

 

Feodor Dostoyevsky

Em fins de Novembro, Dostoievsky concluiu que a forma de “confissão” (ou seja na primeira pessoa do singular) em que tinha escrito até aí Crime e Castigo, era absolutamente imprópria para a grande quantidade de material que gradualmente acumulara na mente. Assim, declarou a Vrangel que queimara “tudo” e que começara a escrevê-lo desde o princípio. “Trabalho dia e noite” – afirmava na mesma carta -, mas isso não é suficiente. (…) Um romance é algo de poético, que exige um espírito contemplativo e imaginação. E eu ando aflito por causa dos credores, que me ameaçam de prisão”. (…) Havia ainda os ataques epilépticos e, mas recentemente, em Fevereiro e Março, uma crise de hemorroidas. “Durante quinze dias” – queixava-se Dostoievsky –, “tive de permanecer deitado no canapé e não pude escrever. Deitado sempre, porque era impossível estar de pé ou sentado, devido às convulsões dolorosas que me atacavam mal me levantava do leito! (…) Tornei-me nervoso e irritável, transtornado. Não sei como isto acabará. Em todo o Inverno, não visitei ninguém e não vi nada sem pessoa alguma. Fui apenas uma vez ao teatro, à estreia de Rogneda. E assim continuarei até acabar o romance – se antes disso não me meterem na cadeia”.

David Magarshack, Dostoievsky, Projectos de casamento: duas jovens

A Literatura, segundo H. G. Cancela

Posted in Phrontistérion on 09/04/2014 by Pedro Miguel Gon

“Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.
No livro não cabem nem o som nem a memória íntima das palavras, o timbre que ecoa na consciência como correlato de uma voz que ultrapassa a possibilidade de qualquer fixação gráfica. Na literatura mal cabe a multiplicidade de registos nos quais o livro se desdobra.

Importa acreditar mais na literatura do que no livro. Na voz, no ritmo, no fio de consciência que se faz mundo. Importa acreditar mais nas palavras do que em qualquer suporte. Acreditar que literatura é uma forma de compreensão. Não uma explicação, uma compreensão. Interior e voluntariamente condicionada pelas suas próprias opções. Exigente e sem compromissos que não sejam o da sua estrita legibilidade.”

Literalmente roubado daqui: contra mundum.

 canacela

Começar a escrever uma obra

Posted in Leituras, Phrontistérion with tags on 31/03/2014 by Pedro Miguel Gon

Feodor DostoyevskyDostoievsky começou a escrever O marido eterno em Agosto de 1869. Em fins de Outubro, “dois terços” – escreveu a Maykov -, já foram escritos e, finalmente, passados a limpo”. Levou três meses a escrever. “Não podes imaginar” – escreveu para a sobrinha, de Dresden – “o árduo trabalho que tive , sobretudo porque detestei esta estúpida história logo desde o princípio”. Detestava-a por duas razões: primeira -Kachpirryov, o editor de Zarya, foi tão renitente em mandar-lhe os adiantamentos prometidos sobre a novela, que, certa vez, Dostoievsky chegou a ter de empenhar as calças a fim de conseguir dois táleres para um telegrama; segunda – concebera, entretanto, a ideia de um romance grande, em várias partes independentes, “ao qual” – como disse para a sobrinha – “estou inteiramente consagrado, embora não possa, não deva, de facto, começar a escrevê-lo, pois não estou pronto para isso; ainda não pensei devidamente nele e falta-me material – portanto, sou forçado a inventar outras histórias, que me parecem absolutamente desprezíveis”.

David Magarshack, Dostoievsky, Quatro anos no exílio

 

Demasiadas tarefas num escritor

Posted in Leituras, Phrontistérion with tags on 22/03/2014 by Pedro Miguel Gon

Feodor Dostoyevsky

Mal começou a editar O Cidadão, Dostoievsky sentiu que o árduo trabalho diário com o periódico chegava a asfixiar os seus poderes criadores. Em Janeiro de 1873, já escrevia à sobrinha que se amaldiçoava por ter decidido tomar conta de um semanário. A 12 de Julho, queixava-se a Ana, novamente com os filhos em Staraya Russa, que parecia estar a ficar cada vez mais “idiota” e que sentia muita dificuldade em escrever fosse o que fosse. “Há já um mês”, acrescentava, “comecei a notar a diferença entre a facilidade com que criava a minha obra literária em Dresden e a dificuldade com que o faço aqui. Atribuo isto às constantes preocupações, conflitos e aborrecimentos que as minhas actividades editoriais originam. São tão exaustivos, que terei de fazer uma cura de repouso após este ano maldito”.

David Magarshack, Dostoievsky, Últimos Anos: o profeta
 
 

Trabalho de escritor

Posted in Leituras, Phrontistérion with tags on 20/03/2014 by Pedro Miguel Gon

Feodor Dostoyevsky

“A 21 de Dezembro de 1869, Dostoievsky mandou a Sofia a seguinte descrição do seu quotidiano em Dresden: “Levanto-me à uma da tarde, pois trabalho de noite. Escrevo das 3 às 5; depois saio para um passeio de meia hora, indo ao correio e regressando pelos Jardins Reais – sempre o mesmo caminho. Jantamos em casa e a seguir saio para outro passeio, voltando de novo pelos Jardins Reais. Chegado a casa tomo chá e, às dez e meia da noite, sento-me a trabalhar, normalmente até às cinco da manhã. Depois deito-me e, pontualmente, adormeço ao bater das seis. Eis a minha vida.”

David Magarshack, Dostoievsky, Quatro anos no exílio

 

Vergílio Ferreira – Escrever

Posted in Phrontistérion on 05/09/2013 by Pedro Miguel Gon

“205.  Nada. Restos detritos desperdícios. Disso se faz hoje a literatura (…). São as últimas gotas de quem se espremeu. As estradas reais da cultura deixaram de ser transitadas e a erva e a floresta absorvem-nas como nas civilizações perdidas. Caminha-se hoje por carreiros desviados com uma problemática possibilidade de comunicação. Não se pensa o pensamento mas as margens dele ou as suas sequelas. Não se fala do homem mais do que há dele na sua ausência. Não se fala do que se come mas do prato em que se come ou dos sobejos que se deitam ao lixo. Hoje é o tempo do nada que não ousa o seu nome. Hoje é o tempo de se não ser. Hoje é o tempo de a própria morte se não dizer ou escrever na chamada tinta simpática para algum desocupado a tornar legível um dia.”

Vergílio Ferreira, Escrever, 205 (2001)