Leituras – Carson MacCullers

Posted in Leituras with tags on 27/11/2018 by Pedro Miguel Gon

«Bebe», disse ela. «Faz-te bem.»

O corcunda parou de choramingar, lambeu as lágrimas à volta da boca e fez o que ela disse. Quando acabou, foi a vez da Miss Amélia beber um trago; bochechou lentamente, e depois cuspiu, antes de beber a sério. Os gémeos beberam cada qual da sua garrafa e o mesmo fez o contramestre.

«É uma rica bebida, uma macieza», disse Stumpy MacPhail. «Miss Amélia nunca falha.»

Deve ser tomado em conta o whisky bebido nessa noite (duas garrafas das grandes). Aliás, seria difícil explicar o que se seguiu, porque talvez sem isso o café nunca chegasse a existir. O álcool de Miss Amélia é uma coisa à parte. É puro e queima na língua, mas, quando desce, faz efeito durante muito tempo. Mas não é tudo. É sabido que, se uma mensagem é escrita com sumo de limão numa folha de papel branco, não se vê. Mas se o papel for aproximado do fogo, então as letras aparecem castanhas e o significado torna-se claro. Imagine-se que o whisky é o fogo, que a mensagem apenas é conhecida pela alma do próprio – é assim que o valor do álcool de Miss Amélia pode ser avaliado. Coisas que passaram despercebidas, pensamentos que, acumulados no fundo da mente, são repentinamente revelados e compreendidos… Um tecelão que só se preocupa com o tear, a lancheira, a cama e novamente o tear – este tecelão pode beber um pouco num domingo e deparar com um lírio do pântano. E, com a flor na palma da mão, examinará a carola frágil e sentirá uma doçura tão penetrante como o sofrimento. O tecelão levantará os olhos vendo, de súbito, pela primeira vez, o sinistro e frio brilho do céu de Janeiro à meia-noite, e o receio profundo da sua própria pequenez far-lhe-á parar o coração… Coisas como esta aconteciam quando um homem bebia o whisky de Miss Amélia. Podia sofrer ou ficar exausto de alegria – mas a verdade fora revelada: a alma tornara-se cálida e lera a mensagem nela escondida.

Carson MacCullers – Balada do Café Triste (1951)

 

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Carson McCullers – O Coração é um Caçador Solitário

Posted in Leituras with tags on 26/11/2018 by Pedro Miguel Gon

– A Baby está mesmo gira – disse Bubber, em voz baixa.

Talvez fosse por causa do dia inesperadamente quente e radioso, depois de várias semanas de chuva. Ou talvez porque as roupas de inverno escuras que eles usavam lhes pareciam demasiado feias para uma tarde como aquela. O certo é que Baby parecia uma fada ou algo saído de um filme. Envergava o vestido de noite do ano passado, com um pequeno saiote de renda cor-de-rosa e, inclusivamente, uma malinha cor-de-rosa. Com o seu cabelo louro, ela era uma amálgama de cor-de-rosa, branco e dourado, tão delicada e pura que quase feria os olhos de quem olhasse na sua direção. Baby descia elegantemente a rua, sem olhar para eles.

– Vem cá – chamou-a Bubber. – Deixa-me ver a tua malinha cor-de-rosa…

Baby passou mesmo ao lado deles, com a cabeça virada para o lado. Estava decidida a não lhes dirigir a palavra.

Entre o passeio e a estrada havia uma faixa de relva, e, quando Baby a alcançou, ficou parada durante alguns segundos e depois fez um salto mortal.

– Não lhe liguem – disse Spareribs. – Está sempre a exibir-se. Vai ao café do senhor Brannon buscar guloseimas. Como é tio dela, dá-lhas de borla.

Bubber apoiou o cabo da espingarda no chão. A arma era demasiado pesada para ele. Observava Baby a descer a rua, remexendo no seu cabelo desgrenhado.

– Que malinha cor-de-rosa tão engraçada – disse ele.

– A mãe dela está sempre a dizer que ela é muito talentosa – proferiu Spareribs. – Está convencida de que a Baby vai ser uma estrela de cinema.

Já era tarde para ir ver as fotografias da National Geographic. Estava quase na hora do jantar. Ralph começou a choramingar, e ela tirou-o do carrinho e pô-lo no chão. Era dezembro e, para uma criança da idade de Bubber, ainda faltava muito tempo para o verão. Baby usara aquele vestido no verão anterior, sempre que vinha dançar para o meio da rua. A princípio, os outros miúdos reuniam-se para a ver, mas fartaram-se rapidamente. Bubber era o único que ficava a observá-la sempre que ela saía para dançar. Sentava-se no passeio e avisava-a sempre que aparecia um carro. Vira Baby rodopiar centenas de vezes, mas, como já haviam passado três meses desde o verão, parecia-lhe novidade.

(…)

Estava tudo muito silencioso. O Sol escondera-se atrás dos telhados das casas e o céu exibia uma tonalidade púrpura e rosada. No quarteirão ao lado, ouviam-se crianças a andarem de skate. Bubber encostou-se a uma árvore e parecia estar a sonhar acordado. O aroma do jantar começou a emanar do interior da casa. Estava na hora de irem comer.

– Vejam – disse Bubber, de repente. – Lá vem a Baby outra vez. Fica mesmo gira com aquele vestido cor-de-rosa.

Baby caminhava lentamente na direção deles. Recebera uma caixa cheia de pipocas doces e a comê-las. Caminhava com muita vaidade e delicadeza. Percebia-se que sabia que estava a ser observada.

– Por favor, Baby… – pediu-lhe Bubber quando ela se aproximou. – Deixa-me ver a tua malinha cor-de-rosa e mexer no teu vestido.

Baby começou a trautear uma melodia, sem lhe dar ouvidos. Passou ao lado dele sem o deixar brincar com ela, limitando-se a baixar a cabeça e a sorrir-lhe ligeiramente.

Bubber continuava com a espingarda encostada ao ombro. Imitou o som de um disparo, em voz alta, e fingiu que a tinha alvejado. Depois, tornou a chamá-la, numa voz doce e triste, como se chamasse um gatinho.

– Vá lá, Baby… Vá lá…

Bubber foi demasiado rápido para Mick. Ela apercebeu-se da mão dele no gatilho, e, no instante seguinte, ouviu-se o terrível disparo da espingarda. Baby caiu no passeio. Mick ficou colada aos degraus da entrada, sem se conseguir mexer ou gritar. Spareribs tinha o braço por cima da cabeça.

Bubber era o único que ainda não se tinha apercebido de nada.

– Levanta-te, Baby – gritava-lhe ele. – Não estou zangado contigo.

Aconteceu tudo no intervalo de um segundo. Os três alcançaram Baby ao mesmo tempo. Ela estava deitada no passeio sujo. A saia por cima da cabeça deixava ver as suas cuequinhas cor-de-rosa e as perninhas brancas. As mãos dela estavam abertas: numa tinha o papel das guloseimas e na outra segurava a malinha. Havia sangue na fita do cabelo e nos caracóis louros. Fora atingida na cabeça e tinha o rosto voltado para o chão.

Naquele segundo, aconteceu muita coisa. Bubber gritou, largou a arma e desatou a fugir. Mick levou as mãos à cara e gritou também. Depois, apareceu muita gente. O pai deles foi o primeiro a chegar. Pegou em Baby e levou-a para dentro de casa.

Carson McCullers, O Coração é um Caçador Solitário, Parte II, 5

 

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Como me contaram a história da Princesa Ateh, a Caçadora de Sonhos

Posted in Literaturância with tags on 28/09/2018 by Pedro Miguel Gon

Conta quem acredita que na época em que o Império Bizantino prosperava em Constantinopla e a mensagem de Maomé se espalhava a partir da arábia, um povo guerreiro proveniente das estepes da Ásia veio fixar-se na bacia do rio Volga. Eram cavaleiros exímios, como todos os das tribos turcomanas, e por valor próprio ganharam o respeito dos povos vizinhos. Fundaram uma cidade para capital, Itil, na margem norte do mar Cáspio e controlavam um território que se estendia da Crimeia até às portas de Nínive.

Mas se a força e a perícia da cavalaria Khazar era extraordinária, mais singular era a cultura mística dos sacerdotes daquele povo. Conta-se que os sacerdotes Khazar dominavam a arte dos sonhos, uma arte agora extinta, e que aos melhores mestres nessa arte chamavam de Caçadores de Sonhos. Como povo oriundo das profundezas silenciosas da estepe, onde só o vento corre mais rápido que o cavalo, aprenderam a ler as mensagens do universo nos sonhos. Neles, o sonho substituía a observação e a reflexão. Aperfeiçoaram de tal maneira esta arte que podiam penetrar com facilidade nos sonhos de outros homens, viver e morar neles, e até a roubar os melhores sonhos de alguém. Era assim que ampliavam o conhecimento, assim dominavam a Geografia e a Cosmologia, assim tomavam decisões estratégicas na política e na guerra. Qualquer intriga contra o Khagan era desmantelada porque os sonhos de poder dos adversários do rei eram de pronto desmascarados.

Na khazária todos conheciam a Princesa Ateh, a irmã do Khagan, mas poucos sabiam que ela dominava a arte do sonho tão bem como o melhor dos caçadores de sonhos. Apenas a sonhar, sem acesso a qualquer manual, a Princesa Ateh aprendeu tudo o que havia a aprender sobre filosofia, história e política, só de imiscuir-se nos sonhos dos forasteiros que visitavam Itil, viajantes que vinham da Grécia, do Egito e até, por vezes, vindos da China e Índia. Descobriu nos sonhos dos forasteiros a existência de livros sagrados onde se jurava o mistério de um Deus único, a Tora, a Bíblia e o Corão, um disparate só possível em livros estrangeiros já que cada um dos livros magicava um deus diferente.

A Princesa Ateh tinha em Al Safer, talvez o mais poderoso sacerdote do reino Khazar, um amante secreto. Quando os dois amantes se deitavam para dormir tinham sonhos que se visitavam como duas histórias diferentes a partilhar os mesmos personagens. A maior prova de amor era sonharem-se mutuamente com frequência. Havia dias em que só nos sonhos se viam e nessa matéria sensível partilhavam as carícias que não tinham podido trocar nos salões do palácio. Mesmo estando em camas separadas e distantes, ela sonhava o sonho dele e ele sonhava o sonho dela.

A Princesa Ateh sabia que a matéria dos sonhos é vocabular, mesmo quando não havia palavras para traduzir o produto do sonho. Tantas vezes acontecia o sonho dar origem a uma palavra antes inexistente. Os sonhos eram para os caçadores de sonhos uma fonte inesgotável de vocabulário. Por essa razão a Princesa Ateh começou a redigir o Dicionário Khazar, mas partilhou esta tarefa hercúlea com o amante, de modo que ela redigiu a versão feminina do dicionário e Al Safer redigiu a versão masculina desse mesmo dicionário. Este tornou-se o mais sagrado dos livros da cultura khazar, o único onde se registaram as capacidades e os feitos dos caçadores de sonhos. Tão importante era o vocabulário khazar que a Princesa Ateh ordenou a captura de dezenas de papagaios com o dom da palavra. De seguida ordenou que ensinassem aos papagaios todas as palavras contidas nos dicionários khazar, acreditando que se um dia os Khazar desaparecessem não desapareceria a sua língua. Na verdade ainda hoje se encontram os descendentes loquazes desses distantes papagaios que parecem falar entre eles numa língua muito própria – muitos acreditam ser a língua khazar.

Se a Princesa Ateh podia entrar no sonho de outros e ler-lhes a matéria sonhada, o mesmo lhe podia acontecer a ela. Tinha o receio enorme de ser atacada durante o sono por algum demónio que lhe roubasse a memória dos sonhos. Por isso quando se deitava para dormir precisava de reunir umas quantas cautelas. Nunca se deitava sozinha, pois as aias, sempre sete, ficavam acordadas de guarda. E quando a deitavam no leito, uma criada cega inscrevia em cada uma das pálpebras uma letra do alfabeto khazar proibido, letras que podiam matar quem tivesse o azar de as ler, mesmo em sonho. Deste modo ninguém conseguia aproximar-se dela durante o sono. De manhã as criadas atendiam a Princesa de olhos fechados até ao momento em que lavava o rosto.

Um dia a Princesa Ateh sonhou um sonho e colocou-o no sonho do irmão, o poderoso Khagan, já que a sede de sabedoria a deixava inquieta quanto à pretensa verdade dos livros sagrados estrangeiros. Engendrado o sonho, o Khagan chamou ao reino Khazar homens esclarecidos que soubessem explicar as religiões dos livros sagrados. E foi assim que no dia seguinte partiram três emissários com destinos diferentes: um foi à corte bizantina em Constantinopla informando o Imperador que o Khagan Khazar pedia que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do cristianismo; outro foi à Sinagoga de Jerusalém pedir que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do judaísmo; outro dirigiu-se ao Califado de Samarra para pedir que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do culto islâmico.

Por um acaso de sonho bem sonhado, os três representantes das religiões chegaram quase ao mesmo tempo a Itil. O Imperador Bizantino enviou como emissário São Cirilo, acompanhado do irmão Metódio, os dois evangelizadores dos povos eslavos. Os Rabis de Jerusalém enviaram como delegado o rabino Issac Sangari. O Califa de Samarra enviou o dervixe Farabi Ibn Kora. Os debates entre estes três estudiosos e os khazar decorreram durante vários dias, mas os maiores progressos faziam-se à noite, quando a Princesa Ateh analisava ao pormenor a argúcia dos argumentos dos polemistas. Estando todos os delegados a dormir, a Princesa Ateh deitava-se também e dedicava-se ao estudo sonhado das verdades escritas.

Começou por entrar nos sonhos de Cirilo porque sabia que os cristãos eram herdeiros do Logos grego e afirmavam “No princípio era o Verbo”. Cirilo sonhava em grego. Palmilhou com paciência os sonhos dele até que percebeu que o Messias cristão chegou ao mundo por causa de um sonho. Descobriu que Deus havia aparecido em sonho à mãe de Cristo, Maria, e esta engravidou em virtude de uma palavra sonhada. Todo o sémen necessário foi uma palavra. A Princesa Ateh ficou convencida que o Deus cristão não passava de algum caçador de sonhos que tinha invadido os sonhos da Virgem e neles tinha inseminado a vontade de gerar um filho de Deus. Quando chegou o momento do Khazan se pronunciar, reuniu-se com a Princesa Ateh e escutou os seus conselhos. A argumentação de Cirilo foi repudiada, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao cristianismo.

A Princesa Ateh entrou depois nos sonhos do delegado judeu, Issac Sangari, e demorou-se a interpretar tantos sonhos antigos já desgastados de tanto uso e que tantos homens já haviam sonhado. Sangari sonhava em hebreu. Descobriu que o Deus pregado pelos judeus havia renegado e dispersado os próprios judeus pelo mundo. A Princesa convenceu-se que o judaísmo era uma religião adiada no futuro por estarem todos à espera de sonhar a palavra germinal que dará um Messias redentor. Mais uma vez o Khazan ouviu os conselhos da irmã e a argumentação de Sangari foi repudiada, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao judaísmo.

Por último, a Princesa Ateh vistoriou os sonhos do delegado muçulmano e estudou os alicerces do islamismo. Quando o dervixe Ibn Kora se deitava e adormecia, sonhava em árabe passagens inteiras do Corão. A Princesa descobriu que os islâmicos acreditam que o Corão é o único e autêntico livro santo, pois tinha sido ditado por Alá a Maomé, no qual se prescrevia o caminho para o paraíso. Para um caçador de sonhos era muito fácil perceber que o islamismo se assemelhava a um sonho cristão corrompido, já que os cristãos também almejam o paraíso ao qual se chega por um caminho difícil. No último dia do debate, a argumentação de Ibn Kora foi repudiada pelo Khagan, que não ignorou os argumentos da Princesa Ateh, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao islamismo.

Encerrado o debate, a Princesa Ateh chegou à conclusão que nenhuma daquelas religiões suplantava as capacidades dos caçadores de sonhos. Aquelas religiões tomavam o homem como um ser invariavelmente subserviente a uma entidade desaparecida, enquanto os caçadores de sonhos tomavam o homem pelo que ele podia criar por si. Era fácil concluir, para um caçador de sonhos, que nos sonhos é possível a um cristão comportar-se como um judeu, um judeu comportar-se como um muçulmano ou um muçulmano comportar-se como um cristão.

Depois da polémica com as religiões, a desgraça recaiu sobre a Princesa Ateh. Há quem diga que foi por causa da raiva dos delegados derrotados na polémica Khazar, tendo visto as respetivas crenças repudiadas, que a Princesa Ateh perdeu o poder de sonhar. Os três demónios, o Belial judeu, o Satanás cristão e o Íblis muçulmano, uniram-se e condenaram a Princesa Ateh ao esquecimento do vocabulário khazar. Isto aconteceu durante a noite, enquanto sonhava. Quando a princesa despertou não compreendia nenhuma das criadas, a não ser que lhe falassem em grego, hebraico ou árabe.

Na noite seguinte, quando pretendeu empreender um sonho para se encontrar com Al Safer, não conseguiu sonhar. Só ao fim da noite de insónia percebeu que sem dominar a língua khazar nunca mais conseguiria sonhar como sonham os caçadores de sonhos. E foi em consequência desta estranha afasia que perdeu o amante.

A verdade é que depois de esquecer o vocabulário que conhecera toda a vida, a Princesa Ateh deixou de sonhar. Ou melhor, sonhava, mas eram sonhos estáticos, meras paisagens onde não penetrava, nem sequer participava. Já não dominava a matéria de sonho que estava habituada a moldar e recriar.

Por desespero, mandou que levassem à sua presença os papagaios que anos antes haviam sido instruídos no vocabulário khazar e procurou reaprender a língua khazar com eles. Mas os papagaios tinham ganho um modo tartamudo de tropeçar nas sílabas que deixava a Princesa Ateh desesperada. Nunca mais conseguiu falar a língua khazar e nunca mais sonhou. Em pouco tempo morreu numa biblioteca onde pressentia os livros a digladiarem-se uns com os outros em grego, hebreu e árabe.

Leituras – Kawabata 04

Posted in Leituras with tags on 21/09/2018 by Pedro Miguel Gon

Eguchi tinha vindo pela primeira vez àquela casa misteriosa, empurrado pelo seu gosto do insólito, mas agora perguntava a si próprio se os velhotes mais decrépitos do que ele não retirariam da frequência daquela casa alegrias e mágoas bastante mais fortes do que as suas. Os cabelos da rapariga estavam como a Natureza os tinha feito. Talvez os tivessem deixado crescer a fim de que os velhos pudessem mergulhar neles as suas mãos. Eguchi, com o pescoço no apoio-de-cabeça, levantou os cabelos da rapariga e afastou a orelha. Os cabelos faziam, atrás da orelha, uma sombra branca. O pescoço e o ombro eram os de uma adolescente. Não tinham a redonda plenitude da mulher. O velho virou os olhos e percorreu o quarto com o olhar. As roupas que acabara de despir estavam no cesto, mas em parte alguma se viam as da rapariga. Sem dúvida que a mulher as levara, a menos que se supusesse que a rapariga tinha entrado naquele quarto completamente despida; perante esta ideia, Eguchi sentiu-se incomodado. Tinha a oportunidade de a contemplar toda. Não havia razão para se sentir incomodado por isso, e ele compreendida que era exatamente com esse objetivo que ela tinha sido adormecida, mas Eguchi, apesar de tudo, acabou por tapar com a coberta o ombro da jovem e, depois, fechou os olhos.

Yasunari Kawabata, A Casa das Belas Adormecidas (1961)

 

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Leituras – Yasunari Kawabata 03

Posted in Leituras with tags on 04/07/2018 by Pedro Miguel Gon

Sem a mínima mudança de expressão, Yoko rodou sobre si própria e agarrou-se avidamente a Shimamura:

– Peço-lhe que me desculpe, mas, por favor, deixe-a voltar para casa! – suplicou-lhe ela, numa voz sufocada e quase pungente. – Deixe-a voltar para casa!

– Com certeza! – gritou Shimamura. – Komako! É preciso voltar para casa, já. Que idiotice!

– Que tem a ver com isto? – lançou Komako, desviando violentamente Yoko, que continuava agarrada ao braço de Shimamura.

Havia um táxi na estação, diante do cais, e Shimamura procurou chamar a atenção do condutor, fazendo-lhe sinal, mas Yoko apertava-lhe o braço com tanta força que ele sentia os dedos entorpecidos.

– O táxi vai levá-la – disse ele a Yoko. – Vá à frente, quer? Começam já a olhar para nós.

Yoko tinha aquiescido com um movimento de cabeça, sem uma palavra, e afastava-se com uma rapidez inacreditável, deixando Shimamura atónito, perguntando a si próprio porque é que ela era sempre assim tão séria, tão razoável, ao mesmo tempo que se lastimava por pensar deste modo em tais circunstâncias.

Parecia-lhe que continuava a ouvir essa voz de uma beleza perturbadora até à tristeza e que lhe soava como um eco vivo das montanhas distantes, cobertas de neve.

– Que está a fazer? Onde vai? – perguntou Komako, retendo Shimamura, que mandara parar o táxi e se havia aproximado. – Não, não! Não quero! É inútil! Não irei para casa!

Revoltado, Shimamura sentiu de repente como que uma aversão física por ela.

– Desconheço o que pode haver entre os três – afirmou -, no entanto esse homem pode estar a morrer neste momento. Não veio ela chamar-te porque ele exigia a tua presença? Porque ele te queria ver? Portanto sê amável e vai. Pensa que se não fores poderás sentir remorsos para o resto da tua vida! Esse homem pode morrer enquanto estás aqui… vai, não sejas teimosa. Esquece e perdoa.

– Esquece e perdoa?! Porque diz uma coisa dessas? Nada compreendeu de toda esta história. Absolutamente nada!

– É possível. Mas quando tu partiste para Tóquio foi ele a única pessoa a acompanhar-te à estação. Não foi o que me disseste? E achas que fazes bem em recusares um último adeus àquele cujo nome está escrito na página inicial do primeiro caderno do teu diário, como ontem me disseste? Para ele, agora, trata-se das últimas linhas do seu diário!

– Sim, mas eu não quero vê-lo. Não quero ver um homem morrer.

 

Yasunari Kawabata, Terra de Neve (1935/37)

 

 

Leituras – Kawabata 02

Posted in Leituras with tags on 19/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Kikuji não compreendia como aquilo tinha acontecido, tão natural lhe parecera tudo. Talvez que a senhora Ota, assim se comportando com lágrimas e choro, lhe estivesse a pedir desculpa por o ter seduzido, e talvez que ela nem sequer houvesse tido a intenção de o seduzir, e (perguntava-se Kikuji) seria que ele se sentia seduzido…? Quando, face a face, a sós, nenhuma resistência se manifestara quer da parte dela, quer da parte dele. Tão-pouco quais quer escrúpulos, pelo menos quanto a si…

Ambos se tinham acolhido numa estalagem, na colina oposta a Engakuji, e aí jantaram, continuando a senhora Ota a falar do pai de Kikuji. Kikuji não a ouvia. Um sentimento estranho inundava-o de uma imensa tranquilidade e unicamente senhora Ota, sem mostrar qualquer relutância, defendia, de um modo anelante, o seu passado. Dando atenção a esta e àquela palavra, Kikuji sentia-se benevolente como até então nunca o fora. Uma afeição suave, e ao mesmo tempo cortês, envolvia-o todo.

Até porque concluía que seu pai, afinal, tinha sido feliz.

 

Yasunari Kawabata, Chá e Amor (1949)

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Leituras -Yasunari Kawabata 01

Posted in Leituras, Uncategorized with tags on 12/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Na base da ladeira, saímos na estrada de Shimoda. Estrada abaixo, fogueiras de carvoeiros levantavam colunas de fumo, aqui e além. Parámos para descansar sobre uma pilha de madeira. A dançarina começou a pentear o pêlo desgrenhado do cachorro com um pente rosa-pálido.

– Vais-lhe partir os dentes – avisou a mulher mais velha.

– Não faz mal, vou arranjar um novo em Shimoda.

Era o pente que ela tinha usado no seu cabelo em Yugano. Fiquei, assim, um pouco aborrecido ao descobrir que ela penteava o cão com ele.

De repente, chegou-me a voz da dançarina:

– O que ele devia fazer era arranjar um dente de ouro, e então já não repararias.

Olhei para trás. Elas estavam obviamente a falar dos meus dentes tortos. Chiyoko devia ter puxado o assunto e a pequena dançarina sugeria que eu arranjasse um dente de ouro. Não me senti ressentido por estarem a falar de mim – e a conversa abrandou por um tempo.

A voz da rapariga voltou-me outra vez:

– Ele é gentil, não é?

– Ele é, de facto, muito gentil. Gosto de ter ao pé de mim alguém tão gentil.

Ela tinha uma maneira aberta de falar, uma maneira jovem e honesta de dizer aquilo que lhe vinha à cabeça, o que me deu a possibilidade de me pensar como verdadeiramente gentil. Olhei para cima, mais uma vez para as montanhas tão brilhantes que me faziam doer um pouco os olhos. Tinha chegado aos dezanove a ver-me como um misantropo, um inadaptado solitário, e fora este pensamento depressivo que me conduzira à viagem a Izu. Agora era capaz de me olhar como “uma pessoa gentil”, no sentido usual da expressão. Não consigo encontrar um modo que descreva o que isto significava para mim. As montanhas tornavam-se mais brilhantes – aproximávamo-nos de Shimoda e do mar.

Yasunari Kawabata, A Dançarina de Izu (1926)

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