Franz Kafka – O Processo


No outro extremo da sala para onde o levaram, haviam colocado um estrado muito baixo que se encontrava igualmente apinhado de gente; sobre aquele, colocada transversalmente, havia uma pequena mesa, e por detrás desta, quase à beira do estrado, estava sentado um homem baixo e gordo que nesse momento conversava, ofegante, no meio de estrepitosas gargalhadas, com um outro que se encontrava de pé, as pernas cruzadas e apoiando o cotovelo nas costas da cadeira do seu interlocutor. Por vezes, erguia os braços no ar como se estivesse a caricaturar alguém. O moço que conduzia K. Viu-se em dificuldades para dar conta do resultado da sua diligência. Tentara já duas vezes, pondo-se nos bicos dos pés, dar uma informação qualquer sem que, no entanto, o homem a quem se dirigia lhe prestasse atenção. Só quando uma das pessoas que se encontravam no estrado reparou no moço, o homem se voltou para ele e se debruçou para trás a fim de ouvir a comunicação que, em voz baixa, aquele lhe fazia. Depois, tirando o relógio da algibeira, olhou rapidamente para K.

– O senhor já devia ter-se apresentado há uma hora e cinco minutos – disse.

K. quis responder qualquer coisa mas não teve tempo, pois, mal o homem acabara de falar, levantou-se um protesto geral na metade direita da sala.

– O senhor já devia ter-se apresentado há uma hora e cinco minutos – repetiu o homem numa voz mais forte e olhando agora também rapidamente para a multidão que ocupava a sala.

Imediatamente os protestos se tornaram mais fortes; porém, como o homem não dissesse mais nada, foram-se extinguindo pouco a pouco. Havia agora um silêncio muito maior do que quando K. Entrara. Apenas os ocupantes da galeria continuavam a fazer as suas observações. Embora a semiobscuridade, o fumo e o pó não permitissem que se visse muito bem o que se passava lá em cima, parecia que as pessoas da galeria estavam pior vestidas do que o restante público. Muitas haviam trazido almofadas que tinham colocado entre a cabeça e o tecto para não se magoarem de encontro a este.

K. resolvera observar mais do que falar; por conseguinte, desistiu de apresentar qualquer justificação para o seu suposto atraso e disse apenas:

– Posso ter chegado atrasado mas estou aqui.

Seguiu-se uma salva de palmas de novo proveniente da metade direita da sala. “Gente que se deixa conquistar com facilidade” – pensou K.; por outro lado, o silêncio da metade esquerda da sala que estava mesmo por trás dele e na qual apenas um ou outro aplaudira, preocupava-o. Meditou no que poderia dizer para pôr imediatamente todos do seu lado ou, se isso não fosse possível, para ganhar, pelo menos temporariamente, também a simpatia dos outros.

– Sim – replicou o homem – mas agora já não tenho obrigação de o interrogar.

De novo se levantaram os protestos; desta vez, porém, duma maneira pouco definida, pois o homem, fazendo um gesto dissuasório, continuou:

– Desta vez, no entanto, excepcionalmente, interrogá-lo-ei. Mas um atraso como este não deve voltar a dar-se. E agora aproxime-se!

Alguém saltou do estrado abaixo de maneira a K. Poder subir para um lugar vazio. K. Ficou comprimido contra a mesa. Atrás, a multidão apertava tanto, que K. Teve de fazer esforços para não lançar fora do estrado a mesa do juiz de instrução ou mesmo este.

Porém, o juiz de instrução não se preocupou nada com o que se passava e deixou-se ficar confortavelmente sentado; então, depois de ter ditos ao homem que se encontrava por detrás dele uma palavra que punha termo à conversa, pegou no único objecto que se encontrava em cima da mesa, um livro de apontamentos. Este fazia lembrar um velho livro escolar deformado à força de tanto uso.

– Bom – disse o juiz de instrução, folheando o livro e dirigindo-se a K. Num tom peremptório – o senhor é pintor da construção civil?

– Não, – replicou K. – sou gerente dum importante banco.

A parte direita da sala sublinhou esta resposta com uma gargalhada tão espontânea que K. Foi obrigado a rir-se também. As pessoas, com as mãos apoiadas nos joelhos, pareciam sacudidas por um impiedoso ataque de tosse. Mesmo na galeria houve risos isolados. O juiz a quem a cena irritara imenso, não podendo, provavelmente, fazer nada contra o público da sala, levantou-se dum pulo e, ameaçando a gente da galeria, procurou descarregar sobre esta a sua cólera. As suas sobrancelhas, que habitualmente passavam despercebidas, eriçaram-se espessas, negras, enormes, por cima dos olhos

Franz Kafka, O Processo (1925), Capítulo II – Primeiro interrogatório

 

 

 

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