Leituras – Lars Gustafsson

Posted in Leituras on 22/01/2017 by Pedro Miguel Gon

A Nancy é uma pessoa muito invulgar. Não compreendo como se tornou a tal ponto uma estranha para mim. Um ser fundamentalmente insatisfeito, que parece estar permanentemente a caminho de outro sítio, que não vê aquilo que tem (o Tom, que ela descura visivelmente e que está sempre a impingir aos outros) e que corre atrás do que não tem (um homem, calculo eu, mas receio que no fundo ela deseje antes uma amante), sempre a pensar em questões, movimentos, opiniões: pós-modernismo, desconstrutivismo, feminismo, o colapso iminente dos EUA. Tudo isto me parece, não a expressão de uma política reflectida, mas antes manifestações de uma amargura destruidora, uma espécie de movimento juvenil destrutivo, não-académico, uma fúria adolescente que é pouco atrativa numa mulher de trinta anos. Transitando constantemente de um homem para outro (cada um mais bem cotado que o anterior, de uma forma que se tem revelado muito favorável à carreira dela), de universidade para universidade (cada uma, também, mais prestigiante que a anterior), conseguiu nunca desenvolver uma personalidade própria. Não passa de um espelho complacente das ideias que várias pessoas em volta dela, principalmente homens celebrados, fazem incidir sobre a sua superfície.

Lars Gustafsson, História com Cão (1993), 22. A Loja de Animais. A Tartaruga.

img_6697

 

Leituras – Milorad Pavic

Posted in Leituras on 22/12/2016 by Pedro Miguel Gon

Um livro pode ser uma vinha regada pela chuva ou uma vinha regada pelo vinho. Este, como todos os dicionários, pertence à segunda categoria. Um dicionário é um livro que pede pouco tempo a cada dia, mas que toma muito no decorrer dos anos. Não se deve subestimar tal perda. Sobretudo se admitirmos que a leitura é, de maneira geral, uma ocupação duvidosa. Pela leitura, um livro pode ser curado ou ser morto. Pode ser transformado, engordado ou violado. O seu fio condutor pode mudar de sentido, há sempre alguma coisa que nos escapa, perdemos letras entre as linhas, páginas entre os dedos, enquanto outras crescem entre os nossos olhos, como repolhos. Se o deixarmos de lado, arriscamo-nos a encontra-lo no dia seguinte como um fogão apagado sobre o qual mais nenhum jantar quente nos esperará. Além do mais, hoje em dia, os homens não dispõem de tanta solidão para que possam ler, sem prejuízo, livros e também dicionários. Mas tudo tem um fim – o livro é como uma balança: pende primeiro para a direita, depois para a esquerda para sempre. O seu peso passa, desse modo, da mão direita para a mão esquerda, e um movimento semelhante produz-se na cabeça do leitor – do domínio da esperança, os pensamentos deslocam-se para o da lembrança, e tudo se acaba. Na orelha do leitor talvez permaneça um pouco da saliva do escritor, trazida pelo vento das palavras com um grão de areia no fundo. Ao redor desse grão, como uma ostra, vozes serão depositadas durante anos, e um belo dia elas transformar-se-ão em pérola, em queijo de cabra negra ou ainda em bolha vazia, quando as orelhas se fecham como uma concha.

Milorad Pavic, Dicionário Khazar – Versão feminina (1984), Observações finais sobre as vantagens deste dicionário

img_2399

“O Limoeiro já tem amigos”

Posted in Notícias on 01/12/2016 by Pedro Miguel Gon

É já este sábado à tarde!

cde_v7_a4_web_1

 

Ver a página da CMC

Apresentação do livro “O Limoeiro já tem Amigos”

Posted in Notícias on 21/11/2016 by Pedro Miguel Gon

o-limoeiro-ja-tem-amigos

 

 

Chega finalmente a oportunidade de apresentar o meu mais recente texto.

O livro vai ser apresentado na CASA DA ESCRITA (Rua João Jacinto, nº 8 – perto da faculdade de Psicologia), dia 3 de Dezembro, às 16:00.

Estão todos convidados!

 

img_2184

 

 

 

Leituras – Amos Oz

Posted in Leituras on 12/11/2016 by Pedro Miguel Gon

Fima apontou o garfo à testa, às têmporas e à nuca, tentando adivinhar e sentir o que poderia acontecer na fracção de segundo em que o projétil penetrasse e explodisse dentro do crânio: talvez nem dor, nem estrondo e procurou imaginar, só um clarão fulgurante de incredulidade, de inconcebível, como um garoto que se preparasse para apanhar uma chapada do pai e, em vez de uma bofetada, se lhe cravasse de súbito um espeto em brasa por um olho dentro. Haverá uma fracção de segundo, um átomo de tempo infinitesimal, em que, quem sabe, se revela a iluminação? A luz primordial dos sete céus? Onde tudo o que é obscuro e inexplicável na vida é esclarecido, num ápice, antes da queda nas trevas? Desde sempre se tem procurado a complexa solução para o insondável mistério e será que no derradeiro instante ela fulgura com tanta simplicidade?

“Deixa-te de lixar o juízo”, disse Fima para consigo com voz rouca. “Opaco” e “inexplicável” eram palavras que lhe causavam náuseas. Levantou-se, saiu fechando atrás de si a porta do apartamento, dando particular atenção à algibeira onde tinha metido a chave. Em baixo viu, através da fresta, uma carta a alvejar na sua caixa do correio, só que no bolso direito estava apenas a chave de casa e a do correio ficou possivelmente sobre a secretaria, se não num bolso doutras calças ou num canto da banca da cozinha. Hesitou e renunciou à vontade de a ir procurar, admitindo que não passaria da factura da água ou do telefone ou de mera publicidade. Enquanto almoçava uma omeleta com salsicha, salada e uma compota de fruta no restaurantezinho em frente, teve um sobressalto ao repara, pela janela do restaurante, que no apartamento a luz estava acesa. Refletiu um pouco, considerou a remota eventualidade de possuir o dom da ubiquidade, preferindo a hipótese de que tinha sido reparada a avaria e que a corrente fora restabelecida. Concluiu, consultando o relógio, que se resolvesse ir lá acima apagar a luz e andar à procurar da chave do correio para retirar a carta, chegaria atrasado ao serviço. Assim, pagou e disse: “Obrigado senhora Schoemberg” e ela, como sempre, corrigiu-o: “Scheinmann, doutor Nissan”.

 

Amos Oz, A Terceira Condição (1991), 3. A Caixa da Bicharada

 

fotografia

 

 

Novo livro

Posted in Notícias on 07/11/2016 by Pedro Miguel Gon

Olá!

Está para chegar um livro novo…

 

o-limoeiro-ja-tem-amigos

pagina-do-livro-01

Ciclo Coimbra (t)em Poesia

Posted in Poemática with tags , on 28/10/2016 by Pedro Outono

cctp_v22_a3_1_outubro_ii-pdfimg_2158img_2151img_2167

 

 

 

é

procurar um amigo com quem faço amor

e pegar-lhe na mão

como se pegasse no planeta

Amarro-lhe o primeiro beijo

como se fosse viajar

 

Abraço-lhe o lugar de nós

como uma escalada para dentro

e as mãos,

atrasam-se no corpo dela

como desertoras

 

Labiamos-nos

 

Sexo-lhe os contornos

como se o mundo estivesse todo

no nenúfar em que encaixo

o corpo

 

é

o cocegar dela na minha alma

 

 

 

###

 

 

 

 

tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteroides

 

 

 

 

###

 

 

 

 

estou lá sentado dentro do espaço que ocupo sentado

mas duvido que esteja coincidentemente dentro de mim

é sempre assim quando as árvores pretendem fazer uso das pernas

 

nascemos todas as manhãs sob o epíteto do oxigénio

e apresentamos os braços e as pernas ao martírio

do movimento

e depois chega a noite – epitáfio da termodinâmica

 

agora quero sentar-me em mim mesmo e não consigo

porque não encontro o degrau paulatino em que me esqueci

 

e ao mesmo tempo que tento sentar-me no degrau certo

tento ainda o golo milagroso que me faria sentar de vez

no preciso instante em que estou sentado

 

 

 

 

###

 

 

 

 

trinco a língua de propósito

como se morder o português me tornasse mais livre

 

vejo que a manete dos livros não tem funcionado

e não posso levar a biblioteca ao mecânico

porque já não restam páginas para lá chegar

 

É mordido de insónia que planeio genocídios

e transfusões de sangue Então desmantelo a mão

descarto dois dedos e faço uma fisga

com que ataco a verborreia

 

Ainda lasco as sílabas no aperto dos lábios

apertadas na saliva como se decepasse o maxilar

Ouço as pedras basálticas enlaçadas nas vinhas

e os berros de perros pulmonares

orquestras de dentes caninos dilacerando a língua

num esgar de quem faz por existir

sem o preço dos móveis Ikea