Leituras – Kawabata 02

Posted in Leituras with tags on 19/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Kikuji não compreendia como aquilo tinha acontecido, tão natural lhe parecera tudo. Talvez que a senhora Ota, assim se comportando com lágrimas e choro, lhe estivesse a pedir desculpa por o ter seduzido, e talvez que ela nem sequer houvesse tido a intenção de o seduzir, e (perguntava-se Kikuji) seria que ele se sentia seduzido…? Quando, face a face, a sós, nenhuma resistência se manifestara quer da parte dela, quer da parte dele. Tão-pouco quais quer escrúpulos, pelo menos quanto a si…

Ambos se tinham acolhido numa estalagem, na colina oposta a Engakuji, e aí jantaram, continuando a senhora Ota a falar do pai de Kikuji. Kikuji não a ouvia. Um sentimento estranho inundava-o de uma imensa tranquilidade e unicamente senhora Ota, sem mostrar qualquer relutância, defendia, de um modo anelante, o seu passado. Dando atenção a esta e àquela palavra, Kikuji sentia-se benevolente como até então nunca o fora. Uma afeição suave, e ao mesmo tempo cortês, envolvia-o todo.

Até porque concluía que seu pai, afinal, tinha sido feliz.

 

Yasunari Kawabata, Chá e Amor (1949)

Kawabata 02

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Leituras -Yasunari Kawabata 01

Posted in Leituras, Uncategorized with tags on 12/05/2018 by Pedro Miguel Gon

Na base da ladeira, saímos na estrada de Shimoda. Estrada abaixo, fogueiras de carvoeiros levantavam colunas de fumo, aqui e além. Parámos para descansar sobre uma pilha de madeira. A dançarina começou a pentear o pêlo desgrenhado do cachorro com um pente rosa-pálido.

– Vais-lhe partir os dentes – avisou a mulher mais velha.

– Não faz mal, vou arranjar um novo em Shimoda.

Era o pente que ela tinha usado no seu cabelo em Yugano. Fiquei, assim, um pouco aborrecido ao descobrir que ela penteava o cão com ele.

De repente, chegou-me a voz da dançarina:

– O que ele devia fazer era arranjar um dente de ouro, e então já não repararias.

Olhei para trás. Elas estavam obviamente a falar dos meus dentes tortos. Chiyoko devia ter puxado o assunto e a pequena dançarina sugeria que eu arranjasse um dente de ouro. Não me senti ressentido por estarem a falar de mim – e a conversa abrandou por um tempo.

A voz da rapariga voltou-me outra vez:

– Ele é gentil, não é?

– Ele é, de facto, muito gentil. Gosto de ter ao pé de mim alguém tão gentil.

Ela tinha uma maneira aberta de falar, uma maneira jovem e honesta de dizer aquilo que lhe vinha à cabeça, o que me deu a possibilidade de me pensar como verdadeiramente gentil. Olhei para cima, mais uma vez para as montanhas tão brilhantes que me faziam doer um pouco os olhos. Tinha chegado aos dezanove a ver-me como um misantropo, um inadaptado solitário, e fora este pensamento depressivo que me conduzira à viagem a Izu. Agora era capaz de me olhar como “uma pessoa gentil”, no sentido usual da expressão. Não consigo encontrar um modo que descreva o que isto significava para mim. As montanhas tornavam-se mais brilhantes – aproximávamo-nos de Shimoda e do mar.

Yasunari Kawabata, A Dançarina de Izu (1926)

Kawabata 01

 

Leituras – Junichiro Tanizaki

Posted in Leituras with tags on 29/03/2018 by Pedro Miguel Gon

4 de Janeiro

Hoje aconteceu uma coisa estranha. Durante três dias não arrumei o escritório; como o meu marido foi passear esta tarde, entrei lá para o limpar. Em frente da estante, sobre a qual está uma jarra de pé alto onde pus um narciso, estava caída uma chave. A coisa não tinha talvez nenhuma importância. Contudo, não posso imaginar que meu marido tenha sido, sem nenhum motivo, tão negligente que deixasse esta chave no chão, porque é muito cuidadoso. E de resto, desde que há anos redige o seu diário, não deixou cair a chave uma única vez. Há muitíssimo tempo, naturalmente, que sei que ele escreve um diário, que o fecha à chave na gaveta da mesinha, enfim, que esconde esta chave umas vezes entre os numerosos livros da estante e outras debaixo do tapete. Contudo, faço uma distinção entre o que posso e o que não devo saber.

Conheço apenas o lugar deste diário e o sítio onde a chave está escondida. Nunca abri o caderno para ver o que continha. Apesar disso, o que me irrita é que o meu marido, que nasceu com um temperamento desconfiado, não ficaria tranquilo se não fechasse o o seu caderno e não escondesse a chave em qualquer parte. Porque deixou então hoje a chave caída no chão? O que provocou no seu espírito esta mudança? Julgará útil fazer com que eu leia este diário? Terá pensado que se me dissesse abertamente. “lê-o”, eu provavelmente não o leria? Não quis então dizer-me: “Se tens vontade de o ler, lê-o às escondidas! A chave está ali.” Não saberá ele que desde há muito tempo conheço os esconderijos da sua chave? Não, não deve ser isso, talvez tenha querido dizer: “ Admito de hoje em diante que leias este diário às escondidas; admito-o, mas farei de conta que não o sei”.

Junichiro Tanizaki, A confissão impudica/Kagi (1956)

2

 

 

Leituras – J. M. Coetzee III

Posted in Leituras on 17/03/2018 by Pedro Miguel Gon

Quando era nova, num mundo agora perdido e desaparecido, encontravam-se pessoas que ainda acreditavam na arte ou, pelo menos, no artista, que tentavam seguir as pegadas dos grandes mestres. Que importava que Deus tivesse fracassado, ou o Socialismo; ainda havia Dostoevsky para nos guiar, ou então Rilke, ou Van Gogh, com a orelha entrapada que traduzia paixão. Terá ela trazido consigo essa fé infantil até à maturidade, e para além dela: a fé no artista e na sua verdade?

À partida, tenderia a dizer que não. Os livros dela seguramente que não evidenciam qualquer fé na arte. Agora que tudo isso já acabou, esse trabalho de toda uma vida que foi a escrita, acha que é capaz de o encarrar de uma maneira suficientemente desapaixonada, fria, até, para já não se iludir. Os livros dela não ensinam nada, não apregoam nada, limitam-se a explicar, o mais claramente possível, a maneira como as pessoas viviam numa determinada época e num determinado lugar. Dizendo-o em termos mais modestos, explicam o modo como uma pessoa vivia, uma entre biliões: a pessoa a quem ela própria chama de ela e a quem outros chamam de Elizabeth Costelo. Finalmente, o ela acreditar mais nos próprios livros do que nessa pessoa, é o mesmo que um carpinteiro acreditar numa mesa robusta ou um tanoeiro num barril sólido. Os livros dela são, está convencida disso, mais bem estruturados do que ela.

J.M. Coetzee, Elizabeth Costello (2003), 8. Na porta

 

 

 

Entrevista com João Barrento

Posted in Outros with tags , , on 17/02/2018 by Pedro Miguel Gon

Sobre a literatura portuguesa atual.

 

Para ler a entrevista completa: Observador.

 

Destino Coimbra

Posted in Outros with tags on 13/01/2018 by Pedro Miguel Gon

Obrigado malta!

Leituras – J. M. Coetzee

Posted in Leituras with tags on 13/01/2018 by Pedro Miguel Gon

O neto de Visagie, já de camisa vestida com as mãos nas algibeiras, perscrutava o horizonte. Após um longo silêncio, falou:

– Michael, não sou eu que te pago, portanto não posso despedir-te sem mais nem menos. Mas temos de trabalhar juntos, senão… – disse, olhando fixamente para K.

Estas palavras, fossem elas uma acusação, uma ameaça, ou uma advertência, sufocaram K. Talvez fosse a maneira de ser dele: calma. Porém, sentia-se estúpido outra vez. Não sabia para onde virar a cara. Esfregou os lábios e fitou as botas castanhas de Visagie, pensando: não será fácil comprar agora botas iguais. Mas não disse nada.

– Michael, quero que vás a Prince Albert – disse o neto Visagie. – Dou-te uma lista de coisas de que preciso, e dinheiro, incluindo algum para ti. Mas não fales a ninguém. Não digas que me viste. Não digas para quem são as coisas. Não digas que as vais comprar para outra pessoa. E não compres tudo na mesma loja. Compra metade na loja de Van Rhyn e a outra metade no café. Não fiques parado a conversar, faz de conta que estás com pressa. Percebes?

Oxalá eu não me perca, pensou K, abanando a cabeça. Visagie continuou a falar.

– Michael, estou a falar-te como um ser humano a outro. Há uma guerra. Há pessoas a morrer. Pois bem, eu não estou em guerra com ninguém. Estou em paz, em paz com toda a gente. Aqui na quinta não há guerra nenhuma. Tu e eu podemos viver calmamente até a paz ser restabelecida. A paz vai voltar mais dia menos dia.

Michael, eu trabalhei numa tesouraria, sei o que se está a passar. Sei quantos homens são levados todos os meses para destinos desconhecidos, sem receberem ordenado, deixando vagas abertas. Sabes o que quero dizer? Podia dar-te números impressionantes e não sou o único. Brevemente, terão falta de homens. Fica sabendo que daqui a algum tempo não haverá homens que cheguem, digo-te eu, para captuar os fugitivos! O país é grande! Olha à tua volta! Há muitos lugares para onde ir! Muitos sítios onde se esconder!

Só quero estar longe das vistas por pouco tempo. Eles hão-de desistir em breve. Sou apenas um pequeno peixe no grande oceano. Mas preciso da tua cooperação, Michael. Tens de me ajudar. Se não, não há futuro para qualquer de nós. Estás a perceber?

Assim, K partiu da quinta levando consigo a lista de coisas necessárias a Visagie e quarenta randes em notas. Apanhou, no caminho, uma lata onde meteu o dinheiro e, junto da quinta, escondeu-a debaixo de uma pedra. Depois atravessou a aldeia, com o Sol do lado esquerdo, evitando aproximar-se de qualquer habitação. De tarde começou a subir até que as últimas casas brancas de Prince Albert ficaram por detrás dele, a oeste. Sempre afastado de lugares concorridos, chegou à estrada que ia ter a Swartberg. Palmilhou estrada acima e quando já era noite, vestido o casaco da mãe para se proteger do frio.

Nos arredores da cidade procurou um lugar onde dormir e encontrou uma caverna que tinha sido, evidentemente, usada por campistas. Havia ali uma pequena lareira de pedra e o chão estava atapetado de ervas bem-cheirosas. Acendeu uma fogueira e assou uma lagartixa que tinha morto com uma pedra. O azul da abóbada celeste escureceu e as estrelas despontaram, brilhantes. Enroscou-se no chão, meteu as mãos nas mangas e adormeceu. Custava-lhe a acreditar que conhecera alguém que se intitulava neto de Visagie e quisera fazer dele um criado. Dentro de um ou dois dias, pensou, havia de esquecer o rapaz, para só recordar a quinta.

J.M. Coetzee, A Vida e o Tempo de Michael K (1983), Um