Leituras – Par Lagerkvist


Um homem de alta estatura, que o príncipe trata com extraordinária consideração, quase com respeito, acaba de chegar à corte. O príncipe disse que se sentia feliz por ter enfim a honra desta visita. Comporta-se com o seu hóspede como com um dos seus pares.

Ninguém na corte acha isto ridículo; há quem diga que o visitante é verdadeiramente um grande homem, o igual dum príncipe. Mas em lugar de ostentar um trajo principesco, anda vestido com muita simplicidade. Ainda não consegui descobrir o que tem ele de maravilhoso. Talvez venha a sabe-lo mais tarde. Diz-se que ficará por muito tempo.

Devo confessar que há nele qualquer coisa que inspira o respeito, uma dignidade mais natural que a da maioria das pessoas. A fronte é alta e o que se costuma chamar meditativa; o rosto, com a sua barba grisalha, nobre e verdadeiramente belo. Uma harmoniosa distinção emana de toda a sua pessoa, e as maneiras são duma calma soberana.

Como os outros, deve ter qualquer deformidade; pergunto a mim próprio qual seja.

O hóspede notável toma as suas refeições à mesa do príncipe. Falam dos mais diversos assuntos. Quando sirvo o meu senhor (que quer ser sempre servido por mim), verifico que o estrangeiro é um homem culto. O seu saber parece estender-se a todos os domínios possíveis, nada escapa à sua curiosidade. Tenta explicar tudo, mas ao contrário dos outros, duvida por vezes da justeza das suas próprias explicações. Depois de ter exposto longamente e minuciosamente um assunto, pode acontecer-lhe ficar silencioso e sonhador, para acabar por murmurar num ar pensativo: “Em suma, talvez não seja bem assim”.

Busco saber como deve ser considerada esta disposição de espírito. Pode-se ver nela uma espécie de sabedoria, mas também se pode concluir que ele nada sabe com precisão e que os seus elaborados raciocínios são completamente destituídos de fundamento. A minha experiência far-me-ia inclinar para a segunda hipótese. A maior parte das pessoas não se apercebe de que a impotência do espírito humano deveria inspirar uma certa modéstia. Talvez seja ele o único a compreendê-lo.

O príncipe não põe a si próprio tantas questões, e bebe as suas palavras, como se se encontrasse perante uma límpida nascente de saber e de prudência. Ao mesmo tempo que conserva a dignidade que convém a um senhor de estirpe tão elevada, está suspenso dos seus lábios, como um pobre colegial, dos lábios dum professor. Algumas vezes chama-lhe “grande mestre”. Pergunto a mim mesmo então qual pode ser a causa da sua insinuante humildade. O príncipe nada faz sem razão.

Par Lagerkvist, O Anão (1944)

 

 

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