Leituras – Michel Schneider


No dia 2 de Julho de 1904, no sanatório, a mulher Olga – “Meu crocodilo, minha pombinha, minha crinolina, minha doçura, meu cavalinho” – aproxima-se dele e quer pousar um saco de gelo moído sobre o seu peito. Tal teria aliviado os seus acessos de tosse. Ele afasta-lhe o braço: “ Não se põe gelo num coração oco”. Tinha sentido a chegada da morte. Atingido pela tuberculose e sem conseguir respirar, tinha escolhido ir a banhos para uma estância termal para se tratar, segundo dissera. Para morrer longe dos olhos e dos corações. Com a mesma modéstia com que sempre vivera. “Parto para acabar lá”, dissera a alguns amigos quando viajara para Berlim para consultar o professor Karl Ewald, especialista em tuberculose. Talvez tenha sido a sua antepenúltima palavra. O médico recomenda-lhe a convalescença nos banhos algures na Floresta Negra. O lugar chama-se Badenweiller. Isso ou outra coisa, é sempre Samarcanda. “Que assustador símbolo de tédio, esta estância termal alemã constitui…”, escreve no dia 26 de Junho de 1904. Sobram-lhe poucos dias de vida. Faz projectos: o lago de Como, Marselha, Odessa, Trieste, o monte Athos. Uma espécie de massagista cobre-lhe o corpo de panos húmidos. Obrigam-no a beber cacau com muita manteiga. Engole ainda um caldo de aveia, uma infusão de morango para dormir. Tendo acabado de beber, o escritor volta-se para a parede e diz: “ Ich sterbe”. Em voz baixa, mas perceptível. Em alemão: “Eu morro”. E morre. Morre em alemão.

Anton Tchekhov era um homem, não sabia o que era a vida. Era um médico, sabia um pouco o que era a morte e tinha-a demasiadas vezes apalpado com os dedos para não deixar de a pressentir. Eu morro. Para quê dizê-lo? Porquê falar? Porque se é um homem bem educado. Porquê em alemão, uma língua que ele dominava bastante mal? Porque Anton Tchekhov era polido, e nunca elevava a voz. Dizer a sua morte em russo teria um aspecto natal, estrangeiro. Teria sido uma incongruência, como empregar uma palavra rara nos seus contos ou nas suas peças. Porque o médico a seu lado era alemão e não se deve falar uma língua diante de alguém que não a percebe. Porque se morre sempre, tal como se escreve, numa língua estrangeira. Talvez fosse isso que ele pretendia dizer: a morte fala de nós numa língua estrangeira. Não a entendo, mas não duvido de que se trata de uma língua, e procuro encontrar um sentido no que ela diz acerca de mim.

No entanto, talvez haja outra explicação para esse emprego do alemão. Aquelas duas palavras formam uma frase impossível. Ou, melhor, que tende para o limite de uma contradição insuperável entre aquilo que é enunciado e quem o enuncia. Pode-se ainda dizer: “Eu morro”, mas então não se está morto, ou não completamente. Mas não se pode seguramente dizer “Eu estou morto”, salvo se formos Proust que o repetia todas as noites ao despertar e o escrevia a todos os amigos antes de que se tornasse verdade. Sentado na cama, entre o médico e a mulher, Tchekhov opta portanto por dizer a última palavra na língua estrangeira, aquela que a sua mulher não falava. E porque devemos sempre articular bem as palavras, di-lo de modo audível, um pouco forçado, como no teatro: “Ich sterbe”. Escuto a doçura das consoantes, a falta de sopro sob as vogais, o timbre neutro. Mas se Ich sterbe é a última palavra de Tchekhov, aquela que escolhemos escutar e repetir, não foi a última frase que pronunciou. Pouco depois, pede um outro médico. Este último chama-se Schworher, serve-lhe uma taça de champanhe. “Há muito tempo que não bebia champanhe”, diz Tchekhov, mesmo antes de entregar-se definitivamente à sua antiga e íntima inimiga. Não dava certamente muito valor à glória póstuma nem à pose final. Pouco lhe importava deixar uma frase de moribundo. A morte faz rabiscos. Tchekhov já não tem energia para arrependimentos. Escreveu um dia: “A arte de escrever não consiste em escrever bem, mas em rasurar aquilo que está mal escrito”.

Michel Schneider, Mortes Imaginárias (2003), Ich sterbe

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