Cheguei a sua casa às sete da tarde. Estacionei ao lado da carrinha de caixa aberta que se encontrava no meio do pátio. Apesar do portão aberto, nenhuma das cabras que vagueavam por entre os pilares do viaduto se aproximava dele. Havia cinco cães. Rodearam o carro em silêncio quando tentei sair. Fechei a porta e eles embateram contra o metal. Ergueram-se, com as patas dianteiras apoiadas no vidro, e ficaram ali até que o dono chegou e os fixou, sem pressa, antes de lhes assobiar e apontar para as traseiras. Desapareceram sem um latido. O homem aproximou-se, o olhar firme mas reservado, parou a dois metros do carro e esperou que eu saísse. Recuou quando avancei na sua direcção. Não tentei cumprimenta-lo. Disse-lhe que tinha uma proposta, e quem mo havia indicado. Oferecia-lhe trabalho numa exploração pecuária. Reparei depois que não esclarecera quem era e qual era a herdade, mas ele não perguntou. Saberia do que eu estava a falar. Expliquei-lhe o que pretendia, tinha quatrocentos hectares, iria comprar cabras, montar uma ordenha automática. Precisava de alguém que conhecesse os rebanhos, que me acompanhasse nas compras e que auxiliasse os outros trabalhadores. Seriam mais dois ou três. Ouviu-me, imóvel, depois abanou a cabeça. Perguntei-lhe se tinha alguma questão. Retirou um caderno do bolso de trás das calças, abriu-o, procurou um lápis entre as páginas e escreveu alguma coisa. Estendeu-me o caderno para que o lesse. Uma caligrafia rápida e grosseira. Não aceitava. O não estava sublinhado com um traço grosso. Por baixo, duas frases como justificação. Tinha as suas próprias cabras para tratar. Não andava à procura de trabalho. Certificou-se de que eu lera, puxou o caderno, colocou o lápis no meio, dobrou-o ao alto e guardou-o no bolso. Não havia mais nada a dizer. Recuou dois passos, deu meia-volta, caminhou até à porta de casa. Depois de dizer que não, só lhe restaria tornar a dizer que não, mas seria inútil e redundante. Ficou ali, à espera que eu entrasse no carro e me fosse embora. Não fui. Tirei do banco de trás duas garrafas de vinho e segui-o até ao alpendre. Havia uma mesa e duas cadeiras. Perguntei-lhe se tinha alguma coisa com que abrisse as garrafas. Olhou-me, sério, e acenou como se diante de um ritual a que não se pudesse furtar. Entrou em casa e regressou com dois copos e um saca-rolhas. Uma hora mais tarde, tinha concordado em trabalhar comigo. Fizera-o, não tive dúvidas, não pelo seu álcool, mas pelo meu. Após uma segunda recusa, não se mostrara tão intransigente. Eu aceitaria que levasse consigo os cães e as cabras. Seria o responsável pela exploração. No final do ano, teria direito a trinta por centro dos lucros. Como contrato, era tentador, mas só acedera verdadeiramente quando lhe falei do número de animais que tencionava adquirir, tantos quantos a terra pudesse alimentar, e lhe confessei que sozinho não seria capaz.
Às sete da manhã da segunda-feira seguinte, ele estava no pátio à minha espera.
H. G. Cancela, As Pessoas do Drama (2017), Cap. VII






