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Ciclo Coimbra (t)em Poesia

Posted in Poemática with tags , on 28/10/2016 by Pedro Outono

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é

procurar um amigo com quem faço amor

e pegar-lhe na mão

como se pegasse no planeta

Amarro-lhe o primeiro beijo

como se fosse viajar

 

Abraço-lhe o lugar de nós

como uma escalada para dentro

e as mãos,

atrasam-se no corpo dela

como desertoras

 

Labiamos-nos

 

Sexo-lhe os contornos

como se o mundo estivesse todo

no nenúfar em que encaixo

o corpo

 

é

o cocegar dela na minha alma

 

 

 

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tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteroides

 

 

 

 

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estou lá sentado dentro do espaço que ocupo sentado

mas duvido que esteja coincidentemente dentro de mim

é sempre assim quando as árvores pretendem fazer uso das pernas

 

nascemos todas as manhãs sob o epíteto do oxigénio

e apresentamos os braços e as pernas ao martírio

do movimento

e depois chega a noite – epitáfio da termodinâmica

 

agora quero sentar-me em mim mesmo e não consigo

porque não encontro o degrau paulatino em que me esqueci

 

e ao mesmo tempo que tento sentar-me no degrau certo

tento ainda o golo milagroso que me faria sentar de vez

no preciso instante em que estou sentado

 

 

 

 

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trinco a língua de propósito

como se morder o português me tornasse mais livre

 

vejo que a manete dos livros não tem funcionado

e não posso levar a biblioteca ao mecânico

porque já não restam páginas para lá chegar

 

É mordido de insónia que planeio genocídios

e transfusões de sangue Então desmantelo a mão

descarto dois dedos e faço uma fisga

com que ataco a verborreia

 

Ainda lasco as sílabas no aperto dos lábios

apertadas na saliva como se decepasse o maxilar

Ouço as pedras basálticas enlaçadas nas vinhas

e os berros de perros pulmonares

orquestras de dentes caninos dilacerando a língua

num esgar de quem faz por existir

sem o preço dos móveis Ikea

 

 

 

Ana Hatherly (1929-2015)

Posted in Poemática on 13/11/2015 by Pedro Miguel Gon

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Herberto Helder (1930 – 2015)

Posted in Poemática on 26/03/2015 by Pedro Outono

Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem

do lado reluzente das laranjeiras.

E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.

Queimavas-me junto às unhas.

E a queimadura subia por antebraço, braço,

ao coração sacudido. Eu – perfumado

e queimado por dentro: um laço feito de odor

transposto, ar fosforescendo, uma árvore

banhada

nocturnamente. Tudo em mim trazido

súbito

para o meio. Quando este saco de sangue rodava

defronte da abertura

prodigiosa.

                                  Herberto Helder, Última Ciência, 1988, pág. 14

Herberto Helder

Posted in Poemática on 26/06/2014 by Pedro Outono

 

 

não quero deixar o sono neste piano

preferia varrer de teclas a caminhada

e evitar os bocejos no vale

 

descobri que o verão não cabe inteiro nas minhas pernas

e as dunas não chegam a ser os seios

que remexem os sentidos

nem a curva dos pássaros chega a ser a sabedoria

que vou procurando debaixo dos seixos

 

o vento lambe-me enquanto escrevo

estas linhas

lambe-me para provar que existe

para me mostrar que existo

ou que é por aquele vale que devia seguir

se ali as pautas se compõem sob os meus pés

 

 

Posted in Poemática on 09/02/2014 by Pedro Outono

 

os degraus vêem-te subir e dizem

estás cansado, pá!

os minutos assistem ao movimento

num silêncio de parafusos

que aponta o óbvio: estás cansado, pá

 

mas tu não ouves

finges-te escandalizado com esses

reparos burgueses

 

o cadeirão que te antepara

queixa-se que o cansaço pesa demais

e tu vingas-te

não o deixando espreitar os livros

 

montas uma indignação valente

e decides golpear

a esquadria do raciocínio

 

convences-te que não há cansaço

porque ninguém à tua mesa

na tua cama

repara que estás cansado

 

Declaração

Posted in Poemática on 24/08/2013 by Pedro Outono

 

 

não aceito que as nuvens nasçam no telejornal

ou que as invectivas se tornem o pão com que aniquilamos filhos

 

o mundo como iogurtes prontos a comer

com pitada de Auschwitz e Hiroxima

 

nas mãos fecho a vergonha com que apagaria as gravatas

onde se penduram homúnculos Gucci para detonar sorrisos

 

 

 

Recusar o convite

Posted in Poemática on 29/11/2012 by Pedro Outono

Incluído na Antologia de Poesia AMADO AMATO, Novembro de 2012