Leituras – Somerset Maugham 01


 

Philip foi comer alguma coisa num restaurante, perto de Charing Cross. Resolveu ir a um espetáculo e encaminhou-se para um teatro onde representavam uma peça de Oscar Wilde. Ficou a imaginar se Mildred e Griffiths estariam ou não num teatro, naquela noite: precisavam de matar o tempo e eram ambos suficientemente imbecis para não se contentarem com palestrar. Philip experimentou uma perversa delícia em pensar na vulgaridade daquelas espíritos que tão bem se ajustavam um ao outro. Assistiu à peça com a atenção vaga. Tentava ficar alegre bebendo whisky em cada intervalo. Depressa o álcool lhe subiu à cabeça, mas a sua embriaguez era ao mesmo tempo selvagem e melancólica. Quando a peça terminou, tomou outro copo. Não podia ir para a cama, pois não conseguiria: temia os quadros que a sua viva imaginação lhe poria diante dos olhos. Tentou não pensar mais nisso. Sabia que bebera de mais. Por fim invadira-o um desejo de fazer coisas horríveis e sórdidas. Desejava rolar nas sarjetas. Todo o seu ser ansiava por bestialidades. Queria aviltar-se.

Atravessou Piccadilly, arrastando o pé boto, sombriamento embriagado, com a raiva e a miséria a dilacerar-lhe o coração. Foi detido por uma prostituta muito pintada, que lhe segurou o braço. Empurrou-a violentamente, dizendo palavras brutais. Caminhou alguns passos e depois parou. Aquela servir-lhe-ia tão bem como qualquer outra. Estava arrependido de lhe ter dito palavras rudes. Voltou a aproximar-se dela.

– Escuta… – começou.

– Vá para o inferno! – gritou a mulher.

Philip riu-se.

– Era só para saber se me dá a honra de cear esta noite na minha companhia.

Ela olhou para Philip, atónita, e hesitou um instante. Viu que ele estava bêbado.

– Tanto me faz.

Achou divertido que ela usasse uma frase tantas vezes ouvida dos lábios de Mildred. Levou-a a um dos restaurantes que estava habituado a frequentar com Mildred. Percebeu que, enquanto caminhavam, ela reparava no seu coxear.

– Tenho um pé boto – desse ele. – Há algum inconveniente nisso?

– Você é um ponto – riu ela.

Somerset Maugham, Servidão Humana (1915), Cap. 76

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