O Homem dos Balões


O Catavento-Catarina andava com uma revista na mão segundo a mais recente noção de existência. Cruzou as ruas daquela cidade com a certeza que o corpo era mesmo seu, mesmo se as mamas pudessem ser maiores e as ancas menos pronunciadas. Fungou um pensamento criativo que não passava de percepção impressionada com o brilho do sol que lhe incomodava os olhos claros,

«Poça! Não me devia ter esquecido dos óculos escuros!»

Para seu azar, e nem sequer tinha consciência disso, encontrou o Martelo-Mariana, uma daquelas entidades assertivas que pensa tudo o que sabe e assenta em tudo o que sabe. O que não sabe, não importa, porque não saber é condição de necessidade de não ser importante.

Mal viu o Catavento-Catarina, foi-lhe no encalço e agarrou-o pelo braço,

«Parece impossível!», afiançava, «tu não trazes na cabeça as ideias que eu te dei e que tanto trabalho me deram inventar! Francamente!»

«Não percebo!», debitou a coitada pancada.

***

Chegaram à esplanada do café e o Martelo-Mariana bocejou incessantemente a sua assertividade sobre o pobre Catavento-Catarina que só pronunciava alegóricos sim, sim, não, talvez, não sei, talvez, como queiras.

O Catavento-Catarina viu uma oportunidade de fazer o mundo tender para o seu lado ao ver ao longe o Joaquim-Pim-Pim que caminhava meditabundo como quem alinha uma colecção de peças de dominó. Levantou-se com uma desculpa rápida (zzzzzz…) e foi ter com aquele que avistara.

«Olá!», disse ela ansiosa.

«Estás favorável ao vento?», indagou ele, por sua vez, como quem tem uma peça na mão que terá de ser arrumada com o cuidado da história e dos séculos.

«Mais ou menos…», voltou ela, e depois retomou, «Sabes alguma coisa do Homem dos Balões?»

«Hoje não sai de casa, seguramente. Está muito vento. Talvez amanhã.»

E olhou para o céu como se pudesse censurar a teimosia das nuvens.

***

O Homem dos Balões era um homem inteiro, alto, pendente como um penhasco, e passeava os seus balões pela rua. «Os pensamentos são como os balões», murmurava ele, sem pensar que fosse imaginação trazer os cordéis pela mão.

Não fazia mais de meia hora que estava na rua quando apareceu o Catavento-Catarina fazendo bailar para ele um sorriso de brisa, como um novo e bonito balão que se junta aos outros, sem que nenhum se exclua reciprocamente.

«Está um dia bonito hoje», suspirou ela, «sabia que te podia encontrar na rua».

Ele teve a sua maneira especial de sorrir, que era mostrar o quão bonitos são os balões e que, por isso, valia a pena o sacrifício de os carregar,

«Se não tens cuidado com o modo como se transportam os balões, os fios com que se prendem emaranham-se e fica tudo numa confusão. Podes mesmo deixar fugir balões sem o saberes. E ficas mais pobre, ou, talvez, arruinado», respondeu o Homem dos Balões.

Os olhos do Catavento-Mariana testemunharam a mudança de luminosidade,

«Anda, vamos para o jardim!»

«Não sei se será boa ideia», sussurrou ele, «o Joaquim-Pim-Pim questionou uma ligação nos meus cordéis e estou preocupado.»

«Mas o dia está bonito!»

«Pois estás.»

Ela sorriu e ruboresceu ligeiramente.

«Mas estou inquieto e tenho receio de fazer estoirar uma tempestade…»

E ficaram os dois a olhar o céu, à procura de possíveis nuvens.

***

Quando o Martelo-Mariana os viu de mão dada no jardim não hesitou em fazer zarpar uma cilada de vendavais. Como qualquer pessoa-nuvem-trovoada, que nunca conseguiria segurar um único balão por mais de cinco minutos, Martelo-Mariana sapateou perguntas e interjeições que nunca teriam destino a não ser o presente em vias de passado.

«Intelectualice!» exclamava cada vez que o Homem dos Balões mostrava o rigor dos nós entre os cordéis com que pacientemente atava os frágeis e delicados balões.

Para o Martelo-Mariana tudo tinha que ser reduzido ao senso comum com que amordaçava a realidade na banalidade das recordações pessoais. Nenhuma outra hipótese era viável, nenhuma outra planura era possível.

«Lá estás tu com os balões! Porque não os deixas em casa?», borrascou, tilintando relâmpagos nos dentes, o Martelo-Mariana.

«Não é possível. Tu também deixas a memória em casa?», respondeu o dono dos balões.

«Às vezes deixo os óculos em casa!», confessou o Catavento-Catarina.

***

Agarrando a ramagem de cordéis e cordões, o Homem dos Balões orientou os balões contra a ventania, sabendo que a melhor maneira de resistir seria enfrentar a realidade. E fez cara séria ao dizer,

«Estes são os meus balões. Estão perfeitamente organizados. Onde estão os teus balões?»

«Que balões! O que interessa é a mão nua e crua!», rosnou o Martelo-Mariana.

O Homem dos Balões voltou a contemplar os seus balões, tentou duas novas ligações entre cordéis e verificou que não eram compatíveis com o conjunto,

«Não é aceitável. Sem balões vales tanto quanto a rajada. Forte mas pontual, efémera e sem destino.»

«A mim ninguém me diz como é que é o que deve ser. Eu é que sei!»

O Homem dos Balões perscrutou o céu sob todos os ângulos possíveis, pensou que estava na rua errada e, depois, declarou,

«Pensando bem, vejo agora, tu agarras nuvens com essas mãos vazias.»

O Martelo-Mariana ficou furioso com a falta de conformidade de opiniões,

«Intelectualice!»

Em pouco tempo uma nuvem volumosa tornou-se nítida por cima da cabeça do Martelo-Mariana. O Homem dos Balões recuou dois passos; sempre ouvira dizer que só os audaciosos levavam os seus balões para a rua, mas agora estava verdadeiramente preocupado.

O Catavento-Catarina agarrou-lhe no braço e pediu-lhe,

«Tem calma. Só estamos a falar.»

«Não estamos não! Nós carregamos os nossos balões, quer queiramos quer não!»

E a nuvem continuava a crescer e a escurecer, já começava a relampejar, pelo que já era impossível evitar uma tempestade inútil.

***

Às vezes é preciso não sair de casa ou escolher minuciosamente as ruas para não perder os balões. As pessoas nem imaginam que são os balões que nos fazem as casas, que desenham as ruas. De certa maneira, são os balões que impõem o sol.

«Porque transportas contigo nuvens em vez de bonitos balões?», perguntou meigamente o Catavento-Catarina. O mundo tendera de vez para o seu lado e estava imune aos espirros assertivos.

«Ora, porque não.»

«Não vás por aí!», disse o Homem dos Balões calmamente quando o Martelo-Mariana se preparava para partir à bolina,

«Porquê?»

«Porque por aí encontras o vento e o vendaval. E tu és uma nuvem negra.»

«Intelectualices!», exclamou secamente, virou-lhes as costas e deslizou pela rua abaixo.

«Vais estoirar!», gritou de aviso o coitado do Catavento.

«Anda, dá-me a mão. Vamos sair daqui», disse o Homem dos Balões equilibrando os balões numa mão e o Catavento-Catarina na outra,

«Vem aí trovoada!»

Na rua onde o Martelo-Mariana desapareceu estoirou um relâmpago maldoso, o ruído borbotou em pingos, que engrossaram de aleivosia e a torrente de água espraiou-se pela cidade. A nuvem negra virou chuva e acabou por escorrer entre os pés deles para o remoinho de uma sarjeta numa rua qualquer.

Abrigados no vão de uma montra de uma loja, o Homem dos Balões fez uma pequena alteração na organização dos balões e retirou dois nagalhos, acrescentando outro noutra parte do conjunto,

«Pronto.»

Nota – Este foi o texto escolhido por Mário Cláudio e integralmente lido por ele na última sessão do Master Class de Coimbra.

 

2 Respostas to “O Homem dos Balões”

  1. Deixo aqui uma curta-metragem cujo o titulo foi baseado na leitura deste texto.

  2. Pedro Miguel Gon Says:

    Olá Diogo,

    Obrigado por ter partilhado comigo este filme. Gostei muito.
    Fico muito contente por saber que alguns dos meus textos contribuem para a inspiração de outros.
    Bravo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: