Archive for the Literaturância Category

O Clique

Posted in Literaturância with tags on 02/08/2011 by Pedro Miguel Gon

Há uma clareira no topo da montanha onde um indivíduo aparece periodicamente. Ele só vem quando a montanha se encontra na mais íntima deserção. O automóvel corta o silêncio dos bosques com um ronco esforçado; e quando chega, abandona o carro e senta-se, adiante, numa pedra que parece uma ponta de iceberg de tanto estar enterrada no húmus.

Deixa-se ficar durante muito tempo, por vezes até amanhecer. Normalmente quieto. Só os olhos perseguem os súbitos sons quebrados que sussurram. E depois de um tanto tempo a esvaziar-se, faz o jogo. Por vezes chega, senta-se e começa imediatamente o jogo. Houve, aliás, uma ocasião em que o indivíduo nem se chegou a sentar, tal era a ânsia de fazer a aposta; e partiu de seguida com o resultado encravado na consciência.

Desta vez o indivíduo vinha a arrastar-se. Demorou uma eternidade a sair do carro. Fumou um cigarro como o derradeiro. E foi com uma espécie de remorso que se sentou na rocha. Despiu o casaco e depositou-o com falso desdém sobre as ervas em redor. Depois levantou-se, arregaçou as mangas da camisa, uma por uma, com cuidado, e começou a caminhar para trás e para a frente, diante da rocha, sem ponta de tarefa. E enquanto as pernas burilavam a ansiedade, pequenos gestos amparavam o indivíduo: as mãos esfregando o pescoço como quem quer arrancar uma sensação diferente; as mãos percorrendo o rosto como que a limpá-lo; as mãos espremendo a nuca. O queixo ossudo, a barba cultivada, o cabelo vândalo e pendente como ramos numa falésia.

Finalmente o vento veio. Já tardava. Meteu as mãos nos bolsos, fechou os olhos e parou a caminhada. Sentiu o cabelo agitar-se. E ficou estante alguns minutos, ali, ao efeito do vento, como estátua que se esculpe. E depois de escalar a alma, reencontrou o corpo e pôde mover-se outra vez com decisão.

Estava no casaco. Pegar nele não era agora uma circunstância mas um projecto. Mas no acto notou que algumas folhas secas se haviam agarrado ao casaco e esse detalhe foi suficiente para o desviar do projecto. Surgiu fácil um gesto comum nos indivíduos sedentários: com a dorsal da mão direita sacudiu as frentes do casaco até soltar as poucas partículas secas; e a mão repetiu aquele gesto de esmero sem parcimónia, ficando o gesto por várias vezes quando o casaco já estava austeramente limpo. Só depois voltou ao futuro. Aquele pequeno lampejo de esmero foi o seu último comportamento conservador. Havia sido um gesto semelhante a tantos outros, daqueles que normalmente são atributo de um indivíduo culto e organizado; logo a seguir, deixou tombar nas ervas a consciência para começar o jogo.

A mão no bolso exterior do lado direito. Um objecto metálico. E frio. Encheu a mão nesse objecto e puxou-o para fora; em duas arestas do tambor cintilou a luz da lua. As mãos neutras faziam os gestos desenhados por uma eficácia falsa, abriram-lhe o percutor, o tambor saltou para o lado e fizeram-no rodar. Depois, uma das mãos introduziu um projéctil numa das sete câmaras do tambor com uma rapidez demasiado rápida. Rodou-o de novo e fechou-o. Aliás, rodou-o várias vezes.

As mãos, que foram gémeas desde a nascença, abandonaram-se como parentes muito afastados e esquecidos. A da esquerda esgueirou-se para o bolso das calças, como quem vai dormir zangado. A outra ficou sujeita ao revólver. O metal frio colado à pele, a exalar uma vibração próxima da excitação. Hesitava.

O indivíduo pensou em fumar outro cigarro. Para voltar a ter aquele concreto entre os dedos e poder adiar tudo pelo tempo de dez centímetros de tabaco incendiado. Mas, afinal, a qualquer momento teria de expor-se à decisão. E a sua situação já era irreversível. Era assim, com a carne, com o sangue que decidia. Sempre que chegava a uma encruzilhada vital vinha ali apostar uma decisão, medindo as suas possibilidades de sucesso pelo resultado da aposta. Ele fazia do revólver o acerto da escolha. Os miolos mediam-se com a arma até ao momento do disparo e só no último instante a arma se afastava para disparar para o ar.

Uma única bala no revólver poderia ditar o sentido da sua sorte. A roleta da decisão: se a arma disparasse isso significava não avançar na tal situação em escrutínio; se não disparasse significava que poderia avançar. A escolha tornara-se, assim, uma tarefa metafísica. Não era por um cálculo racional incertamente humano que conseguia ler o arbítrio: entregava-se a desígnios muito superiores – mas em vez de se entregar ao universal, entregava-se à singularidade de uma bala.

Desta vez, porém, o disparo não é para o ar. É para o parietal direito. Encostou o cano do revólver por cima da orelha e esperou, inspirou, a mão vacilou, estava a conter a respiração, não que o pretendesse fazer, tudo em silêncio, aquele que torna os segundos mais longos que horas. Ouviu um clique, estremeceu, e ficou no soslaio da alma.

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O Homem dos Balões

Posted in Literaturância on 26/06/2011 by Pedro Miguel Gon

O Catavento-Catarina andava com uma revista na mão segundo a mais recente noção de existência. Cruzou as ruas daquela cidade com a certeza que o corpo era mesmo seu, mesmo se as mamas pudessem ser maiores e as ancas menos pronunciadas. Fungou um pensamento criativo que não passava de percepção impressionada com o brilho do sol que lhe incomodava os olhos claros,

«Poça! Não me devia ter esquecido dos óculos escuros!»

Para seu azar, e nem sequer tinha consciência disso, encontrou o Martelo-Mariana, uma daquelas entidades assertivas que pensa tudo o que sabe e assenta em tudo o que sabe. O que não sabe, não importa, porque não saber é condição de necessidade de não ser importante.

Mal viu o Catavento-Catarina, foi-lhe no encalço e agarrou-o pelo braço,

«Parece impossível!», afiançava, «tu não trazes na cabeça as ideias que eu te dei e que tanto trabalho me deram inventar! Francamente!»

«Não percebo!», debitou a coitada pancada.

***

Chegaram à esplanada do café e o Martelo-Mariana bocejou incessantemente a sua assertividade sobre o pobre Catavento-Catarina que só pronunciava alegóricos sim, sim, não, talvez, não sei, talvez, como queiras.

O Catavento-Catarina viu uma oportunidade de fazer o mundo tender para o seu lado ao ver ao longe o Joaquim-Pim-Pim que caminhava meditabundo como quem alinha uma colecção de peças de dominó. Levantou-se com uma desculpa rápida (zzzzzz…) e foi ter com aquele que avistara.

«Olá!», disse ela ansiosa.

«Estás favorável ao vento?», indagou ele, por sua vez, como quem tem uma peça na mão que terá de ser arrumada com o cuidado da história e dos séculos.

«Mais ou menos…», voltou ela, e depois retomou, «Sabes alguma coisa do Homem dos Balões?»

«Hoje não sai de casa, seguramente. Está muito vento. Talvez amanhã.»

E olhou para o céu como se pudesse censurar a teimosia das nuvens.

***

O Homem dos Balões era um homem inteiro, alto, pendente como um penhasco, e passeava os seus balões pela rua. «Os pensamentos são como os balões», murmurava ele, sem pensar que fosse imaginação trazer os cordéis pela mão.

Não fazia mais de meia hora que estava na rua quando apareceu o Catavento-Catarina fazendo bailar para ele um sorriso de brisa, como um novo e bonito balão que se junta aos outros, sem que nenhum se exclua reciprocamente.

«Está um dia bonito hoje», suspirou ela, «sabia que te podia encontrar na rua».

Ele teve a sua maneira especial de sorrir, que era mostrar o quão bonitos são os balões e que, por isso, valia a pena o sacrifício de os carregar,

«Se não tens cuidado com o modo como se transportam os balões, os fios com que se prendem emaranham-se e fica tudo numa confusão. Podes mesmo deixar fugir balões sem o saberes. E ficas mais pobre, ou, talvez, arruinado», respondeu o Homem dos Balões.

Os olhos do Catavento-Mariana testemunharam a mudança de luminosidade,

«Anda, vamos para o jardim!»

«Não sei se será boa ideia», sussurrou ele, «o Joaquim-Pim-Pim questionou uma ligação nos meus cordéis e estou preocupado.»

«Mas o dia está bonito!»

«Pois estás.»

Ela sorriu e ruboresceu ligeiramente.

«Mas estou inquieto e tenho receio de fazer estoirar uma tempestade…»

E ficaram os dois a olhar o céu, à procura de possíveis nuvens.

***

Quando o Martelo-Mariana os viu de mão dada no jardim não hesitou em fazer zarpar uma cilada de vendavais. Como qualquer pessoa-nuvem-trovoada, que nunca conseguiria segurar um único balão por mais de cinco minutos, Martelo-Mariana sapateou perguntas e interjeições que nunca teriam destino a não ser o presente em vias de passado.

«Intelectualice!» exclamava cada vez que o Homem dos Balões mostrava o rigor dos nós entre os cordéis com que pacientemente atava os frágeis e delicados balões.

Para o Martelo-Mariana tudo tinha que ser reduzido ao senso comum com que amordaçava a realidade na banalidade das recordações pessoais. Nenhuma outra hipótese era viável, nenhuma outra planura era possível.

«Lá estás tu com os balões! Porque não os deixas em casa?», borrascou, tilintando relâmpagos nos dentes, o Martelo-Mariana.

«Não é possível. Tu também deixas a memória em casa?», respondeu o dono dos balões.

«Às vezes deixo os óculos em casa!», confessou o Catavento-Catarina.

***

Agarrando a ramagem de cordéis e cordões, o Homem dos Balões orientou os balões contra a ventania, sabendo que a melhor maneira de resistir seria enfrentar a realidade. E fez cara séria ao dizer,

«Estes são os meus balões. Estão perfeitamente organizados. Onde estão os teus balões?»

«Que balões! O que interessa é a mão nua e crua!», rosnou o Martelo-Mariana.

O Homem dos Balões voltou a contemplar os seus balões, tentou duas novas ligações entre cordéis e verificou que não eram compatíveis com o conjunto,

«Não é aceitável. Sem balões vales tanto quanto a rajada. Forte mas pontual, efémera e sem destino.»

«A mim ninguém me diz como é que é o que deve ser. Eu é que sei!»

O Homem dos Balões perscrutou o céu sob todos os ângulos possíveis, pensou que estava na rua errada e, depois, declarou,

«Pensando bem, vejo agora, tu agarras nuvens com essas mãos vazias.»

O Martelo-Mariana ficou furioso com a falta de conformidade de opiniões,

«Intelectualice!»

Em pouco tempo uma nuvem volumosa tornou-se nítida por cima da cabeça do Martelo-Mariana. O Homem dos Balões recuou dois passos; sempre ouvira dizer que só os audaciosos levavam os seus balões para a rua, mas agora estava verdadeiramente preocupado.

O Catavento-Catarina agarrou-lhe no braço e pediu-lhe,

«Tem calma. Só estamos a falar.»

«Não estamos não! Nós carregamos os nossos balões, quer queiramos quer não!»

E a nuvem continuava a crescer e a escurecer, já começava a relampejar, pelo que já era impossível evitar uma tempestade inútil.

***

Às vezes é preciso não sair de casa ou escolher minuciosamente as ruas para não perder os balões. As pessoas nem imaginam que são os balões que nos fazem as casas, que desenham as ruas. De certa maneira, são os balões que impõem o sol.

«Porque transportas contigo nuvens em vez de bonitos balões?», perguntou meigamente o Catavento-Catarina. O mundo tendera de vez para o seu lado e estava imune aos espirros assertivos.

«Ora, porque não.»

«Não vás por aí!», disse o Homem dos Balões calmamente quando o Martelo-Mariana se preparava para partir à bolina,

«Porquê?»

«Porque por aí encontras o vento e o vendaval. E tu és uma nuvem negra.»

«Intelectualices!», exclamou secamente, virou-lhes as costas e deslizou pela rua abaixo.

«Vais estoirar!», gritou de aviso o coitado do Catavento.

«Anda, dá-me a mão. Vamos sair daqui», disse o Homem dos Balões equilibrando os balões numa mão e o Catavento-Catarina na outra,

«Vem aí trovoada!»

Na rua onde o Martelo-Mariana desapareceu estoirou um relâmpago maldoso, o ruído borbotou em pingos, que engrossaram de aleivosia e a torrente de água espraiou-se pela cidade. A nuvem negra virou chuva e acabou por escorrer entre os pés deles para o remoinho de uma sarjeta numa rua qualquer.

Abrigados no vão de uma montra de uma loja, o Homem dos Balões fez uma pequena alteração na organização dos balões e retirou dois nagalhos, acrescentando outro noutra parte do conjunto,

«Pronto.»

Nota – Este foi o texto escolhido por Mário Cláudio e integralmente lido por ele na última sessão do Master Class de Coimbra.

 

Ilha Móvel

Posted in Literaturância on 10/12/2010 by Pedro Miguel Gon

DESILUSÃO

Posted in Literaturância on 31/10/2009 by Pedro Miguel Gon

 

Podem não acreditar mas foi na rua que o meu estômago caiu no chão. Fez aquele som sumido que se ouve num garrafão de cinco litros de água do Luso quando tomba de lado com mais violência. E não me doeu; pelo menos não imediatamente; se não me engano só me doeu duas horas depois, quando um indivíduo apressado e desatento, que seguia ziguezagueando entre os transeuntes ordeiros, me pontapeou inadvertidamente o estômago e este rodopiou no pavimento cimentado como um saco cheio de lixo. Sim, foi nessa altura que me curvei sobre o abdómen ao sentir a guinada violenta a arrancar o resto de vida das minhas entranhas.

A consequência maior foi paralisar-me. Como havia de me deslocar com o estômago de rojo? E aquelas vísceras soltas, como elásticos esticados, davam-me um ar deselegante.

Uma sensação de avaria técnica invadiu-me e trouxe-me ao espírito um episódio do meu tempo de faculdade. Um amigo meu tinha a sorte de ser proprietário de uma velha Dyane branca, tão podre quanto vetusta, mas claramente «apetrechada de asas», bastando abastecê-la com mil escudos de gasolina de tempos a tempos. Um dia o pai desse meu amigo veio vê-lo a Coimbra e resolveu presentear o filho atestando-lhe o depósito do carro. Mas o velho corcel não estava habituado a tanta generosidade de combustível e, quando o depósito ficou cheio, os velhos pontos de fixação do depósito, não habituados àquele peso, cederam e este tombou inteiro no chão gerando uma teoria de sucata que as nossas experiências aladas tinham vindo a contrariar.

Mas ninguém lhe deu pontapés. 

Acho que fiquei horas parado com o estômago no chão, agarrado a mim por todo o tipo de vísceras viscosas e elásticas. Minto. Fiquei dias ali parado. Minto outra vez. Fiquei semanas naquele passeio indiferente. As pessoas passavam por mim e apenas se desviavam. Um advogado espreitou aquela circunstância e sugeriu uma troca de honorários por liberdade; um psicólogo aplicou-me testes psicométricos sem olhar o meu estômago. É verdade que ninguém me voltou a acertar a pontapé. Mas também ninguém me ofereceu de beber ou de comer.

Acho que sabem que um estômago daqueles não volta a dar fome.

 

 

 

O Mundo Oco

Posted in Literaturância on 14/03/2009 by Pedro Miguel Gon

 

 

‘Porque é que existe alguma coisa e não o nada?’ era uma daquelas questões de radical reflexão que inquietavam os mais capazes pensadores no planeta, ponta de um volumoso icebergue de problemáticas filosóficas e científicas intermináveis que se foram reformulando e recriando ao longo de uma história de dezenas de séculos.

Mas um dia tudo acabou.

Um acontecimento inimaginável ultrapassou a profundidade de todas as buscas metafísicas: a conversa parou. Isto não quer dizer que adveio o silêncio; antes pelo contrário. O problema é que a palavra deixou de ser diálogo e passou a ser projéctil. Os pensadores deixaram de comungar uns com os outros; os criadores deixaram de apresentar as suas criações; fazedores deixaram de liderar o que fazer; os divulgadores demitiram a honestidade da notícia; em suma, cada uma das pessoas deixou de escutar o que outro dizia e perdeu a fé de dizer para que outro escutasse. A conversa parara, deixara de ser um motor relacional. Cada um cuidava, tão-só, em afirmar-se. O relacionamento social reduzira-se, sem ninguém dar por isso, ao assertivar recíproco de convicções carentes de intercâmbio fresco.

Face ao esboroar do diálogo, as pessoas menos dadas a chutar com as palavras começaram a recolher-se, um pouco por toda a parte, e cada um à sua maneira, primeiro nelas próprias e no próprio silêncio, apartando-se, sem atitude misógina, de todos; e depois, porque todos os relacionamentos estavam condenados ao conflito numa época de auto-conceitos surdos, as pessoas deram um passo mais restritivo de recolhimento no ermamento. Mas como quem se queria afastar do convívio claustrofóbico não encontrava locais desabitados, sobrou-lhes apenas a alternativa de penetrar no interior do próprio planeta, cavando o refúgio em túneis compridos, onde levavam uma vida de eremitas com pouco mais que a paz de alma e a sobriedade de existirem à luz da sua própria existência.

Não passaram muitos séculos desde o início destas práticas eremitas para que também alguns dos assertivos preferissem esgrimir a inutilidade das suas convicções na sozinhitude dos túneis, o que acrescentava à própria auto-estima uma imagem de dignidade perfeitamente coerente com o impulso assertivo. Iniciando-se um movimento migratório que durou séculos, a maioria dos civilizados passou a viver em túneis herméticos construídos em pedra e betão, algo semelhante a casulos compridos, que se mantinham em constante construção – como um longo caminho na procura do sentido. No fundo as pessoas só queriam ter por onde andar sem deparar com um assertivo que lhes viesse dizer da respectiva surdez.

À custa dos anos e da construção ininterrupta, os túneis proliferaram tão intensamente que passou a ser frequente as novas escavações depararem com as paredes de betão de outros túneis já construídos. Deste modo, para continuar a progressão, os túneis passaram a contornar-se entre si, chegando a seguir colados às paredes de outros túneis ou seguir entre dois, três ou quatro paredes de túneis anteriores. Até se chegar ao ponto em que já não havia terra a separá-los. No subsolo já só havia inúmeros túneis contíguos onde as pessoas circulavam isoladas umas das outras.

Num período de tantos séculos houve ocasião para alguns fenómenos singulares. Acontecia, por vezes, duas escavações de túneis distintos encontrarem-se face a face, de modo que a boca dos dois coincidiam perfeitamente; dois escavadores solitários desembocavam inesperadamente na solidão um do outro; e quando não eram dois surdos-assertivos genuínos, acontecia brotar o singelo diálogo de antigamente, em que a reciproca curiosidade despertava a perguntabilidade que permite a amizade e o amor. Noutros casos menos felizes, um escavador deparava com uma parede de betão de um túnel mais antigo, e, por impossibilidade de recuar ou contorna-lo, decidia demolir a parede, o que conduzia a duas situações possíveis: ou ocupava o túnel invadido, ou cortava o túnel arrombado e prosseguia em frente deixando o outro túnel amputado.

Nessa tarefa civilizacional de escavar a consciência num túnel, foi necessário remover toneladas de terra. O entulho era pacientemente conduzido centenas e centenas de quilómetros para ser depositado no exterior. Inevitavelmente, os milhões de túneis expelindo toneladas de entulhos alteraram a superfície do planeta, ao ponto de ficarem soterrados os mais significativos sinais das manifestações humanas; e, ao fim do primeiro milénio, aconteceu o impensável. Sem ninguém suspeitar, já que estavam todos escondidos, aquela gigantesca movimentação de terras acabou por cobrir as próprias entradas dos túneis. E rapidamente veio a desaparecer todo o vestígio da humanidade.

 

 

 

 

 

 

Pormenor

Posted in Literaturância on 23/10/2008 by Pedro Miguel Gon

 

 

Embora estivesse massacrado, o cérebro ainda levava muitas rotações que não o deixavam adormecer, por isso voltou a levantar-se debilmente para dar um derradeiro gole de whisky. Evitou o copo, porque da garrafa poderia retirar tudo o que quisesse. No fim do fôlego, o whisky a escorrer na goela queima, e na consciência fica só a sensação que, lá atrás, irrompem estalidos pirotécnicos e repetidos clarões de explosão, alucinantes, beras, alienígenas. Depois desaguam dois ou três pensamentos tímidos, encavalitados uns nos outros, como palhaços trapalhões sem graça.

Mas há sempre uma réstia de espírito que não se consegue discernir: mero estatismo de imagens eléctricas? Talvez a raiz primeira do pensamento não seja a imagem vocabular mas a imagem desfocada de olhos passados. É como o restolho. Parece que não é importante e ninguém lhe liga, mas a partir disso, provavelmente, outras coisas podem ser geradas. Talvez seja esse o elemento fundante e gerador da recerebração da humanidade.

Por mais que quisesse teorizar as grandes verdades, universalizá-las e torná-las absolutas, tais verdades não poderiam deixar de ser pormenor. No homem, naqueles que pensam filosoficamente, dá-se um salto místico do nada para a universalidade, e na nossa pequenez isso parece certo, misticamente certo, mas ficamos corados ao explicá-lo. E, no entanto, se uma vida é apenas uma vida, é pormenor de quem a vive, então, a universalidade é um dos seus pormenores. Porque tudo aquilo que se diz ser universal é o pequenitates homem que o diz.