Archive for the Leituras Category

Leituras – J. M. Coetzee

Posted in Leituras with tags on 13/01/2018 by Pedro Miguel Gon

O neto de Visagie, já de camisa vestida com as mãos nas algibeiras, perscrutava o horizonte. Após um longo silêncio, falou:

– Michael, não sou eu que te pago, portanto não posso despedir-te sem mais nem menos. Mas temos de trabalhar juntos, senão… – disse, olhando fixamente para K.

Estas palavras, fossem elas uma acusação, uma ameaça, ou uma advertência, sufocaram K. Talvez fosse a maneira de ser dele: calma. Porém, sentia-se estúpido outra vez. Não sabia para onde virar a cara. Esfregou os lábios e fitou as botas castanhas de Visagie, pensando: não será fácil comprar agora botas iguais. Mas não disse nada.

– Michael, quero que vás a Prince Albert – disse o neto Visagie. – Dou-te uma lista de coisas de que preciso, e dinheiro, incluindo algum para ti. Mas não fales a ninguém. Não digas que me viste. Não digas para quem são as coisas. Não digas que as vais comprar para outra pessoa. E não compres tudo na mesma loja. Compra metade na loja de Van Rhyn e a outra metade no café. Não fiques parado a conversar, faz de conta que estás com pressa. Percebes?

Oxalá eu não me perca, pensou K, abanando a cabeça. Visagie continuou a falar.

– Michael, estou a falar-te como um ser humano a outro. Há uma guerra. Há pessoas a morrer. Pois bem, eu não estou em guerra com ninguém. Estou em paz, em paz com toda a gente. Aqui na quinta não há guerra nenhuma. Tu e eu podemos viver calmamente até a paz ser restabelecida. A paz vai voltar mais dia menos dia.

Michael, eu trabalhei numa tesouraria, sei o que se está a passar. Sei quantos homens são levados todos os meses para destinos desconhecidos, sem receberem ordenado, deixando vagas abertas. Sabes o que quero dizer? Podia dar-te números impressionantes e não sou o único. Brevemente, terão falta de homens. Fica sabendo que daqui a algum tempo não haverá homens que cheguem, digo-te eu, para captuar os fugitivos! O país é grande! Olha à tua volta! Há muitos lugares para onde ir! Muitos sítios onde se esconder!

Só quero estar longe das vistas por pouco tempo. Eles hão-de desistir em breve. Sou apenas um pequeno peixe no grande oceano. Mas preciso da tua cooperação, Michael. Tens de me ajudar. Se não, não há futuro para qualquer de nós. Estás a perceber?

Assim, K partiu da quinta levando consigo a lista de coisas necessárias a Visagie e quarenta randes em notas. Apanhou, no caminho, uma lata onde meteu o dinheiro e, junto da quinta, escondeu-a debaixo de uma pedra. Depois atravessou a aldeia, com o Sol do lado esquerdo, evitando aproximar-se de qualquer habitação. De tarde começou a subir até que as últimas casas brancas de Prince Albert ficaram por detrás dele, a oeste. Sempre afastado de lugares concorridos, chegou à estrada que ia ter a Swartberg. Palmilhou estrada acima e quando já era noite, vestido o casaco da mãe para se proteger do frio.

Nos arredores da cidade procurou um lugar onde dormir e encontrou uma caverna que tinha sido, evidentemente, usada por campistas. Havia ali uma pequena lareira de pedra e o chão estava atapetado de ervas bem-cheirosas. Acendeu uma fogueira e assou uma lagartixa que tinha morto com uma pedra. O azul da abóbada celeste escureceu e as estrelas despontaram, brilhantes. Enroscou-se no chão, meteu as mãos nas mangas e adormeceu. Custava-lhe a acreditar que conhecera alguém que se intitulava neto de Visagie e quisera fazer dele um criado. Dentro de um ou dois dias, pensou, havia de esquecer o rapaz, para só recordar a quinta.

J.M. Coetzee, A Vida e o Tempo de Michael K (1983), Um

 

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Leituras – J. M. Coetzee

Posted in Leituras with tags on 02/01/2018 by Pedro Miguel Gon

197. Deambulam pelo pátio com os atavios dos meus pais sem terem para quem se exibir. Aqueles dias de ociosidade marcam-nos tanto a eles como a mim. Estamos todos a desintegrar-nos. Fartos um do outro, decidem centrar a atenção em mim só para se entreterem. Pego na espingarda que está novamente no sítio do costume, no bengaleiro. As costas de Hendrik entram no meu campo de visão acima da mira. O que é que Hendrik é nesse momento: um homem consumido pelo tédio, mordiscando uma erva, ou uma mancha branca num fundo verde? Quem poderá dizer? Espingarda e alvo entram em sintonia e eu carrego no gatilho. Sinto-me atordoada e arrasada, mas já passei por aquilo, por aquele zumbido nos meus ouvidos: sou uma veterana. Anna corre como uma criança, com os braços a adejar, tropeçando no vestido branco, comprido. Hendrik está de gatas, tentando arrastar-se até ela. Eu volto para a escuridão do meu quarto à espera que o barulho cesse.

198. De arma na mão, saio para o stoep deserto. Levanto-a e aponto para a mancha branca que é a camisa. O cano oscila de um lado para o outro e não há nada onde o possa apoiar. Anna grita e aponta para mim. Desatam a correr como lebres pelo pátio em direção à horta. Àquela velocidade é impossível segui-los com a espingarda. Não sou má nem sequer sou perigosa. Fecho os olhos e disparo. Sinto-me atordoada e arrasada, os meus ouvidos começam a zumbir. Hendrik e Klein-Anna desaparecem atrás das figueiras. Volto a colocar a arma no sítio.

 

J. M. Coetzee, No Coração desta Terra (1977), 197. e 198.

 

 

Leituras – Patrick Modiano

Posted in Leituras on 22/12/2017 by Pedro Miguel Gon

Porque é que pessoas de cuja existência nem sequer suspeitamos, com as quais nos cruzamos uma vez por acaso e que nunca mais voltaremos a ver, desempenham, secretamente, um papel tão importante na nossa vida? Graças a esse indivíduo, voltara a encontrar Annie. Gostaria de agradecer a esse Torstel.

– Tinha-me esquecido completamente desse homem… Deve morar aqui no bairro… Abordou-me na rua… Disse-me que tinha estado na casa de Saint-Leu-la-Forêt há quinze anos…

Certamente devia ter sido o encontro com Torstel no outono passado, na pista de corridas, que lhe refrescara a memória. Torstel tinha falado da casa de Saint-Leu-la-Forêt. Ele, Daragane, quando Torstel dissera: “Já não me lembro que lugar era esse nos arredores de Paris” e também “A criança era você, suponho”, não quisera responder. Há muito tempo que não pensava em Annie Astrand nem em Saint-Lau-la-Forêt. Todavia, aquele encontro tinha bruscamente reavivado memórias que, sem ter consciência disso, se esforçava por não despertar. E pronto, acontecera. Eram bem tenazes, essas recordações. Nessa mesma noite começava a escrever o seu livro.

– Disse-me que te tinha encontrado numa pista de corridas de cavalos…

Sorria, como se se tratasse de uma brincadeira.

– Espero que não sejas jogador.

– Não, nada disso.

Ele, jogador? Nunca compreendera porque é que toda aquela gente, nos casinos, ficava muito tempo à volta das mesas, em silêncio, imóvel, com o seu ar de mortos-vivos. E, sempre que Paul lhe falava das duplicações de paradas, tinha dificuldade em prestar-lhe atenção.

– Os jogadores acabam sempre mal, Jean, meu pequenino…

Talvez ela soubesse muita coisa sobre isso. Muitas vezes chegava bastante tarde à casa de Saint-Leu-la-Forêt, e ele, Daragane, não conseguia adormecer antes do seu regresso. Que alívio ouvir o ruído dos pneus do seu carro no cascalho e o motor que se sabe ir ser desligado… E os seus passos, ao longo do corredor… Que fazia ela em Paris até às duas da manhã? Talvez fosse jogar. Depois de todos esses anos, e agora, que já não era criança, gostaria de lhe fazer essa pergunta.

– Não compreendi muito bem o que faz esse senhor Torstel… Creio que é antiquário no Palais-Royal…

Aparentemente, ela não sabia o que lhe dizer. Ele teria desejado pô-la à vontade. Ela devia sentir a mesma coisa que ele, como a presença de uma sombra entre eles, da qual nem um nem outro podiam falar.

– Então, agora és escritor?

Patrick Modiano, Para que não te percas no bairro (2014)

 

 

 

 

 

Leituras – Alain de Botton

Posted in Leituras with tags , on 21/10/2017 by Pedro Miguel Gon

Em 1922, os dois escritores foram convidados para um jantar formal oferecido no Ritz por Stravinsky, Diaghilev e os membros do Ballet Russo para comemorar a primeira noite do Le Renard de Stravinsky. Joyce chegou atrasado e sem smoking, Proust manteve o casaco de peles vestido durante toda a noite, e o que aconteceu quando foram apresentados foi mais tarde relatado por Joyce a um amigo:

“A nossa conversa resumiu-se à palavra “Non”. Proust perguntou-me se eu conhecia o duque de tal e tal. Eu disse: “Non”. Os nossos anfitriões perguntaram a Proust se ele lera a parte tal e tal de Ulisses. Proust respondeu: “Non”. E por aí fora.”

Depois do jantar, Proust entrou no táxi com os seus anfitriões, Violet e Sydney Schiff, e, sem pedir, Joyce entrou também. O seu primeiro gesto foi abrir a janela e o segundo acender um cigarro, duas coisas que, na opinião de Proust, constituíam um atentado à vida. Durante a viagem Joyce observou Proust sem dizer uma palavra, enquanto Proust não parou de falar sem se dirigir a Joyce. Quando chegaram ao apartamento de Proust na Rue Hamelin, Proust chamou Sydney Schiff à parte e disse: ”Peça por favor, a Monsieur Joyce que deixe o meu táxi levá-lo a casa”. O taxista assim fez. Os dois homens nunca mais voltaram a ver-se.

 

Alain de Botton, Como Proust pode mudar a sua vida (1997), Como Ser um Bom Amigo

 

 

Leituras – Michel Schneider

Posted in Leituras on 12/08/2017 by Pedro Miguel Gon

No dia 2 de Julho de 1904, no sanatório, a mulher Olga – “Meu crocodilo, minha pombinha, minha crinolina, minha doçura, meu cavalinho” – aproxima-se dele e quer pousar um saco de gelo moído sobre o seu peito. Tal teria aliviado os seus acessos de tosse. Ele afasta-lhe o braço: “ Não se põe gelo num coração oco”. Tinha sentido a chegada da morte. Atingido pela tuberculose e sem conseguir respirar, tinha escolhido ir a banhos para uma estância termal para se tratar, segundo dissera. Para morrer longe dos olhos e dos corações. Com a mesma modéstia com que sempre vivera. “Parto para acabar lá”, dissera a alguns amigos quando viajara para Berlim para consultar o professor Karl Ewald, especialista em tuberculose. Talvez tenha sido a sua antepenúltima palavra. O médico recomenda-lhe a convalescença nos banhos algures na Floresta Negra. O lugar chama-se Badenweiller. Isso ou outra coisa, é sempre Samarcanda. “Que assustador símbolo de tédio, esta estância termal alemã constitui…”, escreve no dia 26 de Junho de 1904. Sobram-lhe poucos dias de vida. Faz projectos: o lago de Como, Marselha, Odessa, Trieste, o monte Athos. Uma espécie de massagista cobre-lhe o corpo de panos húmidos. Obrigam-no a beber cacau com muita manteiga. Engole ainda um caldo de aveia, uma infusão de morango para dormir. Tendo acabado de beber, o escritor volta-se para a parede e diz: “ Ich sterbe”. Em voz baixa, mas perceptível. Em alemão: “Eu morro”. E morre. Morre em alemão.

Anton Tchekhov era um homem, não sabia o que era a vida. Era um médico, sabia um pouco o que era a morte e tinha-a demasiadas vezes apalpado com os dedos para não deixar de a pressentir. Eu morro. Para quê dizê-lo? Porquê falar? Porque se é um homem bem educado. Porquê em alemão, uma língua que ele dominava bastante mal? Porque Anton Tchekhov era polido, e nunca elevava a voz. Dizer a sua morte em russo teria um aspecto natal, estrangeiro. Teria sido uma incongruência, como empregar uma palavra rara nos seus contos ou nas suas peças. Porque o médico a seu lado era alemão e não se deve falar uma língua diante de alguém que não a percebe. Porque se morre sempre, tal como se escreve, numa língua estrangeira. Talvez fosse isso que ele pretendia dizer: a morte fala de nós numa língua estrangeira. Não a entendo, mas não duvido de que se trata de uma língua, e procuro encontrar um sentido no que ela diz acerca de mim.

No entanto, talvez haja outra explicação para esse emprego do alemão. Aquelas duas palavras formam uma frase impossível. Ou, melhor, que tende para o limite de uma contradição insuperável entre aquilo que é enunciado e quem o enuncia. Pode-se ainda dizer: “Eu morro”, mas então não se está morto, ou não completamente. Mas não se pode seguramente dizer “Eu estou morto”, salvo se formos Proust que o repetia todas as noites ao despertar e o escrevia a todos os amigos antes de que se tornasse verdade. Sentado na cama, entre o médico e a mulher, Tchekhov opta portanto por dizer a última palavra na língua estrangeira, aquela que a sua mulher não falava. E porque devemos sempre articular bem as palavras, di-lo de modo audível, um pouco forçado, como no teatro: “Ich sterbe”. Escuto a doçura das consoantes, a falta de sopro sob as vogais, o timbre neutro. Mas se Ich sterbe é a última palavra de Tchekhov, aquela que escolhemos escutar e repetir, não foi a última frase que pronunciou. Pouco depois, pede um outro médico. Este último chama-se Schworher, serve-lhe uma taça de champanhe. “Há muito tempo que não bebia champanhe”, diz Tchekhov, mesmo antes de entregar-se definitivamente à sua antiga e íntima inimiga. Não dava certamente muito valor à glória póstuma nem à pose final. Pouco lhe importava deixar uma frase de moribundo. A morte faz rabiscos. Tchekhov já não tem energia para arrependimentos. Escreveu um dia: “A arte de escrever não consiste em escrever bem, mas em rasurar aquilo que está mal escrito”.

Michel Schneider, Mortes Imaginárias (2003), Ich sterbe

Leituras – Marcel Schwob

Posted in Leituras on 08/08/2017 by Pedro Miguel Gon

Nasceu em Tebas, foi discípulo de Diógenes e conheceu também Alexandre. Seu pai, Ascondas, era rico e deixou-lhe duzentos talentos. Certo dia, em que tinha ido ver uma tragédia de Eurípedes, sentiu-se inspirado quando apareceu Télefo, pai de Mísias, vestido andrajosamente de mendigo, com um cesto na mão. Levantou-se no meio do teatro e anunciou com voz forte que distribuiria a quem quisesse os duzentos talentos da usa herança e que daí em diante lhe bastariam as vestes de Télefo. Os Tebanos puseram-se a rir e juntaram-se diante de sua casa; entretanto, ele ria mais do que eles. Lançou-lhes pela janela o seu dinheiro e os seus móveis, pegou numa capa de lona e numa sacola, e foi-se.

Chegado a Atenas, errou pelas ruas, repousando as costas nas muralhas, no meio dos excrementos. Pôs em prática tudo o que Diógenes aconselhava. A pipa parecia-lhe supérflua. Na opinião de Cráteo, o homem não era nenhum caracol, nem eremita-do-mar. Ficou todo nu no esterco e apanhou as crostas de pão, as azeitonas podres e as espinhas de peixe secas para encher a sacola. Dizia que a tal sacola era uma cidade grande e opulenta onde não havia parasitas sem cortesãs e que produzia o suficiente para o seu rei, alho, figos e pão. Assim Cráteo levava a pátria às costas e dela se alimentava.

Marcel Schwob, Vidas Imaginárias (1896), Cráteo, Cínico

 

O corrente desafio…

Posted in Leituras with tags , on 15/03/2017 by Pedro Miguel Gon

 

Conhecem o paralelo?