“O Limoeiro já tem amigos”

Posted in Uncategorized on 01/12/2016 by Pedro Miguel Gon

É já este sábado à tarde!

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Apresentação do livro “O Limoeiro já tem Amigos”

Posted in Notícias on 21/11/2016 by Pedro Miguel Gon

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Chega finalmente a oportunidade de apresentar o meu mais recente texto.

O livro vai ser apresentado na CASA DA ESCRITA (Rua João Jacinto, nº 8 – perto da faculdade de Psicologia), dia 3 de Dezembro, às 16:00.

Estão todos convidados!

 

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Leituras – Amos Oz

Posted in Leituras on 12/11/2016 by Pedro Miguel Gon

Fima apontou o garfo à testa, às têmporas e à nuca, tentando adivinhar e sentir o que poderia acontecer na fracção de segundo em que o projétil penetrasse e explodisse dentro do crânio: talvez nem dor, nem estrondo e procurou imaginar, só um clarão fulgurante de incredulidade, de inconcebível, como um garoto que se preparasse para apanhar uma chapada do pai e, em vez de uma bofetada, se lhe cravasse de súbito um espeto em brasa por um olho dentro. Haverá uma fracção de segundo, um átomo de tempo infinitesimal, em que, quem sabe, se revela a iluminação? A luz primordial dos sete céus? Onde tudo o que é obscuro e inexplicável na vida é esclarecido, num ápice, antes da queda nas trevas? Desde sempre se tem procurado a complexa solução para o insondável mistério e será que no derradeiro instante ela fulgura com tanta simplicidade?

“Deixa-te de lixar o juízo”, disse Fima para consigo com voz rouca. “Opaco” e “inexplicável” eram palavras que lhe causavam náuseas. Levantou-se, saiu fechando atrás de si a porta do apartamento, dando particular atenção à algibeira onde tinha metido a chave. Em baixo viu, através da fresta, uma carta a alvejar na sua caixa do correio, só que no bolso direito estava apenas a chave de casa e a do correio ficou possivelmente sobre a secretaria, se não num bolso doutras calças ou num canto da banca da cozinha. Hesitou e renunciou à vontade de a ir procurar, admitindo que não passaria da factura da água ou do telefone ou de mera publicidade. Enquanto almoçava uma omeleta com salsicha, salada e uma compota de fruta no restaurantezinho em frente, teve um sobressalto ao repara, pela janela do restaurante, que no apartamento a luz estava acesa. Refletiu um pouco, considerou a remota eventualidade de possuir o dom da ubiquidade, preferindo a hipótese de que tinha sido reparada a avaria e que a corrente fora restabelecida. Concluiu, consultando o relógio, que se resolvesse ir lá acima apagar a luz e andar à procurar da chave do correio para retirar a carta, chegaria atrasado ao serviço. Assim, pagou e disse: “Obrigado senhora Schoemberg” e ela, como sempre, corrigiu-o: “Scheinmann, doutor Nissan”.

 

Amos Oz, A Terceira Condição (1991), 3. A Caixa da Bicharada

 

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Novo livro

Posted in Notícias on 07/11/2016 by Pedro Miguel Gon

Olá!

Está para chegar um livro novo…

 

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Ciclo Coimbra (t)em Poesia

Posted in Poemática with tags , on 28/10/2016 by Pedro Outono

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é

procurar um amigo com quem faço amor

e pegar-lhe na mão

como se pegasse no planeta

Amarro-lhe o primeiro beijo

como se fosse viajar

 

Abraço-lhe o lugar de nós

como uma escalada para dentro

e as mãos,

atrasam-se no corpo dela

como desertoras

 

Labiamos-nos

 

Sexo-lhe os contornos

como se o mundo estivesse todo

no nenúfar em que encaixo

o corpo

 

é

o cocegar dela na minha alma

 

 

 

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tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteroides

 

 

 

 

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estou lá sentado dentro do espaço que ocupo sentado

mas duvido que esteja coincidentemente dentro de mim

é sempre assim quando as árvores pretendem fazer uso das pernas

 

nascemos todas as manhãs sob o epíteto do oxigénio

e apresentamos os braços e as pernas ao martírio

do movimento

e depois chega a noite – epitáfio da termodinâmica

 

agora quero sentar-me em mim mesmo e não consigo

porque não encontro o degrau paulatino em que me esqueci

 

e ao mesmo tempo que tento sentar-me no degrau certo

tento ainda o golo milagroso que me faria sentar de vez

no preciso instante em que estou sentado

 

 

 

 

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trinco a língua de propósito

como se morder o português me tornasse mais livre

 

vejo que a manete dos livros não tem funcionado

e não posso levar a biblioteca ao mecânico

porque já não restam páginas para lá chegar

 

É mordido de insónia que planeio genocídios

e transfusões de sangue Então desmantelo a mão

descarto dois dedos e faço uma fisga

com que ataco a verborreia

 

Ainda lasco as sílabas no aperto dos lábios

apertadas na saliva como se decepasse o maxilar

Ouço as pedras basálticas enlaçadas nas vinhas

e os berros de perros pulmonares

orquestras de dentes caninos dilacerando a língua

num esgar de quem faz por existir

sem o preço dos móveis Ikea

 

 

 

Coimbra (t)em Poesia

Posted in Notícias on 25/10/2016 by Pedro Miguel Gon

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Ver aqui: Casa da Escrita.

Leituras – W.G. SEBALD

Posted in Leituras on 12/09/2016 by Pedro Miguel Gon

As visitas de verão dos americanos foram provavelmente o primeiro motivo para eu, que estava a crescer, imaginar que mais tarde emigraria para a América. Mas mais importante do que esta ligação de certo modo pessoal com o meu sonho americano foi a realidade de uma vida quotidiana diferente por causa das forças de ocupação estacionadas na nossa terra, cuja moral a generalidade dos autóctones sentiam como indigna de uma nação vitoriosa, o que se percebia pelas observações umas vezes feitas à boca pequena, outras abertamente. Deixavam estragar-se as casas que tinham requisitado, não tinham flores nas varandas nem nas janelas e usavam redes mosquiteiras no lugar de cortinas. As mulheres andavam na rua de calças e deitavam para o chão pontas de cigarros sujas de batom, os homens pousavam os pés em cima da mesa, as crianças deixavam à noite as bicicletas no jardim e ninguém sabia o que pensar dos negros. Observar este tipo de coisas foi precisamente o que então fortaleceu o meu desejo de ir para o único país estrangeiro de que tinha uma ideia. Durante as intermináveis horas de aulas, sobretudo, e ao crepúsculo imaginava com todos os pormenores e a cores o meu futuro americano. Esta fase de americanização imaginária da minha pessoa em que atravessava os Estados Unidos de lés a lés, ora a cavalo, ora num Oldsmobile castanho-escuro, atingiu o seu ponto mais alto entre os meus dezasseis e dezassete anos, uma altura em que tentava adotar a atitude física e mental de um herói de Hemingway, um projeto de simulação que, pelas mais diversas razões que se possa conceber, estava de antemão condenado ao fracasso. Os meus sonhos de América foram-se depois desvanecendo e, uma vez chegados ao ponto ínfimo, deram lugar a uma aversão contra tudo o que fosse americano, já tão arreigada em mim no meu tempo de estudante em que nada me parecia mais absurdo do que a ideia de um dia empreender uma viagem à América sem a tal ser forçado.

W.G. Sebald, Os Emigrantes (1992), Ambros Adelwarth

 

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