Leituras – Somerset Maugham 02


– Sou apenas um homem normal.

Diante dessa conclusão, dita com tanta seriedade, não pude conter o riso. Procurando explicar os seus sentimentos, ele caminhava de um lado para o outro como um leão enjaulado.

– Quando uma mulher nos ama, só fica satisfeita quando nos possui, também, a alma. Por ser fraca faz questão de dominar, e, fora disso, nada a contenta. O seu cerebrozinho ofende-se com abstracções que é incapaz de perceber. Fica absorvida pelas coisas materiais e tem ciúmes do ideal. A alma do homem lança-se para as regiões mais recuadas do Universo, e ela procura aprisiona-lo no cerco do seu livro de contas. Lembra-se de minha mulher? Pois bem, Blanche tentou aos poucos os mesmos artifícios. Com uma paciência incansável armava ciladas para me prender. Queria rebaixar-me até ao seu nível. A minha satisfação pouco lhe importava; contentava-se em ter-me preso. Estava disposta a fazer tudo por mim, menos a única coisa de que eu necessitava: deixar-me em paz.

Depois de um curto silêncio, perguntei-lhe:

– Que pensava que pudesse acontecer-lhe a ela, quando a abandonou?

– Que voltasse para junto de Stroeve – respondeu. – Ele não queria outra coisa.

Somerset Maugham, Um gosto e seis vinténs (1919) , Cap. XXXVIII

 

maug

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