Leituras – George Steiner


A minha mãe, muito vienense, tinha o hábito de começar uma frase numa língua e acabá-la noutra. Parecia não se aperceber das espantosas modulações e variações de intenção que isso produzia. As línguas pairavam pela casa. Inglês, francês e alemão na sala de jantar e de visitas. O alemão do “Potsdam” da minha ama no meu quarto; o húngaro na cozinha onde, por acaso ou desígnio superior, uma sucessão de senhoras magiares (lembro-me delas volumosas e coléricas) preparavam os pratos preferidos do meu pai. Não me recordo de nenhuma língua primeira ou original. As tentativas posteriores de extrair uma de dentro de mim, os testes psicológicos, a hipótese de que a língua em que gritasse à minha mulher num acidente de viação pudesse ser a base linguística, revelaram-se infrutíferas (mesmo em momentos de pânico ou choque, a língua que uso é contextual, é da pessoa com quem falo ou do local em que me encontro). Seja no uso quotidiano ou na aritmética mental, na compreensão ou dicção de textos, o francês , o inglês e o alemão sempre me foram igualmente “nativos”. Quase invariavelmente, sonho na língua em que falei nesse dia ou na língua que mais ouvi. É como se até o subconsciente semântico fosse linguisticamente circunstancial de um modo bastante óbvio e material.

George Steiner, Errata: revisões de uma visa (1997), Sete

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