Filhos da Guerra ou Filhos de Sebald?


A guerra exerce um tal fascínio no homem que não se pode falar da evolução da Humanidade sem se falar da guerra. Parece que é nessa situação-limite que se testa a substância da Humanidade, que melhor se redefine a essência da Humanidade, em contraste com a barbárie, e que melhor se esclarece o significado de ser humano. Não é por acaso que passados 4 ou 5 mil anos ainda se fale da Guerra de Tróia. A mãe de todas as guerras? Pelo menos das históricas. E nós, que testemunhámos o séc. XX, remetemo-nos sempre para a Segunda Guerra Mundial, afinal a nossa Tróia. Já se passaram cerca de oitenta anos e outros tantos hão-de passar sem que se deixe de escrever, refletir e espantar com o que aconteceu, para o bem e para o mal, nessa guerra. A guerra que tudo fez mudar nos equilíbrios do mundo e que terá mudado o próprio homem: mudou, pelo menos, os olhos com que se observa o homem.

O choque de ver confirmado que não somos, afinal, tão civilizados quanto se julgava, que não somos tão nobres, tão fortes e infalíveis, tão seguros e confiáveis, ressoa por toda a sociedade e faz com que se volte constantemente, com maior ou menor sensacionalismo, ao tema da Segunda Guerra. Ninguém visita tanto o tema da Segunda Guerra quanto os americanos. Bom, esse é, para eles, o momento em que entram no fluxo da história universal. Não lhes pertencem as vicissitudes de Romanos e Bizantinos, desconhecem as intrigas medievais, não assistiram ao Renascimento, mas têm a Segunda Guerra Mundial, que venceram. Os europeus ofereceram de bandeja uma Tróia aos americanos – e agora nunca mais se calam.

Tal como a história de Tróia é a história dos que a venceram, também a história da nossa Tróia tem sido sobretudo uma história dos vencedores. Os alemães que estão no epicentro da Segunda Guerra não se manifestaram muito. Não gastaram a interpretá-la nem um milésimo da energia que gastaram a fazê-la. Mas, em termos práticos, os alemães não ficaram incapacitados de o fazer. Podiam-no ter feito. No entanto, a esmagadora maioria dos historiadores que se entregaram à análise e interpretação desse período são os americanos, ingleses, franceses, russos. Os vencedores. Por que é que os historiadores alemães se silenciaram? No campo da literatura os Aliados produziram uma plêiade de obras tendo como pano de fundo a Segunda Guerra, mas na esfera alemã essa obras são muito menos frequentes. Por que razão tantos escritores e jornalistas se abstiveram de registar o decurso e o desfecho da destruição na Alemanha?

W.G. Sebald interessou-se por esse aspecto da psique alemã e desenvolveu sobre o assunto uma reflexão pertinente que apresentou nas chamadas Lições de Zurique em 1997. Mais tarde coligiu esses textos no livro “História Natural da Destruição”, um título algo irónico e amargo, já que é tributário de expressões usadas por alguns dos que testemunharam o horror do fim da guerra na Alemanha. O livro parte da perplexidade de constatar que “a experiência de uma humilhação nacional sem precedentes sentida por milhões de pessoas nunca encontrara verdadeira expressão verbal e que os que a sofreram diretamente nem a partilharam uns com os outros nem a transmitiram aos que nasceram depois”, passando todo o povo alemão para uma nova experiência de construção, segundo palavras de Alfred Doblin, “como se nada tivesse acontecido”. W. G. Sebald deu especial atenção “ao horrível bombardeamento de cidades indefesas” levado a cabo por americanos e ingleses em múltiplas operações, a mais famosa das quais foi a Operação Gomorra, que praticamente fez desaparecer a cidade de Hamburgo. Note-se bem que estas operações tinham como alvo explícito as populações civis das cidades, afinal uma ação eticamente indefensável quanto tantas outras atribuídas aos nazis. Os enormes bombardeiros aliados, os Lancaster e os B-17, largaram nos céus da Alemanha toneladas de bombas. Não foi só Berlim a ficar destruída, foram 131 cidades alemães reduzidas a escombros, erradicando a vida urbana e condenando milhões a condições de sobrevivência, atirados de chofre para o “estádio de evolução dos recolectores nómadas”. A quantas pessoas não terá faltado o “legítimo desejo de viver”?

É em especial no texto “Guerra Aérea e Literatura” que Sebald analisa esses momentos finais de sistemática destruição das cidades alemãs. É quase inimaginável que não tenham ficado cicatrizes psíquicas no povo alemão. Onde é que na literatura alemã ficou plasmado o horror e a dor do povo alemão? Aqui está a perplexidade de Sebald: não ficou. “A capacidade que as pessoas têm para esquecer o que não querem saber, para não ver o que têm diante dos olhos”, escreve Sebald, “raras vezes foi tão posta à prova como nesses tempos da Alemanha”. Deveria haver uma “literatura das ruínas”, mas, a aceitá-la, é muito incipiente, as poucas obras sobre o assunto apareceram em editoras marginais e fora de coleções consentâneas. Os alemães nem sequer protestaram contra a agressão bárbara feita contra populações indefesas. Calaram-se. Assim, “este mutismo, esta maneira reservada e alheada constitui o motivo por que sabemos tão pouco do que os alemães pensaram e viram entre 1942 e 1947”. Além disso, “esta falta de relatos contemporâneos não encontrou compensação depois de 1947”. Então o que faziam os escritores alemães nesse período mais trágico da história mundial em que o povo alemão tinha um protagonismo destacado?

Mesmo contando com os escritos de jornalistas e repórteres estrangeiros que percorreram a Alemanha devastada, Sebald considera que muito pouco se escreveu sobre aquele período. Só uns poucos autores tentaram traduzir o horror que se vivia nas cidades destroçadas: cidades sem ruas, sem casas ou prédios, sem transportes, sem canalização, sem esgotos, sem serviços médicos, polícias ou justiça. Só ruínas e entulho. E cadáveres. Muitos cadáveres e muitos ratos gordos, gordos, nuvens de moscas gordas, gordas, e um ar sufocante de tão fétido. Por terem gerado obras tão genuínas, tornaram-se impossíveis de ler de tão amargas, cruéis, repulsivas, onde os pormenores do macabro ainda hoje indispõem os mais robustos leitores. Os alemães estavam emersos nessa vida repulsiva e não sentiam o mínimo gosto em ler sobre essas mesmas situações degradantes que as obras retratavam. Ninguém as procurou ler e os seus autores acabaram “afastados da memória cultural”. Os leitores alemães precisavam do oposto, precisavam de esquecer que estavam reduzidos a uma vida miserável. A melhor dessas obras terá sido “O Anjo Silenciado”, de Heinrich Boll, uma obra escrita nos anos 40 que se revelou tão dura que só veio a ser publicada em 1992 e ainda hoje dizem que é difícil de ler. Ironicamente, as obras que mais relatam a “destruição das cidades e a sobrevivência num país em ruínas” não são contemporâneas da destruição e têm um carácter documental, como é o trabalho de Hubert Fichte e de Alexander Kluge. Neste reduzido lote de autores que lutaram explicitamente contra o esquecimento e pela memória da catástrofe, Sebald incluiu Jean Améry e Peter Weiss, autores de língua alemã mas de origem judia, que tiveram a surpresa extra, durante a guerra, de se verem espoliados pelos próprios concidadãos. Assim, estes textos, apesar de claros e factuais, estudam sobretudo o horror do genocídio e não tanto o caos das cidades alemãs e o dia-a-dia dos alemães.

W.G.Sebald considera que outros autores alemães escreveram sobre a guerra sem a chegarem a retratar. O contexto dessas obras era o da Segunda Guerra, mas tratando a guerra como uma ilustração estereotipada, em pano de fundo, para outros dramas mais importantes. Retratam uma realidade parcial, quase de costas para a ruínas, como se a destruição fosse um pretexto para outra coisa muito mais nobre. Lá está: muito mais nobre… As ruínas não eram ruínas, mas um cenário de algo muito mais importante… Autores contemporâneos da derrocada alemã como Hermann Kasack, Hans Erich Nossack, Peter de Mendelssohn e até, mais tarde, Arno Schmidt, criaram obras que, pese embora alguns instantes de atenção factual, perdem-se em “exagero filosófico”, “falsa transcendência”, “tendência para o melodramático”, mantendo uma estética anterior ao colapso. Os alemães nunca são apresentados como vítimas, mas como heróis que persistem em lutar contra todas as adversidades, mesmo quando toda a sociedade implode e desagua no absurdo. Nem mesmo Thomas Mann, com o seu “Doutor Fausto”, fez uma transposição literária da destruição das cidades alemãs, pois a obra consiste num debate filosófico que discute a relação entre ética e estética, ou seja, desvia-se da realidade factual que então se vivia.

Pode-se ainda apontar um terceiro tipo de escritor e de escritos sobre a Segunda Guerra e o colapso dos alemães. Alguns autores criaram obras que consistiram num exercício consciente de reconstrução da realidade, saldando assim as contas com o passado, muitas vezes por razões pessoais. São obras onde a ficção se coloca ao serviço da falsificação da história, uma via que atenua a sensação de tergiversação da realidade. O mais ousado dos autores que utilizou este processo foi Alfred Andersch, alguém que tinha fortes razões para pretender camuflar as relações antes da guerra que tornariam evidente o seu passado nazi, não hesitando, para isso, manipular factos. Alfred Andersch apresentou-se ao público como um “emigrante interno” (para se distinguir de Thomas Mann, que abandonara a Alemanha nazi em 1933) e como membro da “resistência passiva” ao regime nazi. No entanto, não conseguiu esconder totalmente a “linguagem fascista” nos seus textos e consultando a produção literária contemporânea da guerra veio a verificar-se como estava em linha com o regime.

Tudo somado, fica sempre a noção que os alemães ainda não tiveram o seu momento para mergulhar de cabeça na ferida psíquica mais profunda do último século e que isso talvez seja determinante para o que possa vir a ser a construção futura da Europa.

Surge esta reflexão porquê? Porque tive a oportunidade de acompanhar há pouco uma série televisiva realizada por alemães e que retrata o contexto da Segunda Guerra na Alemanha. Finalmente os alemães a contar por si mesmos aquilo que andaram sempre a evitar. A série produzida pela ZDF recebeu em Portugal o título “Os Filhos da Guerra”, mas o título original tem um sentido muito mais sugestivo que o título português não conseguiu traduzir. O original é Unsere Mutter, Unsere Vater, ou seja, “As nossas mães, os nossos pais” o que é mais significativo neste contexto de revisitar o passado trágico por parte dos alemães. Esta série é uma das poucas séries sobre a Segunda Guerra em que o foco narrativo não é o americano (leia-se: os Aliados), mas sim o alemão. Nesta narrativa os alemães não são os outros; desta vez os alemães somos nós. O normal é converter os alemães num personagem coletivo que desempenha o irremediável papel da encarnação do MAL. Um personagem abstrato, o papel fácil de Lobo Mau, que convém a qualquer argumentista que escreve em função da tradição de elogio das forças vencedoras. Mas, escusado seria dizer, um personagem destes é muito pobre e nada representativo de uma realidade histórica. Tem que se reconhecer nos alemães a mesma densidade humana que se reconhece nos outros povos e, por isso, a variedade e a diversidade que implicam contradições e tensões dentro dos grupos sociais.

W.G. Sebald considera que os alemães da segunda metade do séc. XX são “um povo nitidamente cego para a história”, em virtude dos anos de recalcamento em que se reergueu o estado alemão que hoje domina a Europa – e que o mundo toma por superpotência tímida. São cegos para a história porque cresceram virados para o futuro, deixando de lado a história recente. Talvez a produção desta série queira significar um despertar de consciência entre os alemães para a necessidade de processar o obsesso mnésico que ficou recalcado. Em todo o caso, esta fuga à história teve uma virtude, pois Enzensberger considera que a inconsciência dos alemães foi “a condição do seu sucesso” na reconstrução do novo estado.

Os alemães estarão com vontade de olhar o passado? E o que poderão vislumbrar desse passado se aquilo que se passou ficou registado pelo olhar dos vencedores? Não será legitimo querer ver, mesmo, pelos próprios olhos? Parece sintomático que a exibição da série tenha sido motivo de amplo debate na Alemanha e que a exibição de cada episódio tenha registado altos níveis de audiência.

Aparentemente à data em que a série estreou na Alemanha, em 2013, as reações foram as mais diversas. Consta que as reações na Polónia e na Rússia foram as piores, onde os media acusaram os produtores da ZDF de estarem a disfarçar a história. Parece que não gostaram de ver desvirtuado o consagrado personagem-fantoche tradicionalmente entregue aos alemães como bastonários de todo o Mal que os bonzinhos conseguiram derrotar. Nenhum dos intervenientes quer abandonar o papel tradicional. Mas atrevo-me a sugerir que se Sebald estivesse vivo, na altura em que a série se exibiu, teria comentado: finalmente os alemães assumem que também foram vítimas da guerra. E neste sentido, os argumentistas e produtores da série alemã que agora mergulham na história são, afinal, os “filhos de Sebald”. E não os filhos da guerra.

Epílogo. Não se acredite que a guerra é um fenómeno arrumado no passado. Quem viveu a destruição e depois a reconstrução pode ficar com a impressão que estes longos 80 anos de paz na Europa, sempre numa evolução positiva de crescimento da prosperidade social e económica (pese embora pontuais vicissitudes), são irreversíveis. Se cairmos na inocência de acreditar que o desenvolvimento da sociedade é um continuum crescente que há-de levar a sociedade a contextos cada vez melhores, pomos de lado a possibilidade de retrocesso civilizacional. O período da Segunda Guerra foi tão mau que muitos acreditam que a Europa jamais se deixará voltar a cair numa situação catastrófica como aquela, pois os cidadãos e os líderes não teriam desculpa para a inconsciência que outros tiveram. Mas o tempo passa, as gerações mudam, e agora são adultos certos indivíduos que perderam a sintonia com o significado existencial da Segunda Guerra. Só a conseguem compreender como um acontecimento em si, sem nexos, sem causas e efeitos nas múltiplas dimensões humanas, e, por isso, isolado das suas vidas particulares. Talvez a evolução das sociedades humanas não seja um continuum estável, mas uma sequência repetida de ciclos, onde as sociedades passam sempre pelo mesmo, ora construção, ora destruição, de modo que a catástrofe pode vir a repetir-se. Se calhar é de esperar a perda dos valores democráticos e consequente crescendo do autoritarismo, a degradação dos processos democráticos em favor de processo autocráticos, o desprestigio dos homens íntegros perante os homens-show populistas, a diminuição do pacifismo e emergência do belicismo, a perda da coesão para a emergência dos nacionalismos, a perda de respeito pela dignidade humana e pelo valor do trabalho, até nos acharmos todos num beco sem saída onde abundam valores de todo o género que ninguém quer abdicar. Soa familiar?

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