Leituras – Amos Oz


Fima apontou o garfo à testa, às têmporas e à nuca, tentando adivinhar e sentir o que poderia acontecer na fracção de segundo em que o projétil penetrasse e explodisse dentro do crânio: talvez nem dor, nem estrondo e procurou imaginar, só um clarão fulgurante de incredulidade, de inconcebível, como um garoto que se preparasse para apanhar uma chapada do pai e, em vez de uma bofetada, se lhe cravasse de súbito um espeto em brasa por um olho dentro. Haverá uma fracção de segundo, um átomo de tempo infinitesimal, em que, quem sabe, se revela a iluminação? A luz primordial dos sete céus? Onde tudo o que é obscuro e inexplicável na vida é esclarecido, num ápice, antes da queda nas trevas? Desde sempre se tem procurado a complexa solução para o insondável mistério e será que no derradeiro instante ela fulgura com tanta simplicidade?

“Deixa-te de lixar o juízo”, disse Fima para consigo com voz rouca. “Opaco” e “inexplicável” eram palavras que lhe causavam náuseas. Levantou-se, saiu fechando atrás de si a porta do apartamento, dando particular atenção à algibeira onde tinha metido a chave. Em baixo viu, através da fresta, uma carta a alvejar na sua caixa do correio, só que no bolso direito estava apenas a chave de casa e a do correio ficou possivelmente sobre a secretaria, se não num bolso doutras calças ou num canto da banca da cozinha. Hesitou e renunciou à vontade de a ir procurar, admitindo que não passaria da factura da água ou do telefone ou de mera publicidade. Enquanto almoçava uma omeleta com salsicha, salada e uma compota de fruta no restaurantezinho em frente, teve um sobressalto ao repara, pela janela do restaurante, que no apartamento a luz estava acesa. Refletiu um pouco, considerou a remota eventualidade de possuir o dom da ubiquidade, preferindo a hipótese de que tinha sido reparada a avaria e que a corrente fora restabelecida. Concluiu, consultando o relógio, que se resolvesse ir lá acima apagar a luz e andar à procurar da chave do correio para retirar a carta, chegaria atrasado ao serviço. Assim, pagou e disse: “Obrigado senhora Schoemberg” e ela, como sempre, corrigiu-o: “Scheinmann, doutor Nissan”.

 

Amos Oz, A Terceira Condição (1991), 3. A Caixa da Bicharada

 

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