O Mundo Oco


 

 

‘Porque é que existe alguma coisa e não o nada?’ era uma daquelas questões de radical reflexão que inquietavam os mais capazes pensadores no planeta, ponta de um volumoso icebergue de problemáticas filosóficas e científicas intermináveis que se foram reformulando e recriando ao longo de uma história de dezenas de séculos.

Mas um dia tudo acabou.

Um acontecimento inimaginável ultrapassou a profundidade de todas as buscas metafísicas: a conversa parou. Isto não quer dizer que adveio o silêncio; antes pelo contrário. O problema é que a palavra deixou de ser diálogo e passou a ser projéctil. Os pensadores deixaram de comungar uns com os outros; os criadores deixaram de apresentar as suas criações; fazedores deixaram de liderar o que fazer; os divulgadores demitiram a honestidade da notícia; em suma, cada uma das pessoas deixou de escutar o que outro dizia e perdeu a fé de dizer para que outro escutasse. A conversa parara, deixara de ser um motor relacional. Cada um cuidava, tão-só, em afirmar-se. O relacionamento social reduzira-se, sem ninguém dar por isso, ao assertivar recíproco de convicções carentes de intercâmbio fresco.

Face ao esboroar do diálogo, as pessoas menos dadas a chutar com as palavras começaram a recolher-se, um pouco por toda a parte, e cada um à sua maneira, primeiro nelas próprias e no próprio silêncio, apartando-se, sem atitude misógina, de todos; e depois, porque todos os relacionamentos estavam condenados ao conflito numa época de auto-conceitos surdos, as pessoas deram um passo mais restritivo de recolhimento no ermamento. Mas como quem se queria afastar do convívio claustrofóbico não encontrava locais desabitados, sobrou-lhes apenas a alternativa de penetrar no interior do próprio planeta, cavando o refúgio em túneis compridos, onde levavam uma vida de eremitas com pouco mais que a paz de alma e a sobriedade de existirem à luz da sua própria existência.

Não passaram muitos séculos desde o início destas práticas eremitas para que também alguns dos assertivos preferissem esgrimir a inutilidade das suas convicções na sozinhitude dos túneis, o que acrescentava à própria auto-estima uma imagem de dignidade perfeitamente coerente com o impulso assertivo. Iniciando-se um movimento migratório que durou séculos, a maioria dos civilizados passou a viver em túneis herméticos construídos em pedra e betão, algo semelhante a casulos compridos, que se mantinham em constante construção – como um longo caminho na procura do sentido. No fundo as pessoas só queriam ter por onde andar sem deparar com um assertivo que lhes viesse dizer da respectiva surdez.

À custa dos anos e da construção ininterrupta, os túneis proliferaram tão intensamente que passou a ser frequente as novas escavações depararem com as paredes de betão de outros túneis já construídos. Deste modo, para continuar a progressão, os túneis passaram a contornar-se entre si, chegando a seguir colados às paredes de outros túneis ou seguir entre dois, três ou quatro paredes de túneis anteriores. Até se chegar ao ponto em que já não havia terra a separá-los. No subsolo já só havia inúmeros túneis contíguos onde as pessoas circulavam isoladas umas das outras.

Num período de tantos séculos houve ocasião para alguns fenómenos singulares. Acontecia, por vezes, duas escavações de túneis distintos encontrarem-se face a face, de modo que a boca dos dois coincidiam perfeitamente; dois escavadores solitários desembocavam inesperadamente na solidão um do outro; e quando não eram dois surdos-assertivos genuínos, acontecia brotar o singelo diálogo de antigamente, em que a reciproca curiosidade despertava a perguntabilidade que permite a amizade e o amor. Noutros casos menos felizes, um escavador deparava com uma parede de betão de um túnel mais antigo, e, por impossibilidade de recuar ou contorna-lo, decidia demolir a parede, o que conduzia a duas situações possíveis: ou ocupava o túnel invadido, ou cortava o túnel arrombado e prosseguia em frente deixando o outro túnel amputado.

Nessa tarefa civilizacional de escavar a consciência num túnel, foi necessário remover toneladas de terra. O entulho era pacientemente conduzido centenas e centenas de quilómetros para ser depositado no exterior. Inevitavelmente, os milhões de túneis expelindo toneladas de entulhos alteraram a superfície do planeta, ao ponto de ficarem soterrados os mais significativos sinais das manifestações humanas; e, ao fim do primeiro milénio, aconteceu o impensável. Sem ninguém suspeitar, já que estavam todos escondidos, aquela gigantesca movimentação de terras acabou por cobrir as próprias entradas dos túneis. E rapidamente veio a desaparecer todo o vestígio da humanidade.

 

 

 

 

 

 

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