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Nova apresentação do livro…

Posted in Notícias with tags on 18/11/2017 by Pedro Miguel Gon

Estão todos convidados!

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Destino Coimbra

Posted in Notícias on 21/10/2017 by Pedro Miguel Gon

Leituras – Alain de Botton

Posted in Leituras with tags , on 21/10/2017 by Pedro Miguel Gon

Em 1922, os dois escritores foram convidados para um jantar formal oferecido no Ritz por Stravinsky, Diaghilev e os membros do Ballet Russo para comemorar a primeira noite do Le Renard de Stravinsky. Joyce chegou atrasado e sem smoking, Proust manteve o casaco de peles vestido durante toda a noite, e o que aconteceu quando foram apresentados foi mais tarde relatado por Joyce a um amigo:

“A nossa conversa resumiu-se à palavra “Non”. Proust perguntou-me se eu conhecia o duque de tal e tal. Eu disse: “Non”. Os nossos anfitriões perguntaram a Proust se ele lera a parte tal e tal de Ulisses. Proust respondeu: “Non”. E por aí fora.”

Depois do jantar, Proust entrou no táxi com os seus anfitriões, Violet e Sydney Schiff, e, sem pedir, Joyce entrou também. O seu primeiro gesto foi abrir a janela e o segundo acender um cigarro, duas coisas que, na opinião de Proust, constituíam um atentado à vida. Durante a viagem Joyce observou Proust sem dizer uma palavra, enquanto Proust não parou de falar sem se dirigir a Joyce. Quando chegaram ao apartamento de Proust na Rue Hamelin, Proust chamou Sydney Schiff à parte e disse: ”Peça por favor, a Monsieur Joyce que deixe o meu táxi levá-lo a casa”. O taxista assim fez. Os dois homens nunca mais voltaram a ver-se.

 

Alain de Botton, Como Proust pode mudar a sua vida (1997), Como Ser um Bom Amigo

 

 

Leituras – Michel Schneider

Posted in Leituras on 12/08/2017 by Pedro Miguel Gon

No dia 2 de Julho de 1904, no sanatório, a mulher Olga – “Meu crocodilo, minha pombinha, minha crinolina, minha doçura, meu cavalinho” – aproxima-se dele e quer pousar um saco de gelo moído sobre o seu peito. Tal teria aliviado os seus acessos de tosse. Ele afasta-lhe o braço: “ Não se põe gelo num coração oco”. Tinha sentido a chegada da morte. Atingido pela tuberculose e sem conseguir respirar, tinha escolhido ir a banhos para uma estância termal para se tratar, segundo dissera. Para morrer longe dos olhos e dos corações. Com a mesma modéstia com que sempre vivera. “Parto para acabar lá”, dissera a alguns amigos quando viajara para Berlim para consultar o professor Karl Ewald, especialista em tuberculose. Talvez tenha sido a sua antepenúltima palavra. O médico recomenda-lhe a convalescença nos banhos algures na Floresta Negra. O lugar chama-se Badenweiller. Isso ou outra coisa, é sempre Samarcanda. “Que assustador símbolo de tédio, esta estância termal alemã constitui…”, escreve no dia 26 de Junho de 1904. Sobram-lhe poucos dias de vida. Faz projectos: o lago de Como, Marselha, Odessa, Trieste, o monte Athos. Uma espécie de massagista cobre-lhe o corpo de panos húmidos. Obrigam-no a beber cacau com muita manteiga. Engole ainda um caldo de aveia, uma infusão de morango para dormir. Tendo acabado de beber, o escritor volta-se para a parede e diz: “ Ich sterbe”. Em voz baixa, mas perceptível. Em alemão: “Eu morro”. E morre. Morre em alemão.

Anton Tchekhov era um homem, não sabia o que era a vida. Era um médico, sabia um pouco o que era a morte e tinha-a demasiadas vezes apalpado com os dedos para não deixar de a pressentir. Eu morro. Para quê dizê-lo? Porquê falar? Porque se é um homem bem educado. Porquê em alemão, uma língua que ele dominava bastante mal? Porque Anton Tchekhov era polido, e nunca elevava a voz. Dizer a sua morte em russo teria um aspecto natal, estrangeiro. Teria sido uma incongruência, como empregar uma palavra rara nos seus contos ou nas suas peças. Porque o médico a seu lado era alemão e não se deve falar uma língua diante de alguém que não a percebe. Porque se morre sempre, tal como se escreve, numa língua estrangeira. Talvez fosse isso que ele pretendia dizer: a morte fala de nós numa língua estrangeira. Não a entendo, mas não duvido de que se trata de uma língua, e procuro encontrar um sentido no que ela diz acerca de mim.

No entanto, talvez haja outra explicação para esse emprego do alemão. Aquelas duas palavras formam uma frase impossível. Ou, melhor, que tende para o limite de uma contradição insuperável entre aquilo que é enunciado e quem o enuncia. Pode-se ainda dizer: “Eu morro”, mas então não se está morto, ou não completamente. Mas não se pode seguramente dizer “Eu estou morto”, salvo se formos Proust que o repetia todas as noites ao despertar e o escrevia a todos os amigos antes de que se tornasse verdade. Sentado na cama, entre o médico e a mulher, Tchekhov opta portanto por dizer a última palavra na língua estrangeira, aquela que a sua mulher não falava. E porque devemos sempre articular bem as palavras, di-lo de modo audível, um pouco forçado, como no teatro: “Ich sterbe”. Escuto a doçura das consoantes, a falta de sopro sob as vogais, o timbre neutro. Mas se Ich sterbe é a última palavra de Tchekhov, aquela que escolhemos escutar e repetir, não foi a última frase que pronunciou. Pouco depois, pede um outro médico. Este último chama-se Schworher, serve-lhe uma taça de champanhe. “Há muito tempo que não bebia champanhe”, diz Tchekhov, mesmo antes de entregar-se definitivamente à sua antiga e íntima inimiga. Não dava certamente muito valor à glória póstuma nem à pose final. Pouco lhe importava deixar uma frase de moribundo. A morte faz rabiscos. Tchekhov já não tem energia para arrependimentos. Escreveu um dia: “A arte de escrever não consiste em escrever bem, mas em rasurar aquilo que está mal escrito”.

Michel Schneider, Mortes Imaginárias (2003), Ich sterbe

Leituras – Marcel Schwob

Posted in Leituras on 08/08/2017 by Pedro Miguel Gon

Nasceu em Tebas, foi discípulo de Diógenes e conheceu também Alexandre. Seu pai, Ascondas, era rico e deixou-lhe duzentos talentos. Certo dia, em que tinha ido ver uma tragédia de Eurípedes, sentiu-se inspirado quando apareceu Télefo, pai de Mísias, vestido andrajosamente de mendigo, com um cesto na mão. Levantou-se no meio do teatro e anunciou com voz forte que distribuiria a quem quisesse os duzentos talentos da usa herança e que daí em diante lhe bastariam as vestes de Télefo. Os Tebanos puseram-se a rir e juntaram-se diante de sua casa; entretanto, ele ria mais do que eles. Lançou-lhes pela janela o seu dinheiro e os seus móveis, pegou numa capa de lona e numa sacola, e foi-se.

Chegado a Atenas, errou pelas ruas, repousando as costas nas muralhas, no meio dos excrementos. Pôs em prática tudo o que Diógenes aconselhava. A pipa parecia-lhe supérflua. Na opinião de Cráteo, o homem não era nenhum caracol, nem eremita-do-mar. Ficou todo nu no esterco e apanhou as crostas de pão, as azeitonas podres e as espinhas de peixe secas para encher a sacola. Dizia que a tal sacola era uma cidade grande e opulenta onde não havia parasitas sem cortesãs e que produzia o suficiente para o seu rei, alho, figos e pão. Assim Cráteo levava a pátria às costas e dela se alimentava.

Marcel Schwob, Vidas Imaginárias (1896), Cráteo, Cínico

 

O corrente desafio…

Posted in Leituras with tags , on 15/03/2017 by Pedro Miguel Gon

 

Conhecem o paralelo?

Leituras – Par Lagerkvist

Posted in Leituras on 14/03/2017 by Pedro Miguel Gon

Um homem de alta estatura, que o príncipe trata com extraordinária consideração, quase com respeito, acaba de chegar à corte. O príncipe disse que se sentia feliz por ter enfim a honra desta visita. Comporta-se com o seu hóspede como com um dos seus pares.

Ninguém na corte acha isto ridículo; há quem diga que o visitante é verdadeiramente um grande homem, o igual dum príncipe. Mas em lugar de ostentar um trajo principesco, anda vestido com muita simplicidade. Ainda não consegui descobrir o que tem ele de maravilhoso. Talvez venha a sabe-lo mais tarde. Diz-se que ficará por muito tempo.

Devo confessar que há nele qualquer coisa que inspira o respeito, uma dignidade mais natural que a da maioria das pessoas. A fronte é alta e o que se costuma chamar meditativa; o rosto, com a sua barba grisalha, nobre e verdadeiramente belo. Uma harmoniosa distinção emana de toda a sua pessoa, e as maneiras são duma calma soberana.

Como os outros, deve ter qualquer deformidade; pergunto a mim próprio qual seja.

O hóspede notável toma as suas refeições à mesa do príncipe. Falam dos mais diversos assuntos. Quando sirvo o meu senhor (que quer ser sempre servido por mim), verifico que o estrangeiro é um homem culto. O seu saber parece estender-se a todos os domínios possíveis, nada escapa à sua curiosidade. Tenta explicar tudo, mas ao contrário dos outros, duvida por vezes da justeza das suas próprias explicações. Depois de ter exposto longamente e minuciosamente um assunto, pode acontecer-lhe ficar silencioso e sonhador, para acabar por murmurar num ar pensativo: “Em suma, talvez não seja bem assim”.

Busco saber como deve ser considerada esta disposição de espírito. Pode-se ver nela uma espécie de sabedoria, mas também se pode concluir que ele nada sabe com precisão e que os seus elaborados raciocínios são completamente destituídos de fundamento. A minha experiência far-me-ia inclinar para a segunda hipótese. A maior parte das pessoas não se apercebe de que a impotência do espírito humano deveria inspirar uma certa modéstia. Talvez seja ele o único a compreendê-lo.

O príncipe não põe a si próprio tantas questões, e bebe as suas palavras, como se se encontrasse perante uma límpida nascente de saber e de prudência. Ao mesmo tempo que conserva a dignidade que convém a um senhor de estirpe tão elevada, está suspenso dos seus lábios, como um pobre colegial, dos lábios dum professor. Algumas vezes chama-lhe “grande mestre”. Pergunto a mim mesmo então qual pode ser a causa da sua insinuante humildade. O príncipe nada faz sem razão.

Par Lagerkvist, O Anão (1944)