Arquivo por Autor

Ciclo Coimbra (t)em Poesia

Posted in Poemática with tags , on 28/10/2016 by Pedro Outono

cctp_v22_a3_1_outubro_ii-pdfimg_2158img_2151img_2167

 

 

 

é

procurar um amigo com quem faço amor

e pegar-lhe na mão

como se pegasse no planeta

Amarro-lhe o primeiro beijo

como se fosse viajar

 

Abraço-lhe o lugar de nós

como uma escalada para dentro

e as mãos,

atrasam-se no corpo dela

como desertoras

 

Labiamos-nos

 

Sexo-lhe os contornos

como se o mundo estivesse todo

no nenúfar em que encaixo

o corpo

 

é

o cocegar dela na minha alma

 

 

 

###

 

 

 

 

tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteroides

 

 

 

 

###

 

 

 

 

estou lá sentado dentro do espaço que ocupo sentado

mas duvido que esteja coincidentemente dentro de mim

é sempre assim quando as árvores pretendem fazer uso das pernas

 

nascemos todas as manhãs sob o epíteto do oxigénio

e apresentamos os braços e as pernas ao martírio

do movimento

e depois chega a noite – epitáfio da termodinâmica

 

agora quero sentar-me em mim mesmo e não consigo

porque não encontro o degrau paulatino em que me esqueci

 

e ao mesmo tempo que tento sentar-me no degrau certo

tento ainda o golo milagroso que me faria sentar de vez

no preciso instante em que estou sentado

 

 

 

 

###

 

 

 

 

trinco a língua de propósito

como se morder o português me tornasse mais livre

 

vejo que a manete dos livros não tem funcionado

e não posso levar a biblioteca ao mecânico

porque já não restam páginas para lá chegar

 

É mordido de insónia que planeio genocídios

e transfusões de sangue Então desmantelo a mão

descarto dois dedos e faço uma fisga

com que ataco a verborreia

 

Ainda lasco as sílabas no aperto dos lábios

apertadas na saliva como se decepasse o maxilar

Ouço as pedras basálticas enlaçadas nas vinhas

e os berros de perros pulmonares

orquestras de dentes caninos dilacerando a língua

num esgar de quem faz por existir

sem o preço dos móveis Ikea

 

 

 

Anúncios

Herberto Helder (1930 – 2015)

Posted in Poemática on 26/03/2015 by Pedro Outono

Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem

do lado reluzente das laranjeiras.

E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.

Queimavas-me junto às unhas.

E a queimadura subia por antebraço, braço,

ao coração sacudido. Eu – perfumado

e queimado por dentro: um laço feito de odor

transposto, ar fosforescendo, uma árvore

banhada

nocturnamente. Tudo em mim trazido

súbito

para o meio. Quando este saco de sangue rodava

defronte da abertura

prodigiosa.

                                  Herberto Helder, Última Ciência, 1988, pág. 14

Herberto Helder

Posted in Poemática on 26/06/2014 by Pedro Outono

 

 

não quero deixar o sono neste piano

preferia varrer de teclas a caminhada

e evitar os bocejos no vale

 

descobri que o verão não cabe inteiro nas minhas pernas

e as dunas não chegam a ser os seios

que remexem os sentidos

nem a curva dos pássaros chega a ser a sabedoria

que vou procurando debaixo dos seixos

 

o vento lambe-me enquanto escrevo

estas linhas

lambe-me para provar que existe

para me mostrar que existo

ou que é por aquele vale que devia seguir

se ali as pautas se compõem sob os meus pés

 

 

Posted in Poemática on 09/02/2014 by Pedro Outono

 

os degraus vêem-te subir e dizem

estás cansado, pá!

os minutos assistem ao movimento

num silêncio de parafusos

que aponta o óbvio: estás cansado, pá

 

mas tu não ouves

finges-te escandalizado com esses

reparos burgueses

 

o cadeirão que te antepara

queixa-se que o cansaço pesa demais

e tu vingas-te

não o deixando espreitar os livros

 

montas uma indignação valente

e decides golpear

a esquadria do raciocínio

 

convences-te que não há cansaço

porque ninguém à tua mesa

na tua cama

repara que estás cansado

 

Declaração

Posted in Poemática on 24/08/2013 by Pedro Outono

 

 

não aceito que as nuvens nasçam no telejornal

ou que as invectivas se tornem o pão com que aniquilamos filhos

 

o mundo como iogurtes prontos a comer

com pitada de Auschwitz e Hiroxima

 

nas mãos fecho a vergonha com que apagaria as gravatas

onde se penduram homúnculos Gucci para detonar sorrisos

 

 

 

Apresentação da Tradução de Poetas Mexicanos

Posted in Notícias with tags , , , on 28/03/2013 by Pedro Outono

Um dos eventos do festival de poesia MalDito. Na Casa da Escrita, Coimbra.

575858_478788005519602_1372034622_n

Traduzindo para o MalDito

Posted in Outros with tags , on 11/03/2013 by Pedro Outono

Traduzindo malditoFotografia da Sandra Cruz

***

Román Luján. (Monclova, Coahuila, México, 1975).

Embassy

Há mais alguém. Sorri. Há outros tu sem ti. Um que se escondeu nas comissuras. Outro que está chorando tinta por dentro. Outro ainda que te observa no microscópio. Podem ser vários meses. Busca-te em porta alheia e sem boas maneiras. Disseca retratos na almofada. Escuta-te respirar. Olho que te percorre.  Corroído. Saliva de outra sede. Faz de cada esquina uma estação dolorosa. Agora o polegar direito. Um dos três por mim. Nós chamamos-te. Aparece nas crostas da pronuncia. Há um na converseta. Melhora as tuas versões. Lambe as tuas garatujas para corrigir o pulso. Documentos. Compagina os sublinhados nas tuas fotos. As datas nos teus lábios. Desenterra luares que esqueceste. Parecidos. O teu nome em vermelho escuro. Converte os segredos em brasas de papel. Sorri. As tuas chagas não coincidem. Espera que aclaremos essa mancha na tua voz. Duas palavras. Calhaus. Podem ser vários meses. Passa à fila zero. Sê a mão que imita e não repete. Agora o polegar esquerdo. Descobre sem mentir as sete diferenças. Podem ser vários meses. Um dos três por mim e por todos os meus escolhos. Há um que celebra os teus deslizes. Prova o teu lixo. Outro que te respira debaixo da água do sonho. Passa por estas linhas com devoção de oráculo. Sorri. A assinatura em vermelho escuro. Duas palavras que rimam. Enlarvam-se. Atrás de uma carícia por favor. Uma auréola de larvas sobre uma data antiga. Capaz de duplicar-te. De esperar que chegues. Não existirá passo que dês sem encontrá-lo. Nós chamamos-te. Não saberás se és tu.

***

Lorena Ventura (Oaxaca, México, 1982)

BACH MIRA LLOVER

Aquilo que me foi enchendo a partir do fundo

era a sua música.

Sei-o porque algo de mim

foi ficando entre as árvores.

Algo distinto da chuva

que não era trovão

nem rumor de pássaro

nem adejar negro da ira.

O vento era ondulação de cristais partidos

que um anjo

– apertado pela neblina

levantava.

A tarde: um tumulto de estrelas imprecisas.

Para quem o amor é um colibri adormecido entre as suas mãos.

Para os morcegos

–verborreia da noite

em cuja pele a lua ressoa.

(Os morcegos,

atados a um galho

entendem a noite ao contrário.

E quando dormem

são partidários unânimes da gravidade.

E o seu amor é cego)

Para os caracóis no seu amor paciente:

espiral de ar caindo na floresta.

Para quem sofre com a afronta de uma espada

o fruto amargo da noite.

Para a primavera,

porque antes dos seus passos tudo estava abandonado

(Esta manhã veio a colher de uma abelha

averiguar algo entre as flores)

E para tudo o que vem

que seguramente será rosado.

Aqui está o seu canto de pão e leite quente,

de cacimba e animal adormecido.

De fugitivo escondido.

Agora só resta esperar

o puro e simples chapinhar:

ruído feito de mineral de cosmos,

arena-ritmo

de girassol marinho.

E ter o cuidado de calar

a locomotiva ruidosa no nosso peito

para não despertar o nosso anjo da guarda