Archive for the Poemática Category

Herberto Helder (1930 – 2015)

Posted in Poemática on 26/03/2015 by Pedro Outono

Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem

do lado reluzente das laranjeiras.

E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.

Queimavas-me junto às unhas.

E a queimadura subia por antebraço, braço,

ao coração sacudido. Eu – perfumado

e queimado por dentro: um laço feito de odor

transposto, ar fosforescendo, uma árvore

banhada

nocturnamente. Tudo em mim trazido

súbito

para o meio. Quando este saco de sangue rodava

defronte da abertura

prodigiosa.

                                  Herberto Helder, Última Ciência, 1988, pág. 14

Herberto Helder

Posted in Poemática on 26/06/2014 by Pedro Outono

 

 

não quero deixar o sono neste piano

preferia varrer de teclas a caminhada

e evitar os bocejos no vale

 

descobri que o verão não cabe inteiro nas minhas pernas

e as dunas não chegam a ser os seios

que remexem os sentidos

nem a curva dos pássaros chega a ser a sabedoria

que vou procurando debaixo dos seixos

 

o vento lambe-me enquanto escrevo

estas linhas

lambe-me para provar que existe

para me mostrar que existo

ou que é por aquele vale que devia seguir

se ali as pautas se compõem sob os meus pés

 

 

Posted in Poemática on 09/02/2014 by Pedro Outono

 

os degraus vêem-te subir e dizem

estás cansado, pá!

os minutos assistem ao movimento

num silêncio de parafusos

que aponta o óbvio: estás cansado, pá

 

mas tu não ouves

finges-te escandalizado com esses

reparos burgueses

 

o cadeirão que te antepara

queixa-se que o cansaço pesa demais

e tu vingas-te

não o deixando espreitar os livros

 

montas uma indignação valente

e decides golpear

a esquadria do raciocínio

 

convences-te que não há cansaço

porque ninguém à tua mesa

na tua cama

repara que estás cansado

 

Declaração

Posted in Poemática on 24/08/2013 by Pedro Outono

 

 

não aceito que as nuvens nasçam no telejornal

ou que as invectivas se tornem o pão com que aniquilamos filhos

 

o mundo como iogurtes prontos a comer

com pitada de Auschwitz e Hiroxima

 

nas mãos fecho a vergonha com que apagaria as gravatas

onde se penduram homúnculos Gucci para detonar sorrisos

 

 

 

Recusar o convite

Posted in Poemática on 29/11/2012 by Pedro Outono

Incluído na Antologia de Poesia AMADO AMATO, Novembro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Posted in Poemática on 20/10/2012 by Pedro Outono

Os Livros

 

É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo ‘eu’ entre nós e nós?

 

 

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (2011)
 
 
 

Quando estiver morto

Posted in Poemática on 06/01/2012 by Pedro Outono

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