Uma mulher a sério


 

Francisca saiu do quarto com as cuequinhas e o soutien na mão (e o telemóvel) para ir tomar banho. O aparelho vibrou e Francisca consultou-o: a Joana fazia mais uma pergunta; Francisca respondeu, sem conteúdo, só o acto (a pergunta era parva e desprovida de possibilidade de resposta). Depois resolveu acender um cigarro: foi para a varanda de trás e sentou-se num pufe vermelho a fazer publicidade da La Roche. O cigarro na mão direita e o telemóvel na mão esquerda: usando apenas o polegar ia verificando as mensagens sms e os comentários no facebook. A parva da Martina estava outra vez adoentada (fingia-se); a Rute, coitada, estava triste com a cena que o grupo lhe fizera na noite anterior; o Lourenço continuava o carroceiro do costume; e de Carlota, nenhuma pista.

Apagou a prisca e foi para dentro. Ia tomar banho. Recolheu novamente as cuequinhas e o soutien que deixara sobre o cadeirão junto à porta da varanda de trás e entrou na casa de banho. Fez um xixi com o telemóvel na mão (se tivesse alguém perto de si estaria a palrar os inúmeros fogachos de impressões que lhe afloravam em mente como fogo de artificio). O aparelho dizia-lhe que o Eduardo acordou, mais uma vez, mal disposto: este tipo está sempre insatisfeito. Aproveitou para comentar o estado da Marta, sem ser muito pessoal, pois não queria comprometer-se com nada: a Marta é uma cola.

Olhou-se ao espelho. Limpeza de pele, cuidado especial com os olhos, escovar o cabelo. O aparelho (pousado ao lado do estojo de beleza, dos frascos de perfume e dos cremes) vibrou: consultou-o. Ainda não era a Carlota. Estaria ainda a dormir? Era o João com mais um comentário estúpido que toda a gente ia fingir ser engraçado com essa maneira muito portuguesa de desviar a frontalidade num aparente acordo (Não faz mal…). O João era um parvo do mais profundo que há, mas, ao mesmo tempo, um querido; podia-se fazer dele o que se quisesse desde que não contrariado, como se faz com as crianças. Logo a seguir recebeu um sms do João: queria saber se a Francisca ia almoçar em casa ou se ia comer por fora. Que chatice, não estava com disposição para aturar o João: não respondeu. Não havia maneira da Carlota dar sinais de vida. Mandou uma mensagem à Martina comentando: o João perguntou-me se vou almoçar em casa, o que é que ele quer?

Voltou à cozinha e abriu o frigorífico: retirou um iogurte líquido probiótico. Bebeu-o enquanto olhava pela janela, tentando evitar as fachadas dos prédios, tinha uma nesga de paisagem sobre um jardim urbano (encastrado entre prédios, mal cuidado e com mobiliário urbano mal conservado).

Foi para o quarto e fez a cama num instante. Pensou: vou tomar banho. Depois escolheu a roupa com todo o critério. O aparelho vibrou: a Martina respondia: os pais do João foram a Londres por estes dias e ele deve estar sozinho, uma vez que o Lúcio foi fazer a tal viagem ao deserto. Francisca sentou-se na beira da cama e perguntou teclando muito rapidamente: o Lúcio já foi para o touareg? Finita a mensagem, pensou: safado, nem sequer se despediu para não ter que falar comigo; ele sabia bem que eu queria ter uma conversa séria. Francisca achava que os outros tinham que ter a certeza quanto aos próprios sentimentos por outrem. Sim, debitou o aparelho. Francisca ficou irritada. Pegou no aparelho e no maço de tabaco e voltou à varanda de trás. Era a varanda mais resguardada, menos vulnerável ao ruído do trânsito que passava na avenida fronteira ao prédio. Sentou-se no pufe, acendeu o cigarro e com o expedito polegar mandou outra mensagem à Carlota. Era a terceira mensagem nessa manhã. Vamos tomar café ao Ritz, ou não?

Um tipo que não conhecia de lado nenhum, mas que adicionara recentemente aos amigos do facebook, comentou o estado de espírito dela, um comentário oco, um grunhido gráfico só para se fazer notar. Francisca agradeceu calorosamente. Como se o mundo fosse brilhante.

Voltou para a casa de banho onde as cuequinhas e o soutien a aguardavam em cima do armário do lavatório. Sentou-se na sanita e experimentou fazer outro xixi, porque não queria ficar com uma bexiga preguiçosa. Escovou os dentes, olhando-se ao espelho. Ainda não estava velha, pensava ela com profundidade.

Vou tomar banho, decidiu. Abriu as portadas do chuveiro e pôs a água quente a correr. Tinha horror a água fria e preferia delapidar a energia do planeta a suportar um horror pessoal. O aparelho vibrou: um sms da Beatriz perguntava se ia tomar café ao Ritz. Francisca respondeu que pensava que sim, mas ainda não tinha a certeza, ainda não decidira, depois lhe confirmaria. Foi à sala e com o aparelho na mão foi visualizando o estado de espírito de certos amigos de facebook, ao mesmo tempo que dava uma arrumadela rápida a objectos (recentrando-os na geometria apropriada), a almofadas (concertando a sequência ideal) e a sofás e cadeiras (questões de esquadria). Em suma, deixando tudo no sítio.

Voltou à casa de banho. Uma nuvem de vapor praticamente impenetrável. Fechou a porta, despiu o roupão e consultou uma última vez o aparelho para ver se havia mensagens da Carlota. Nada. Meteu-se debaixo de água e tratou ritualmente do corpo, confirmando a regularidade das linhas mestras da silhueta, o volume das coxas, a textura do abdómen. A certa altura, Francisca escutou o som do aparelho atravessar as brumas do chuveiro anunciando a chegada de uma mensagem. Ficou nervosa, irritada e furiosa ao mesmo tempo. Terminava, invariavelmente, o duche com o seguinte pensamento: tenho que me convencer a fazer mais exercício.

Limpou-se à toalha turca de cor ocre. Enxugou a cara com cuidado (a cara era uma secção à parte, com cuidados especiais), depois o cabelo e o peito. Finalmente as mãos. Pegou no aparelho: um sms do João convidava-a a almoçar com ele no Gira. Essa mensagem podia esperar. Tratou de se cobrir com o creme reafirmante, primeiro, e depois com o creme anti-rugas; tudo produtos exclusivos da Garniettet que já tinham vendido mais de trezentos milhões de unidades. Vestiu as cuequinhas (um momento ontológico que a tornava absolutamente real), acomodou o pensinho e depois o soutien, operação mais demorada que justificava mais ponderados ajustes, pois nenhuma mulher tem os seios absolutamente simétricos em localização e volume. Vestiu as calças e a camisola que a esperavam em cima da cama.

Resolveu telefonar à Carlota. Demorou a atender. Perguntou-lhe porque ainda não respondera a nenhuma das mensagens e a Carlota respondeu, num tom de súplica, que ainda não tinha tido disposição para tal e segundo motivos subentendidos que Francisca tinha toda a obrigação de saber. O ónus estava, claro está, do lado de Francisca. Sim, vamos tomar café ao Ritz. Ficou confirmado para as 14:00.

Francisca fez mais uma visita à varanda de trás e voltou a sentar-se no pufe vermelho. Acendeu um cigarro e com o polegar esquerdo aceitou o convite de João para ir almoçar ao Gira. E depois respondeu com um Like a um comentário engraçado do Eduardo sobre qualquer trica que tinha a ver com o mundo real. Entretanto o João confirmou que a vinha buscar a casa à uma hora. Francisca deteve-se um pouco projectando o que seria almoçar com o João no McDonald’s, pegou no telemóvel que decididamente a ajudava a pensar: e o polegar convidou a Marta a vir almoçar com ela e com o João ao Gira.

Francisca voltou ao quarto. Mirou-se ao espelho. E mudou de calças. Esteve para mudar de camisolinha, mas bastou optar por outro casaquinho mais adequado ao conjunto. Finalmente encerrou o caso: estava vestida para esse dia, para bem ou para o mal, com a fé de uma aposta num casino. Um novo sms avisava que Marta ia ter com ela ao Gira para almoçar.

Resolveu consultar a segunda conta de correio electrónico e preferiu usar o lap-top que estava ligado na sala. Sentou-se no sofá e gastou 30 minutos a reenviar emails que lhe tinham sido reenviados numa cadeia gigantesca de reenvios que já havia cruzado várias vezes a rede sem centro do mundo virtual. Pensou com bonomia: como é que há gente que se permite gastar tempo a fazer estas palhaçadas inúteis e depois as faz circular na internet?

Enviou um sms à Joana a informá-la que ia almoçar com o João. Joana devolveu dizendo: que bom. Depois enviou outro sms ao João a dizer-lhe para não se atrasar, porque às 14:00 queria estar no Ritz. Por volta da uma hora, quando João já devia estar a chegar ao prédio, Francisca não conseguiu dominar o impulso de lhe enviar um sms a perguntar se sabia do Lúcio. Trinta segundos depois João respondeu: foi fazer a tão badalada viagem iniciática. Quinze segundos depois outro sms comentava, dubiamente: gostos não se discutem. Dizendo implicitamente que viajar, para ele, era ir para Paris, Londres ou Viena, isso sim. Dois minutos depois o aparelho de Francisca voltou a vibrar e exibiu a palavra: desce.

Os três jovens e os três telemóveis encontraram-se como combinado no Gira. Deram umas voltitas pelas lojas e depois foram ao McDonald’s. Apesar do cheiro a fritos até era positivo comer hambúrgueres nestas incursões rápidas ao mundo das refeições pragmáticas, onde não se parava muito tempo: a refeição terá durado vinte minutos. E depois passaram à esplanada do Gira, onde beberam o primeiro café.

Marta desviou o olhar do seu telemóvel e disse: sabem qual é a nova tara do Eduardo? Só Francisca perguntou: qual? E Marta disse: o Eduardo agora acredita que uma mulher a sério é como Neytiri a proteger o seu Jakessuly, e não essas patas a encherem-se de rímel (segundo Marta, o Eduardo já reproduzira isto dezenas de vezes essa semana).

O Eduardo é um idiota, disse João enquanto teclava no telemóvel. Como se o Eduardo olhasse para alguma garota sem rímel, pensou Francisca. Depois mandou um sms ao Eduardo a dizer: eu, o João e a Marta estamos no Gira. Mas não dava para perceber se seria um pedido de socorro.

Depois a Marta disse para a Francisca: a Beatriz acabou de me mandar um sms a perguntar se estou contigo… que lhe digo? Esqueci-me, respondeu, e revirou o olhar numa hipótese altamente trágica. Francisca enviou imediatamente um sms pedindo à Beatriz vir rapidamente ter com eles: agora quase ansiava a presença de Beatriz. Porque não tinha ela vindo mais cedo?

O outro telemóvel não tardou a chegar; devia estar nas redondezas. Antes de mais nada Marta contou-lhe da nova tara de Eduardo. Ele que vá mas é brincar com as bolas nas urtigas, disparou Beatriz. Aquela resposta devia ser para outra pessoa.

João levantou os olhos do telemóvel e comentou: se vocês tivessem uns tin-tins tão salientes e acessíveis como os nossos, tão fáceis de tocar, não gozavam com a masturbação masculina; é só inveja.

Vamos para o Ritz, perguntou a Francisca, como se o lóló do João a incomodasse. Mas não se levantou quando o aparelho lhe pediu atenção: recebera um sms da Martina a dizer que o João tinha colocado um comentário no facebook, dizendo como estava a curtir estar com três gatas na esplanada do Gira. Francisca já estava impaciente.

Vamos, acudiu a Marta, é para ir ou não é para ir?

A Carlota já lá estava, a fumar na esplanada, com um desconhecido a seu lado. Ninguém tinha o número dele. Francisca não conseguia fechar a boca. Pensava: por isso é que ela não respondia às minhas mensagens. Francisca e Carlota beijaram-se sem que esta largasse o telemóvel. Quis sentar-se ao lado dela, quis fazer-lhe todas as perguntas sem poder fazê-las diante do desconhecido; por isso ria muito, não parava calada um segundo e não dizia nada com nada. As apresentações: uma larachas comuns, quem conhece quem e o quê, donde vem, por onde andou e tal. Sentaram-se os telemóveis e por meio minuto houve a oportunidade de buscarem os olhos uns dos outros. Nesse meio minuto as raparigas estavam excitadas, todas elas com o bonito aspecto de bonecas, mas com gestos infantis ancorados em torno do cigarro e do cabelo esticado, deixando a desenxabida impressão de adolescentes fáceis. João colocou o seu aparelho topo de gama em cima da mesa onde já estava exibicionado o aparelho do desconhecido.

Logo a seguir Francisca sentiu uma impaciência no polegar e quando procurou o aparelho no bolso não o encontrou. No outro bolso também não. Ao terceiro bolso vazio sofreu um aperto na aorta. Onde está o meu telemóvel? Pegou na carteira e despejou-a em cima da mesa metálica, sempre a grasnar e sem os outros perceberem que ela procurava o telemóvel. Dizê-lo era despir-se em público. Num instante recordou-se da sensação de desespero que a tomara aquando da última privação de telemóvel (já perdera sete daqueles aparelhos) e ficara horas sem o acessório, incomunicável, isolada da sociedade, sentindo-se diferente da humanidade aceitável.

De repente calou-se. Automaticamente o olhar dos outros recaiu sobre si. O que foi, perguntou a Marta. Está-se a passar, comentou a Beatriz. Tu estás bem, riu-se a Carlota num tom ligeiramente interrogativo. Até que não resistiu mais e perguntou: alguém viu o meu telemóvel? O drama foi acolhido com impaciência, a mesma dimensão de perguntar: onde está o meu casaco. Mas Francisca sentia-se despida: era como se alguém lhe conseguisse ver, à transparência, as mamas, o púbis, o refego do abdómen. Já procuraste bem? Francisca voltou a percorrer a fundura de todos os bolsos que transportava consigo.

Vocês deviam ver a fotografia que o Eduardo acabou de colocar no Facebook, disse a Beatriz com o telemóvel à direita e o cigarro à esquerda. Já vi, disse o João. Qual, perguntou a Carlota. Aquela do verão passado, na Figueira, indicava a Marta, quando juntámos o grupo naquele restaurante da marginal… já não me lembro o nome. Francisca acabou a vistoria e ficou sem lugar para as mãos.

Não encontras, perguntou o desconhecido. Não, miou ela, sem se mexer.

Talvez o tenhas deixado no meu carro, atirou o João, e levantou-se brusco. Vou lá ver, disse, já de costas para a mesa. João dirigiu-se ao parque de estacionamento sem perder a atenção no aparelho e a andar conseguiu mandar um sms ao Eduardo e ao Lúcio informando que a Francisca tinha perdido o telemóvel outra vez. Pouco depois regressou à esplanada do Ritz com a mesma expressão indiferente com que partira. Sentou-se e fingiu estar alheado como se aquilo que encontrava no aparelho contivesse um desafio intelectual absorvente.

Então, perguntou o desconhecido, estava lá? João não lhe dispensou um olhar, mas arquitetou um sorriso dirigido a Francisca: toma lá, estava no banco do pendura. Francisca agarrou no aparelho, puxou-o contra o peito e consultou imediatamente as mensagens. Num instante recuperou para a vida; afinal o dia não estava perdido. E por um milésimo de segundo, praticamente simultâneo ao arfar que lhe restaurava a vida, viu aflorar no palco da consciência o pensamento, “sou uma mulher a sério”, logo esmagado por um esquecimento necessário à sedução. Aquele desconhecido era mesmo um querido.

 

 

 

 

 

Pedro Miguel Gon

Coimbra, Janeiro 2012

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