Ciclo Coimbra (t)em Poesia


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é

procurar um amigo com quem faço amor

e pegar-lhe na mão

como se pegasse no planeta

Amarro-lhe o primeiro beijo

como se fosse viajar

 

Abraço-lhe o lugar de nós

como uma escalada para dentro

e as mãos,

atrasam-se no corpo dela

como desertoras

 

Labiamos-nos

 

Sexo-lhe os contornos

como se o mundo estivesse todo

no nenúfar em que encaixo

o corpo

 

é

o cocegar dela na minha alma

 

 

 

###

 

 

 

 

tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteroides

 

 

 

 

###

 

 

 

 

estou lá sentado dentro do espaço que ocupo sentado

mas duvido que esteja coincidentemente dentro de mim

é sempre assim quando as árvores pretendem fazer uso das pernas

 

nascemos todas as manhãs sob o epíteto do oxigénio

e apresentamos os braços e as pernas ao martírio

do movimento

e depois chega a noite – epitáfio da termodinâmica

 

agora quero sentar-me em mim mesmo e não consigo

porque não encontro o degrau paulatino em que me esqueci

 

e ao mesmo tempo que tento sentar-me no degrau certo

tento ainda o golo milagroso que me faria sentar de vez

no preciso instante em que estou sentado

 

 

 

 

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trinco a língua de propósito

como se morder o português me tornasse mais livre

 

vejo que a manete dos livros não tem funcionado

e não posso levar a biblioteca ao mecânico

porque já não restam páginas para lá chegar

 

É mordido de insónia que planeio genocídios

e transfusões de sangue Então desmantelo a mão

descarto dois dedos e faço uma fisga

com que ataco a verborreia

 

Ainda lasco as sílabas no aperto dos lábios

apertadas na saliva como se decepasse o maxilar

Ouço as pedras basálticas enlaçadas nas vinhas

e os berros de perros pulmonares

orquestras de dentes caninos dilacerando a língua

num esgar de quem faz por existir

sem o preço dos móveis Ikea

 

 

 

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