Leituras – Lars Gustafsson


A Nancy é uma pessoa muito invulgar. Não compreendo como se tornou a tal ponto uma estranha para mim. Um ser fundamentalmente insatisfeito, que parece estar permanentemente a caminho de outro sítio, que não vê aquilo que tem (o Tom, que ela descura visivelmente e que está sempre a impingir aos outros) e que corre atrás do que não tem (um homem, calculo eu, mas receio que no fundo ela deseje antes uma amante), sempre a pensar em questões, movimentos, opiniões: pós-modernismo, desconstrutivismo, feminismo, o colapso iminente dos EUA. Tudo isto me parece, não a expressão de uma política reflectida, mas antes manifestações de uma amargura destruidora, uma espécie de movimento juvenil destrutivo, não-académico, uma fúria adolescente que é pouco atrativa numa mulher de trinta anos. Transitando constantemente de um homem para outro (cada um mais bem cotado que o anterior, de uma forma que se tem revelado muito favorável à carreira dela), de universidade para universidade (cada uma, também, mais prestigiante que a anterior), conseguiu nunca desenvolver uma personalidade própria. Não passa de um espelho complacente das ideias que várias pessoas em volta dela, principalmente homens celebrados, fazem incidir sobre a sua superfície.

Lars Gustafsson, História com Cão (1993), 22. A Loja de Animais. A Tartaruga.

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