Como me contaram a história da Princesa Ateh, a Caçadora de Sonhos

Posted in Literaturância with tags on 28/09/2018 by Pedro Miguel Gon

Conta quem acredita que na época em que o Império Bizantino prosperava em Constantinopla e a mensagem de Maomé se espalhava a partir da arábia, um povo guerreiro proveniente das estepes da Ásia veio fixar-se na bacia do rio Volga. Eram cavaleiros exímios, como todos os das tribos turcomanas, e por valor próprio ganharam o respeito dos povos vizinhos. Fundaram uma cidade para capital, Itil, na margem norte do mar Cáspio e controlavam um território que se estendia da Crimeia até às portas de Nínive.

Mas se a força e a perícia da cavalaria Khazar era extraordinária, mais singular era a cultura mística dos sacerdotes daquele povo. Conta-se que os sacerdotes Khazar dominavam a arte dos sonhos, uma arte agora extinta, e que aos melhores mestres nessa arte chamavam de Caçadores de Sonhos. Como povo oriundo das profundezas silenciosas da estepe, onde só o vento corre mais rápido que o cavalo, aprenderam a ler as mensagens do universo nos sonhos. Neles, o sonho substituía a observação e a reflexão. Aperfeiçoaram de tal maneira esta arte que podiam penetrar com facilidade nos sonhos de outros homens, viver e morar neles, e até a roubar os melhores sonhos de alguém. Era assim que ampliavam o conhecimento, assim dominavam a Geografia e a Cosmologia, assim tomavam decisões estratégicas na política e na guerra. Qualquer intriga contra o Khagan era desmantelada porque os sonhos de poder dos adversários do rei eram de pronto desmascarados.

Na khazária todos conheciam a Princesa Ateh, a irmã do Khagan, mas poucos sabiam que ela dominava a arte do sonho tão bem como o melhor dos caçadores de sonhos. Apenas a sonhar, sem acesso a qualquer manual, a Princesa Ateh aprendeu tudo o que havia a aprender sobre filosofia, história e política, só de imiscuir-se nos sonhos dos forasteiros que visitavam Itil, viajantes que vinham da Grécia, do Egito e até, por vezes, vindos da China e Índia. Descobriu nos sonhos dos forasteiros a existência de livros sagrados onde se jurava o mistério de um Deus único, a Tora, a Bíblia e o Corão, um disparate só possível em livros estrangeiros já que cada um dos livros magicava um deus diferente.

A Princesa Ateh tinha em Al Safer, talvez o mais poderoso sacerdote do reino Khazar, um amante secreto. Quando os dois amantes se deitavam para dormir tinham sonhos que se visitavam como duas histórias diferentes a partilhar os mesmos personagens. A maior prova de amor era sonharem-se mutuamente com frequência. Havia dias em que só nos sonhos se viam e nessa matéria sensível partilhavam as carícias que não tinham podido trocar nos salões do palácio. Mesmo estando em camas separadas e distantes, ela sonhava o sonho dele e ele sonhava o sonho dela.

A Princesa Ateh sabia que a matéria dos sonhos é vocabular, mesmo quando não havia palavras para traduzir o produto do sonho. Tantas vezes acontecia o sonho dar origem a uma palavra antes inexistente. Os sonhos eram para os caçadores de sonhos uma fonte inesgotável de vocabulário. Por essa razão a Princesa Ateh começou a redigir o Dicionário Khazar, mas partilhou esta tarefa hercúlea com o amante, de modo que ela redigiu a versão feminina do dicionário e Al Safer redigiu a versão masculina desse mesmo dicionário. Este tornou-se o mais sagrado dos livros da cultura khazar, o único onde se registaram as capacidades e os feitos dos caçadores de sonhos. Tão importante era o vocabulário khazar que a Princesa Ateh ordenou a captura de dezenas de papagaios com o dom da palavra. De seguida ordenou que ensinassem aos papagaios todas as palavras contidas nos dicionários khazar, acreditando que se um dia os Khazar desaparecessem não desapareceria a sua língua. Na verdade ainda hoje se encontram os descendentes loquazes desses distantes papagaios que parecem falar entre eles numa língua muito própria – muitos acreditam ser a língua khazar.

Se a Princesa Ateh podia entrar no sonho de outros e ler-lhes a matéria sonhada, o mesmo lhe podia acontecer a ela. Tinha o receio enorme de ser atacada durante o sono por algum demónio que lhe roubasse a memória dos sonhos. Por isso quando se deitava para dormir precisava de reunir umas quantas cautelas. Nunca se deitava sozinha, pois as aias, sempre sete, ficavam acordadas de guarda. E quando a deitavam no leito, uma criada cega inscrevia em cada uma das pálpebras uma letra do alfabeto khazar proibido, letras que podiam matar quem tivesse o azar de as ler, mesmo em sonho. Deste modo ninguém conseguia aproximar-se dela durante o sono. De manhã as criadas atendiam a Princesa de olhos fechados até ao momento em que lavava o rosto.

Um dia a Princesa Ateh sonhou um sonho e colocou-o no sonho do irmão, o poderoso Khagan, já que a sede de sabedoria a deixava inquieta quanto à pretensa verdade dos livros sagrados estrangeiros. Engendrado o sonho, o Khagan chamou ao reino Khazar homens esclarecidos que soubessem explicar as religiões dos livros sagrados. E foi assim que no dia seguinte partiram três emissários com destinos diferentes: um foi à corte bizantina em Constantinopla informando o Imperador que o Khagan Khazar pedia que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do cristianismo; outro foi à Sinagoga de Jerusalém pedir que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do judaísmo; outro dirigiu-se ao Califado de Samarra para pedir que lhe enviassem quem soubesse explicar as bases do culto islâmico.

Por um acaso de sonho bem sonhado, os três representantes das religiões chegaram quase ao mesmo tempo a Itil. O Imperador Bizantino enviou como emissário São Cirilo, acompanhado do irmão Metódio, os dois evangelizadores dos povos eslavos. Os Rabis de Jerusalém enviaram como delegado o rabino Issac Sangari. O Califa de Samarra enviou o dervixe Farabi Ibn Kora. Os debates entre estes três estudiosos e os khazar decorreram durante vários dias, mas os maiores progressos faziam-se à noite, quando a Princesa Ateh analisava ao pormenor a argúcia dos argumentos dos polemistas. Estando todos os delegados a dormir, a Princesa Ateh deitava-se também e dedicava-se ao estudo sonhado das verdades escritas.

Começou por entrar nos sonhos de Cirilo porque sabia que os cristãos eram herdeiros do Logos grego e afirmavam “No princípio era o Verbo”. Cirilo sonhava em grego. Palmilhou com paciência os sonhos dele até que percebeu que o Messias cristão chegou ao mundo por causa de um sonho. Descobriu que Deus havia aparecido em sonho à mãe de Cristo, Maria, e esta engravidou em virtude de uma palavra sonhada. Todo o sémen necessário foi uma palavra. A Princesa Ateh ficou convencida que o Deus cristão não passava de algum caçador de sonhos que tinha invadido os sonhos da Virgem e neles tinha inseminado a vontade de gerar um filho de Deus. Quando chegou o momento do Khazan se pronunciar, reuniu-se com a Princesa Ateh e escutou os seus conselhos. A argumentação de Cirilo foi repudiada, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao cristianismo.

A Princesa Ateh entrou depois nos sonhos do delegado judeu, Issac Sangari, e demorou-se a interpretar tantos sonhos antigos já desgastados de tanto uso e que tantos homens já haviam sonhado. Sangari sonhava em hebreu. Descobriu que o Deus pregado pelos judeus havia renegado e dispersado os próprios judeus pelo mundo. A Princesa convenceu-se que o judaísmo era uma religião adiada no futuro por estarem todos à espera de sonhar a palavra germinal que dará um Messias redentor. Mais uma vez o Khazan ouviu os conselhos da irmã e a argumentação de Sangari foi repudiada, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao judaísmo.

Por último, a Princesa Ateh vistoriou os sonhos do delegado muçulmano e estudou os alicerces do islamismo. Quando o dervixe Ibn Kora se deitava e adormecia, sonhava em árabe passagens inteiras do Corão. A Princesa descobriu que os islâmicos acreditam que o Corão é o único e autêntico livro santo, pois tinha sido ditado por Alá a Maomé, no qual se prescrevia o caminho para o paraíso. Para um caçador de sonhos era muito fácil perceber que o islamismo se assemelhava a um sonho cristão corrompido, já que os cristãos também almejam o paraíso ao qual se chega por um caminho difícil. No último dia do debate, a argumentação de Ibn Kora foi repudiada pelo Khagan, que não ignorou os argumentos da Princesa Ateh, mas a história registou que os Khazares se haviam convertido ao islamismo.

Encerrado o debate, a Princesa Ateh chegou à conclusão que nenhuma daquelas religiões suplantava as capacidades dos caçadores de sonhos. Aquelas religiões tomavam o homem como um ser invariavelmente subserviente a uma entidade desaparecida, enquanto os caçadores de sonhos tomavam o homem pelo que ele podia criar por si. Era fácil concluir, para um caçador de sonhos, que nos sonhos é possível a um cristão comportar-se como um judeu, um judeu comportar-se como um muçulmano ou um muçulmano comportar-se como um cristão.

Depois da polémica com as religiões, a desgraça recaiu sobre a Princesa Ateh. Há quem diga que foi por causa da raiva dos delegados derrotados na polémica Khazar, tendo visto as respetivas crenças repudiadas, que a Princesa Ateh perdeu o poder de sonhar. Os três demónios, o Belial judeu, o Satanás cristão e o Íblis muçulmano, uniram-se e condenaram a Princesa Ateh ao esquecimento do vocabulário khazar. Isto aconteceu durante a noite, enquanto sonhava. Quando a princesa despertou não compreendia nenhuma das criadas, a não ser que lhe falassem em grego, hebraico ou árabe.

Na noite seguinte, quando pretendeu empreender um sonho para se encontrar com Al Safer, não conseguiu sonhar. Só ao fim da noite de insónia percebeu que sem dominar a língua khazar nunca mais conseguiria sonhar como sonham os caçadores de sonhos. E foi em consequência desta estranha afasia que perdeu o amante.

A verdade é que depois de esquecer o vocabulário que conhecera toda a vida, a Princesa Ateh deixou de sonhar. Ou melhor, sonhava, mas eram sonhos estáticos, meras paisagens onde não penetrava, nem sequer participava. Já não dominava a matéria de sonho que estava habituada a moldar e recriar.

Por desespero, mandou que levassem à sua presença os papagaios que anos antes haviam sido instruídos no vocabulário khazar e procurou reaprender a língua khazar com eles. Mas os papagaios tinham ganho um modo tartamudo de tropeçar nas sílabas que deixava a Princesa Ateh desesperada. Nunca mais conseguiu falar a língua khazar e nunca mais sonhou. Em pouco tempo morreu numa biblioteca onde pressentia os livros a digladiarem-se uns com os outros em grego, hebreu e árabe.

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Leituras – Kawabata 04

Posted in Leituras with tags on 21/09/2018 by Pedro Miguel Gon

Eguchi tinha vindo pela primeira vez àquela casa misteriosa, empurrado pelo seu gosto do insólito, mas agora perguntava a si próprio se os velhotes mais decrépitos do que ele não retirariam da frequência daquela casa alegrias e mágoas bastante mais fortes do que as suas. Os cabelos da rapariga estavam como a Natureza os tinha feito. Talvez os tivessem deixado crescer a fim de que os velhos pudessem mergulhar neles as suas mãos. Eguchi, com o pescoço no apoio-de-cabeça, levantou os cabelos da rapariga e afastou a orelha. Os cabelos faziam, atrás da orelha, uma sombra branca. O pescoço e o ombro eram os de uma adolescente. Não tinham a redonda plenitude da mulher. O velho virou os olhos e percorreu o quarto com o olhar. As roupas que acabara de despir estavam no cesto, mas em parte alguma se viam as da rapariga. Sem dúvida que a mulher as levara, a menos que se supusesse que a rapariga tinha entrado naquele quarto completamente despida; perante esta ideia, Eguchi sentiu-se incomodado. Tinha a oportunidade de a contemplar toda. Não havia razão para se sentir incomodado por isso, e ele compreendida que era exatamente com esse objetivo que ela tinha sido adormecida, mas Eguchi, apesar de tudo, acabou por tapar com a coberta o ombro da jovem e, depois, fechou os olhos.

Yasunari Kawabata, A Casa das Belas Adormecidas (1961)

 

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Leituras – Yasunari Kawabata 03

Posted in Leituras with tags on 04/07/2018 by Pedro Miguel Gon

Sem a mínima mudança de expressão, Yoko rodou sobre si própria e agarrou-se avidamente a Shimamura:

– Peço-lhe que me desculpe, mas, por favor, deixe-a voltar para casa! – suplicou-lhe ela, numa voz sufocada e quase pungente. – Deixe-a voltar para casa!

– Com certeza! – gritou Shimamura. – Komako! É preciso voltar para casa, já. Que idiotice!

– Que tem a ver com isto? – lançou Komako, desviando violentamente Yoko, que continuava agarrada ao braço de Shimamura.

Havia um táxi na estação, diante do cais, e Shimamura procurou chamar a atenção do condutor, fazendo-lhe sinal, mas Yoko apertava-lhe o braço com tanta força que ele sentia os dedos entorpecidos.

– O táxi vai levá-la – disse ele a Yoko. – Vá à frente, quer? Começam já a olhar para nós.

Yoko tinha aquiescido com um movimento de cabeça, sem uma palavra, e afastava-se com uma rapidez inacreditável, deixando Shimamura atónito, perguntando a si próprio porque é que ela era sempre assim tão séria, tão razoável, ao mesmo tempo que se lastimava por pensar deste modo em tais circunstâncias.

Parecia-lhe que continuava a ouvir essa voz de uma beleza perturbadora até à tristeza e que lhe soava como um eco vivo das montanhas distantes, cobertas de neve.

– Que está a fazer? Onde vai? – perguntou Komako, retendo Shimamura, que mandara parar o táxi e se havia aproximado. – Não, não! Não quero! É inútil! Não irei para casa!

Revoltado, Shimamura sentiu de repente como que uma aversão física por ela.

– Desconheço o que pode haver entre os três – afirmou -, no entanto esse homem pode estar a morrer neste momento. Não veio ela chamar-te porque ele exigia a tua presença? Porque ele te queria ver? Portanto sê amável e vai. Pensa que se não fores poderás sentir remorsos para o resto da tua vida! Esse homem pode morrer enquanto estás aqui… vai, não sejas teimosa. Esquece e perdoa.

– Esquece e perdoa?! Porque diz uma coisa dessas? Nada compreendeu de toda esta história. Absolutamente nada!

– É possível. Mas quando tu partiste para Tóquio foi ele a única pessoa a acompanhar-te à estação. Não foi o que me disseste? E achas que fazes bem em recusares um último adeus àquele cujo nome está escrito na página inicial do primeiro caderno do teu diário, como ontem me disseste? Para ele, agora, trata-se das últimas linhas do seu diário!

– Sim, mas eu não quero vê-lo. Não quero ver um homem morrer.

 

Yasunari Kawabata, Terra de Neve (1935/37)

 

 

Leituras – Kawabata 02

Posted in Leituras with tags on 19/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Kikuji não compreendia como aquilo tinha acontecido, tão natural lhe parecera tudo. Talvez que a senhora Ota, assim se comportando com lágrimas e choro, lhe estivesse a pedir desculpa por o ter seduzido, e talvez que ela nem sequer houvesse tido a intenção de o seduzir, e (perguntava-se Kikuji) seria que ele se sentia seduzido…? Quando, face a face, a sós, nenhuma resistência se manifestara quer da parte dela, quer da parte dele. Tão-pouco quais quer escrúpulos, pelo menos quanto a si…

Ambos se tinham acolhido numa estalagem, na colina oposta a Engakuji, e aí jantaram, continuando a senhora Ota a falar do pai de Kikuji. Kikuji não a ouvia. Um sentimento estranho inundava-o de uma imensa tranquilidade e unicamente senhora Ota, sem mostrar qualquer relutância, defendia, de um modo anelante, o seu passado. Dando atenção a esta e àquela palavra, Kikuji sentia-se benevolente como até então nunca o fora. Uma afeição suave, e ao mesmo tempo cortês, envolvia-o todo.

Até porque concluía que seu pai, afinal, tinha sido feliz.

 

Yasunari Kawabata, Chá e Amor (1949)

Kawabata 02

Leituras -Yasunari Kawabata 01

Posted in Leituras, Uncategorized with tags on 12/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Na base da ladeira, saímos na estrada de Shimoda. Estrada abaixo, fogueiras de carvoeiros levantavam colunas de fumo, aqui e além. Parámos para descansar sobre uma pilha de madeira. A dançarina começou a pentear o pêlo desgrenhado do cachorro com um pente rosa-pálido.

– Vais-lhe partir os dentes – avisou a mulher mais velha.

– Não faz mal, vou arranjar um novo em Shimoda.

Era o pente que ela tinha usado no seu cabelo em Yugano. Fiquei, assim, um pouco aborrecido ao descobrir que ela penteava o cão com ele.

De repente, chegou-me a voz da dançarina:

– O que ele devia fazer era arranjar um dente de ouro, e então já não repararias.

Olhei para trás. Elas estavam obviamente a falar dos meus dentes tortos. Chiyoko devia ter puxado o assunto e a pequena dançarina sugeria que eu arranjasse um dente de ouro. Não me senti ressentido por estarem a falar de mim – e a conversa abrandou por um tempo.

A voz da rapariga voltou-me outra vez:

– Ele é gentil, não é?

– Ele é, de facto, muito gentil. Gosto de ter ao pé de mim alguém tão gentil.

Ela tinha uma maneira aberta de falar, uma maneira jovem e honesta de dizer aquilo que lhe vinha à cabeça, o que me deu a possibilidade de me pensar como verdadeiramente gentil. Olhei para cima, mais uma vez para as montanhas tão brilhantes que me faziam doer um pouco os olhos. Tinha chegado aos dezanove a ver-me como um misantropo, um inadaptado solitário, e fora este pensamento depressivo que me conduzira à viagem a Izu. Agora era capaz de me olhar como “uma pessoa gentil”, no sentido usual da expressão. Não consigo encontrar um modo que descreva o que isto significava para mim. As montanhas tornavam-se mais brilhantes – aproximávamo-nos de Shimoda e do mar.

Yasunari Kawabata, A Dançarina de Izu (1926)

Kawabata 01

 

Leituras – Junichiro Tanizaki

Posted in Leituras with tags on 29/03/2018 by Pedro Miguel Gon

4 de Janeiro

Hoje aconteceu uma coisa estranha. Durante três dias não arrumei o escritório; como o meu marido foi passear esta tarde, entrei lá para o limpar. Em frente da estante, sobre a qual está uma jarra de pé alto onde pus um narciso, estava caída uma chave. A coisa não tinha talvez nenhuma importância. Contudo, não posso imaginar que meu marido tenha sido, sem nenhum motivo, tão negligente que deixasse esta chave no chão, porque é muito cuidadoso. E de resto, desde que há anos redige o seu diário, não deixou cair a chave uma única vez. Há muitíssimo tempo, naturalmente, que sei que ele escreve um diário, que o fecha à chave na gaveta da mesinha, enfim, que esconde esta chave umas vezes entre os numerosos livros da estante e outras debaixo do tapete. Contudo, faço uma distinção entre o que posso e o que não devo saber.

Conheço apenas o lugar deste diário e o sítio onde a chave está escondida. Nunca abri o caderno para ver o que continha. Apesar disso, o que me irrita é que o meu marido, que nasceu com um temperamento desconfiado, não ficaria tranquilo se não fechasse o o seu caderno e não escondesse a chave em qualquer parte. Porque deixou então hoje a chave caída no chão? O que provocou no seu espírito esta mudança? Julgará útil fazer com que eu leia este diário? Terá pensado que se me dissesse abertamente. “lê-o”, eu provavelmente não o leria? Não quis então dizer-me: “Se tens vontade de o ler, lê-o às escondidas! A chave está ali.” Não saberá ele que desde há muito tempo conheço os esconderijos da sua chave? Não, não deve ser isso, talvez tenha querido dizer: “ Admito de hoje em diante que leias este diário às escondidas; admito-o, mas farei de conta que não o sei”.

Junichiro Tanizaki, A confissão impudica/Kagi (1956)

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Leituras – J. M. Coetzee III

Posted in Leituras on 17/03/2018 by Pedro Miguel Gon

Quando era nova, num mundo agora perdido e desaparecido, encontravam-se pessoas que ainda acreditavam na arte ou, pelo menos, no artista, que tentavam seguir as pegadas dos grandes mestres. Que importava que Deus tivesse fracassado, ou o Socialismo; ainda havia Dostoevsky para nos guiar, ou então Rilke, ou Van Gogh, com a orelha entrapada que traduzia paixão. Terá ela trazido consigo essa fé infantil até à maturidade, e para além dela: a fé no artista e na sua verdade?

À partida, tenderia a dizer que não. Os livros dela seguramente que não evidenciam qualquer fé na arte. Agora que tudo isso já acabou, esse trabalho de toda uma vida que foi a escrita, acha que é capaz de o encarrar de uma maneira suficientemente desapaixonada, fria, até, para já não se iludir. Os livros dela não ensinam nada, não apregoam nada, limitam-se a explicar, o mais claramente possível, a maneira como as pessoas viviam numa determinada época e num determinado lugar. Dizendo-o em termos mais modestos, explicam o modo como uma pessoa vivia, uma entre biliões: a pessoa a quem ela própria chama de ela e a quem outros chamam de Elizabeth Costelo. Finalmente, o ela acreditar mais nos próprios livros do que nessa pessoa, é o mesmo que um carpinteiro acreditar numa mesa robusta ou um tanoeiro num barril sólido. Os livros dela são, está convencida disso, mais bem estruturados do que ela.

J.M. Coetzee, Elizabeth Costello (2003), 8. Na porta