O Blog do Tlönista

Leituras – H. G. Cancela

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“é a minha barriga, não é?”

ignorei a pergunta. deixei-me ali ficar, sentado sobre a cama, a olhar para o tapete. permaneci calado.

“é a minha barriga, achas que não sirvo. olha para mim.”

afastou a roupa da cama, levantou a camisa de noite e descobriu as coxas. empurrou os cobertores com os pés, escorregou sobre os lençóis e abriu as pernas. sentia-me paralisado. as cuecas detinham-se no limite do ventre, deixando entrever os pelos púbicos, e a pele dilatada. abriu mais as pernas,

“achas que não sirvo.”

não deixava de ser absurdo que as suas suspeitas esquecessem a única coisa, simples e miserável que me poderia justificar. precisamente aquilo que eu não poderia admitir. era, apesar de tudo, preferível manter o ciúme e a suspeita.

“nem para isso sirvo.”

levantou-se de um salto e agarrou-se a mim. não me mexi, deixei que me apertasse a cabeça entre as mãos, agarrando-me pelas orelhas. aproximou o rosto do meu. olhei-a de frente, um olhar sem objectivo, detendo-se nela apenas porque se interpunha entre mim e o branco da parede. a minha vontade era sair dali e esperar que passasse. se é que eu posso chamar vontade à vergonha. ela tinha os músculos faciais contraídos, os olhos quase fechados, os lábios entreabertos com os dentes cerrados. parecia prestes a chorar de raiva. puxou-me mais as orelhas e abanou-me, agarrei-lhe os braços, tentando soltar-me, empurrei-a para a cama. exagerou a queda e foi bater com a barriga na parede. levantou-se com um olhar de vítima. voltei-me para ela,

“por favor, sabes que gosto de ti.”

soou despropositado, parecia uma desculpa. senti-me embaraçado diante de uma regra tácita que eu mesmo acabara de quebrar.

“que querido, agora gosta de mim.”

H.G. Cancela, Anunciação (1999), Cap. VII

 

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