Leituras – Marcel Schwob


Nasceu em Tebas, foi discípulo de Diógenes e conheceu também Alexandre. Seu pai, Ascondas, era rico e deixou-lhe duzentos talentos. Certo dia, em que tinha ido ver uma tragédia de Eurípedes, sentiu-se inspirado quando apareceu Télefo, pai de Mísias, vestido andrajosamente de mendigo, com um cesto na mão. Levantou-se no meio do teatro e anunciou com voz forte que distribuiria a quem quisesse os duzentos talentos da usa herança e que daí em diante lhe bastariam as vestes de Télefo. Os Tebanos puseram-se a rir e juntaram-se diante de sua casa; entretanto, ele ria mais do que eles. Lançou-lhes pela janela o seu dinheiro e os seus móveis, pegou numa capa de lona e numa sacola, e foi-se.

Chegado a Atenas, errou pelas ruas, repousando as costas nas muralhas, no meio dos excrementos. Pôs em prática tudo o que Diógenes aconselhava. A pipa parecia-lhe supérflua. Na opinião de Cráteo, o homem não era nenhum caracol, nem eremita-do-mar. Ficou todo nu no esterco e apanhou as crostas de pão, as azeitonas podres e as espinhas de peixe secas para encher a sacola. Dizia que a tal sacola era uma cidade grande e opulenta onde não havia parasitas sem cortesãs e que produzia o suficiente para o seu rei, alho, figos e pão. Assim Cráteo levava a pátria às costas e dela se alimentava.

Marcel Schwob, Vidas Imaginárias (1896), Cráteo, Cínico

 

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