Leituras – H. G. Cancela 02

Posted in Leituras with tags on 05/07/2019 by Pedro Miguel Gon

 

Cheguei a sua casa às sete da tarde. Estacionei ao lado da carrinha de caixa aberta que se encontrava no meio do pátio. Apesar do portão aberto, nenhuma das cabras que vagueavam por entre os pilares do viaduto se aproximava dele. Havia cinco cães. Rodearam o carro em silêncio quando tentei sair. Fechei a porta e eles embateram contra o metal. Ergueram-se, com as patas dianteiras apoiadas no vidro, e ficaram ali até que o dono chegou e os fixou, sem pressa, antes de lhes assobiar e apontar para as traseiras. Desapareceram sem um latido. O homem aproximou-se, o olhar firme mas reservado, parou a dois metros do carro e esperou que eu saísse. Recuou quando avancei na sua direcção. Não tentei cumprimenta-lo. Disse-lhe que tinha uma proposta, e quem mo havia indicado. Oferecia-lhe trabalho numa exploração pecuária. Reparei depois que não esclarecera quem era e qual era a herdade, mas ele não perguntou. Saberia do que eu estava a falar. Expliquei-lhe o que pretendia, tinha quatrocentos hectares, iria comprar cabras, montar uma ordenha automática. Precisava de alguém que conhecesse os rebanhos, que me acompanhasse nas compras e que auxiliasse os outros trabalhadores. Seriam mais dois ou três. Ouviu-me, imóvel, depois abanou a cabeça. Perguntei-lhe se tinha alguma questão. Retirou um caderno do bolso de trás das calças, abriu-o, procurou um lápis entre as páginas e escreveu alguma coisa. Estendeu-me o caderno para que o lesse. Uma caligrafia rápida e grosseira. Não aceitava. O não estava sublinhado com um traço grosso. Por baixo, duas frases como justificação. Tinha as suas próprias cabras para tratar. Não andava à procura de trabalho. Certificou-se de que eu lera, puxou o caderno, colocou o lápis no meio, dobrou-o ao alto e guardou-o no bolso. Não havia mais nada a dizer. Recuou dois passos, deu meia-volta, caminhou até à porta de casa. Depois de dizer que não, só lhe restaria tornar a dizer que não, mas seria inútil e redundante. Ficou ali, à espera que eu entrasse no carro e me fosse embora. Não fui. Tirei do banco de trás duas garrafas de vinho e segui-o até ao alpendre. Havia uma mesa e duas cadeiras. Perguntei-lhe se tinha alguma coisa com que abrisse as garrafas. Olhou-me, sério, e acenou como se diante de um ritual a que não se pudesse furtar. Entrou em casa e regressou com dois copos e um saca-rolhas. Uma hora mais tarde, tinha concordado em trabalhar comigo. Fizera-o, não tive dúvidas, não pelo seu álcool, mas pelo meu. Após uma segunda recusa, não se mostrara tão intransigente. Eu aceitaria que levasse consigo os cães e as cabras. Seria o responsável pela exploração. No final do ano, teria direito a trinta por centro dos lucros. Como contrato, era tentador, mas só acedera verdadeiramente quando lhe falei do número de animais que tencionava adquirir, tantos quantos a terra pudesse alimentar, e lhe confessei que sozinho não seria capaz.

Às sete da manhã da segunda-feira seguinte, ele estava no pátio à minha espera.

H. G. Cancela, As Pessoas do Drama (2017), Cap. VII

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Leituras – H. G. Cancela

Posted in Leituras with tags on 05/07/2019 by Pedro Miguel Gon

“é a minha barriga, não é?”

ignorei a pergunta. deixei-me ali ficar, sentado sobre a cama, a olhar para o tapete. permaneci calado.

“é a minha barriga, achas que não sirvo. olha para mim.”

afastou a roupa da cama, levantou a camisa de noite e descobriu as coxas. empurrou os cobertores com os pés, escorregou sobre os lençóis e abriu as pernas. sentia-me paralisado. as cuecas detinham-se no limite do ventre, deixando entrever os pelos púbicos, e a pele dilatada. abriu mais as pernas,

“achas que não sirvo.”

não deixava de ser absurdo que as suas suspeitas esquecessem a única coisa, simples e miserável que me poderia justificar. precisamente aquilo que eu não poderia admitir. era, apesar de tudo, preferível manter o ciúme e a suspeita.

“nem para isso sirvo.”

levantou-se de um salto e agarrou-se a mim. não me mexi, deixei que me apertasse a cabeça entre as mãos, agarrando-me pelas orelhas. aproximou o rosto do meu. olhei-a de frente, um olhar sem objectivo, detendo-se nela apenas porque se interpunha entre mim e o branco da parede. a minha vontade era sair dali e esperar que passasse. se é que eu posso chamar vontade à vergonha. ela tinha os músculos faciais contraídos, os olhos quase fechados, os lábios entreabertos com os dentes cerrados. parecia prestes a chorar de raiva. puxou-me mais as orelhas e abanou-me, agarrei-lhe os braços, tentando soltar-me, empurrei-a para a cama. exagerou a queda e foi bater com a barriga na parede. levantou-se com um olhar de vítima. voltei-me para ela,

“por favor, sabes que gosto de ti.”

soou despropositado, parecia uma desculpa. senti-me embaraçado diante de uma regra tácita que eu mesmo acabara de quebrar.

“que querido, agora gosta de mim.”

H.G. Cancela, Anunciação (1999), Cap. VII

 

Franz Kafka – O Castelo

Posted in Leituras with tags on 11/05/2019 by Pedro Miguel Gon

 

Provavelmente teria passado pelo quarto de Erlanger com igual indiferença se Erlanger não se encontrasse à porta e não lhe tivesse feito sinal. Um sinal breve, um só, com o dedo indicador. Erlanger já estava todo pronto para partir, vestia um sobretudo preto de pele, com uma gola estreita e abotoada até acima. Um criado estava precisamente a entregar-lhe as luvas e ainda segurava um gorro de pele.

– O senhor já devia ter vindo há muito – disse Erlanger.

K. ia para se desculpar, mas Erlanger fechou os olhos com um gesto cansado de quem dispensa as desculpas.

– Trata-se do seguinte – disse ele. – Na sala de bebidas prestava serviço antigamente uma tal Frieda; eu dela só sei o nome, pessoalmente não a conheço nem ela me interessa. Esta Frieda, algumas vezes serviu a cerveja a Klamm. Agora parece que está lá outra. Ora esta mudança não tem evidentemente importância, é provavelmente insignificante para qualquer pessoa e é de certeza insignificante para Klamm. Mas quanto maior é um trabalho, e o trabalho de Klamm é com certeza o maior de todos, tanto menor é a força que resta para uma pessoa se defender do mundo exterior; por consequência, cada insignificante mudança das coisas mais insignificantes pode causar uma séria perturbação. A mais ligeira alteração na escrivaninha, a eliminação de uma nódoa que sempre esteve, tudo isto pode perturbar e igualmente o pode uma nova criada. É verdade que isto que poderia perturbar qualquer outro não perturba Klamm. Disso não há a menor dúvida. No entanto, é nosso dever velar pelo conforto de Klamm de maneira a eliminarmos aquelas perturbações que para ele não são nenhumas – e provavelmente não há perturbações de qualquer ordem para ele – desde que elas nos surjam como possíveis perturbações. Não é por causa dele nem por causa do seu trabalho que eliminamos estas perturbações, mas por nós mesmos, por amor da nossa consciência e da nossa tranquilidade. É por isso que essa Frieda tem de regressar imediatamente à sala das bebidas; talvez até o seu regresso venha causar perturbação; bom, nesse caso, mandamo-la novamente embora, mas para já tem de regressar. O senhor vive com ela, segundo me disseram; dê então providências para o seu regresso. Sentimentos pessoais não se podem tomar em consideração, é evidente, por isso não estou disposto a gastar mais tempo na discussão deste assunto. Já faço mais do que é preciso se lhe disser que, se nesta insignificância senhor der boa conta de si, isso lhe poderá vir oportunamente a ser útil na sua carreira. E é tudo o que tenho a dizer-lhe.

Franz Kafka, O Castelo (1922), Capítulo XIX

 

 

Franz Kafka – O Processo

Posted in Leituras with tags on 13/03/2019 by Pedro Miguel Gon

No outro extremo da sala para onde o levaram, haviam colocado um estrado muito baixo que se encontrava igualmente apinhado de gente; sobre aquele, colocada transversalmente, havia uma pequena mesa, e por detrás desta, quase à beira do estrado, estava sentado um homem baixo e gordo que nesse momento conversava, ofegante, no meio de estrepitosas gargalhadas, com um outro que se encontrava de pé, as pernas cruzadas e apoiando o cotovelo nas costas da cadeira do seu interlocutor. Por vezes, erguia os braços no ar como se estivesse a caricaturar alguém. O moço que conduzia K. Viu-se em dificuldades para dar conta do resultado da sua diligência. Tentara já duas vezes, pondo-se nos bicos dos pés, dar uma informação qualquer sem que, no entanto, o homem a quem se dirigia lhe prestasse atenção. Só quando uma das pessoas que se encontravam no estrado reparou no moço, o homem se voltou para ele e se debruçou para trás a fim de ouvir a comunicação que, em voz baixa, aquele lhe fazia. Depois, tirando o relógio da algibeira, olhou rapidamente para K.

– O senhor já devia ter-se apresentado há uma hora e cinco minutos – disse.

K. quis responder qualquer coisa mas não teve tempo, pois, mal o homem acabara de falar, levantou-se um protesto geral na metade direita da sala.

– O senhor já devia ter-se apresentado há uma hora e cinco minutos – repetiu o homem numa voz mais forte e olhando agora também rapidamente para a multidão que ocupava a sala.

Imediatamente os protestos se tornaram mais fortes; porém, como o homem não dissesse mais nada, foram-se extinguindo pouco a pouco. Havia agora um silêncio muito maior do que quando K. Entrara. Apenas os ocupantes da galeria continuavam a fazer as suas observações. Embora a semiobscuridade, o fumo e o pó não permitissem que se visse muito bem o que se passava lá em cima, parecia que as pessoas da galeria estavam pior vestidas do que o restante público. Muitas haviam trazido almofadas que tinham colocado entre a cabeça e o tecto para não se magoarem de encontro a este.

K. resolvera observar mais do que falar; por conseguinte, desistiu de apresentar qualquer justificação para o seu suposto atraso e disse apenas:

– Posso ter chegado atrasado mas estou aqui.

Seguiu-se uma salva de palmas de novo proveniente da metade direita da sala. “Gente que se deixa conquistar com facilidade” – pensou K.; por outro lado, o silêncio da metade esquerda da sala que estava mesmo por trás dele e na qual apenas um ou outro aplaudira, preocupava-o. Meditou no que poderia dizer para pôr imediatamente todos do seu lado ou, se isso não fosse possível, para ganhar, pelo menos temporariamente, também a simpatia dos outros.

– Sim – replicou o homem – mas agora já não tenho obrigação de o interrogar.

De novo se levantaram os protestos; desta vez, porém, duma maneira pouco definida, pois o homem, fazendo um gesto dissuasório, continuou:

– Desta vez, no entanto, excepcionalmente, interrogá-lo-ei. Mas um atraso como este não deve voltar a dar-se. E agora aproxime-se!

Alguém saltou do estrado abaixo de maneira a K. Poder subir para um lugar vazio. K. Ficou comprimido contra a mesa. Atrás, a multidão apertava tanto, que K. Teve de fazer esforços para não lançar fora do estrado a mesa do juiz de instrução ou mesmo este.

Porém, o juiz de instrução não se preocupou nada com o que se passava e deixou-se ficar confortavelmente sentado; então, depois de ter ditos ao homem que se encontrava por detrás dele uma palavra que punha termo à conversa, pegou no único objecto que se encontrava em cima da mesa, um livro de apontamentos. Este fazia lembrar um velho livro escolar deformado à força de tanto uso.

– Bom – disse o juiz de instrução, folheando o livro e dirigindo-se a K. Num tom peremptório – o senhor é pintor da construção civil?

– Não, – replicou K. – sou gerente dum importante banco.

A parte direita da sala sublinhou esta resposta com uma gargalhada tão espontânea que K. Foi obrigado a rir-se também. As pessoas, com as mãos apoiadas nos joelhos, pareciam sacudidas por um impiedoso ataque de tosse. Mesmo na galeria houve risos isolados. O juiz a quem a cena irritara imenso, não podendo, provavelmente, fazer nada contra o público da sala, levantou-se dum pulo e, ameaçando a gente da galeria, procurou descarregar sobre esta a sua cólera. As suas sobrancelhas, que habitualmente passavam despercebidas, eriçaram-se espessas, negras, enormes, por cima dos olhos

Franz Kafka, O Processo (1925), Capítulo II – Primeiro interrogatório

 

 

 

Franz Kafka – América

Posted in Leituras with tags on 06/03/2019 by Pedro Miguel Gon

O dormitório era tudo menos sossegado. E isto porque, visto cada qual distribuir variadamente o tempo livre de doze horas entre comer, dormir, distrair-se e ganhar por fora, reinava no dormitório um vaivém intenso e constante. Alguns dormiam e tapavam a cabeça com a colcha para não ouvirem nada; mas se um era acordado, tanto berrava furioso com o barulho que os restantes, por muito pesado que tivessem o sono, não resistiam. Quase todos os ascensoristas tinham o seu cachimbo – era uma espécie de luxo – e também Karl arranjara um, pelo qual em breve adquiriu gosto. Simplesmente, não era permitido fumar durante o serviço, sendo o resultado que , no dormitório, quem não dormia fumava. Como consequência, cada cama jazia envolta na sua nuvem de fumo, e tudo se encontrava mergulhado numa fumarada geral. Era impossível impor como regra, embora a maioria estivesse fundamentalmente de acordo, que de noite só se pudesse acender luz num dos extremos da sala. Se a proposta fosse aceite, os que quisessem dormir podiam fazê-lo na penumbra de uma das metades da sala – era uma sala grande, com quarenta camas – enquanto os outros poderiam jogar aos dados ou às cartas na parte iluminada e fazer tudo o mais que exigisse luz. Se um cuja cama se situasse na metade iluminada da sala quisesse dormir, poderia deitar-se numa das camas livres na parte obscurecida, pois encontravam-se sempre suficientes leitos desocupados, e ninguém regateava ao parceiro essa utilização temporária. Mas não havia uma única noite em que tal separação se pudesse pôr em prática. Apareciam sempre dois, por exemplo, que, após haverem aproveitado a escuridão para dormir um pouco, sentiam vontade de jogar às cartas numa tábua pousada entre as suas camas, e para tanto ligavam uma lâmpada elétrica cuja luz crua irritava os colegas adormecidos se apontada para eles. Uma pessoa voltava-se para um e para outro lado, é certo, mas, por fim, nada se descobria melhor para fazer do que encetar uma partida de cartas com o vizinho, igualmente acordado, e, acendendo nova lâmpada. E uma vez mais, é claro, todos os cachimbos começavam a arder. Contudo, alguns havia que queriam dormir a todo o transe – e Karl era quase sempre um deles – e que, em vez de pousarem a cabeça em cima da almofada, a tapavam ou envolviam com esta; mas, como continuar a dormir quando o vizinho do lado se levantava a altas horas para ir em cata de distrações até à cidade antes de entrar de serviço? Quando ele se lavava ruidosa e chocalhantemente no lavatório colocado à cabeceira da cama? Quando calçava as botas, não só com ruído mas também batendo com os pés para estes entrarem melhor – e quase todas elas, apesar do modelo de botas americanas que se usavam, eram demasiado apertadas; e, finalmente, por faltar qualquer ninharia na sua toilette, quando erguia a almofada do colega adormecido, debaixo da qual, aliás, há muito desperto, este aguardava apenas o momento de se atirar a ele? Eram, além disso, moços dados ao desporto, rapazes novos, na sua maioria vigorosos, que não perdiam qualquer ensejo de praticar exercícios desportivos. E quando se era acordado em sobressalto por grande alarido a meio da noite, podia-se ter a certeza de se ver dois pugilistas no chão, junto ao leito, e, com todas as luzes acesas, em todas as camas em volta, peritos sentados em camisa de noite e ceroulas. Certa vez aconteceu, numa destas pugnas nocturnas, um dos contentores cair sobre Karl adormecido, e a primeira coisa que Karl viu ao abrir os olhos foi o sangue que escorria do nariz do rapaz e que alastrou por toda a roupa de cama antes que se pudesse fazer fosse o que fosse.

Franz Kafka, América (1912), Capítulo quinto –“Hotel Occidental”

 

 

 

Leituras – Metamorfose

Posted in Leituras with tags on 26/02/2019 by Pedro Miguel Gon

 

O desejo de Gregor, de ver a mãe, foi logo satisfeito. E, em sinal de consideração para com os pais, evitava mostrar-se à janela durante o dia; mas os seus passeios, que se resumiam em andar de um lado para o outro pelo soalho, não compensavam plenamente a auto negação que se impusera, não lhe sendo mesmo possível permanecer parado durante muito tempo, nem sequer durante a noite. Já não sentia satisfação no comer, e não tardou a adquirir o hábito de caminhar à roda do quarto, de um lado para o outro, ao longo das paredes e pelo tecto, no qual ficava pendurado. Isto era coisa inteiramente diferente de andar sobre o soalho. A sua respiração tornava-se mais livre, percorria-lhe o corpo um movimento leve e ondulante, e ele sentia-se tão exultante que, de vez em quando, caía propositadamente ao chão. Mas, agora, sabendo como governar melhor o corpo, conseguia tornar inofensivas tais quedas. A irmã notou logo esse novo passatempo, visto que ele deixava, aqui e acolá, nos lugares em que passava, sinais pegajosos – e meteu-se na cabeça de Grete a ideia de ajuda-lo nos seus passeios, removendo todos os móveis que pudessem constituir empecilho a tais exercícios, principalmente a cómoda e a escrivaninha. Infelizmente, não tinha foça suficiente para o fazer sozinha, não se atrevendo, por outro lado, a pedir auxílio ao pai. Quanto à criada, naturalmente se recusaria a tal serviço, pois se aquela menina de dezasseis anos vinha corajosamente trabalhar lá a casa, desde que a cozinheira se fora embora, só o fazia sob a condição de permanecer continuamente aferrolhada na cozinha, cujas portas somente abria mediante pedido especial. De modo que Grete não tinha outra alternativa senão pedir à mãe que a ajudasse, num dia em que o pai estivesse ausente.

A mãe acedeu alegremente ao pedido, mas as suas exclamações de júbilo terminaram diante da porta de Gregor. A irmã verificou, antes de mais nada, se tudo estava em ordem no quarto; depois, permitiu que a mãe entrasse. Na pressa com que se ocultara, Gregor puxara o lençol mais baixo do que habitualmente, e as muitas dobras com o que o mesmo caía sobre o soalho davam à cena um ar de natureza morta. Dessa vez, evitou espreitar a mãe por baixo do lençol, mas sentiu-se muito satisfeito por tê-la perto de si.

– Pode entrar, mamã – disse Grete. – Ele não está à vista.

Franz Kafka, Metamorfose (1915), Parte 2

 

 

Franz Kafka – Na Colónia Penal

Posted in Leituras with tags on 12/02/2019 by Pedro Miguel Gon

O viajante começava a dispensar alguma atenção à máquina. Protegendo os olhos do sol com a mão, observou-a de baixo acima. Era uma estrutura bastante grande. A cama e o desenhador, de volume idêntico, tinham o aspecto de duas arcas sombrias. O desenhador estava montado talvez dois metros acima da cama e estas duas partes ligavam-se nos cantos por meio de quatro barras verticais em latão; dir-se-ia que faiscavam ao sol. No intervalo que separava as duas arcas, presa por uma fita de aço, oscilava a grade.

O oficial, que mal se tinha apercebido da indiferença inicial do viajante, dava agora toda a atenção às suas primeiras manifestações de interesse; suspendeu, por isso, as explicações, para dar ao viajante tempo de observar a máquina sem ser perturbado. O condenado imitava o viajante e, como não podia pôr a mão na testa, pestanejava ao olhar para cima.

“Tínhamos então o homem estendido”, disse o viajante, recostando-se no assento e cruzando as pernas.

“Pois”, disse o oficial. Puxou a boina um pouco para trás e passou a mão pelo rosto afogueado. “E agora escute. Tanto a cama como o desenhador têm a sua bateria elétrica; a cama precisa de uma para uso próprio e o desenhador precisa doutra para a grade. Logo que o homem está preso pelas correias, a cama é posta em funcionamento. Agita-se em sacões mínimos mas muito rápidos, simultaneamente laterais e verticais. É natural que já tenha visto máquinas idênticas em instituições hospitalares; mas todos os movimentos da cama da nossa máquina estão calculados, porque têm que corresponder com o maior rigor aos movimentos da grade. Ora, é de facto a esta grade que fica confiada a verdadeira execução da sentença.”

“E como é a sentença?”, perguntou o viajante.

“Também não sabe isso?”, disse o oficial espantado, e mordia o lábio. “Desculpar-me-á. Possivelmente as minhas explicações estão desordenadas. Peço imensa desculpa. Sabe, antigamente era o Comandante quem se ocupava destes esclarecimentos. Mas o novo Comandante furtou-se a esse dever de honra. Que nem a um visitante tão distinto…”, o viajante, acenando com ambas as mãos, procurava declinar essa honra, mas o oficial manteve a expressão “…que nem a um visitante tão distinto tenha dado a conhecer sequer que a forma da nossa sentença é mais uma inovação que…” Bailava-lhe nos lábios uma praga, mas conteve-se e disse apenas: “Não fui informado. Não me cabem culpas. E, aliás, sou eu a pessoa mais capacitada para explicar os tipos de sentenças de que dispomos, já que tenho aqui os respectivos desenhos originais, da mão do nosso antigo Comandante.” E bateu com os dedos no bolso do peito.

“Desenhos originais feitos pelo próprio Comandante?”, perguntou o viajante. “Então reunia tudo? Era soldado, juiz, inventor, químico, desenhador…?”

“Sim senhor!”, respondeu o oficial com um aceno afirmativo e o olhar fixo, pensativo. Depois examinou as mãos. Não lhe pareceram suficientemente limpas para pegar nos desenhos. Foi portanto à bacia da água e voltou a lavá-las.

Franz Kafka, Na Colónia Penal (1914)

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