Os meus Tournier


Apetece-me começar por um desabafo: escreve-se tanto!

Que raio de maneira de começar um texto sobre leituras… Pois é, não se deviam fazer estes desabafos às claras, em lugares em que alguém nos possa ouvir. Mas estes desabafos escondem uma ambivalência propositada… Claro que nunca nenhum humanista se insurgiria contra o poder da escrita que faz crescer os textos e os homens (o homem subindo pelo texto, o texto subindo pelo homem), mas, ao mesmo tempo, quando o humanista é genuíno e atento não pode deixar de se arrepiar com o desperdício de tanto texto que não sobe pelo homem. Sejamos honestos: escreve-se demais. Nunca se conseguirá ler tudo o que se escreve. Até porque não se escreve para se ler; escreve-se para outra coisa. Se não conseguem apalpar o horror, aceitem a analogia: um arquiteto frenético a construir em série casas que nunca serão habitadas e não para; desabitadas porque são mais numerosas que os homens disponíveis para as habitar. No mundo da escrita também há muitos textos desabitados, é impossível habitá-los a todos. Sempre foi assim, poderá dizer-se. Mas hoje, mais do que nunca, já que são muitos os homens que sabem escrever, que presumem saber escrever, e se entregam a esses exercícios egolíticos que não se centram no escrever; e depois sacrificam textos no espetáculo da publicação que ninguém lê.

Precisamente por causa do excesso é tão importante saber escolher os textos em que habitamos. A abundância pode levar-nos a incorrer na imprudência de escolher textos banais e deixar desabitados outros muito melhores. Note-se bem: hoje o mais comum é escrever-se para escrever e não para ler. Por outras palavras, escreve-se por exercício formal (profissional) e não pela urgência de um conteúdo que cabe na leitura. Outra inferência: a escrita como subproduto da existência industrial, poluição que deriva da indústria da escrita mediática.

Por conseguinte, textos fortes desabitados (fortes porque foram feitos para serem lidos) são uma oportunidade para sermos menos do que poderíamos ser. Por isso não levem a mal que eu venha aqui oferecer pistas de textos que, na minha modesta opinião, merecem ser habitados. Lares que não vos deixarão desamparados, lares sem a sensação de correntes de ar, ou buracos medonhos de imaginação, ou secções incompletas por arquitetura vesga, pastiches sensaborões dos modelos mainstream. Eis as casas que Michel Tournier construiu.

Com Michel Tournier obedeci a um plano banal: ler as obras do autor, uma atrás da outra, segundo um critério cronológico de publicação. Acontece que já tinha as principais obras na minha estante, um caso raro, confesso, e pude por isso organizar uma hierarquia cronológica que tem a vantagem de tornar perceptível uma linha evolutiva da criação e dos pensamentos do autor. Bom, temo que haja por aí algum terno leiturítico (ente leitor que ainda tem um lastro de cultura livresca mas que já sucumbiu ao ambiente tecnológico pelo que só lê parangonas, resenhas, mensagens, crónicas, excertos, recensões e nada mais), dizia, um terno leiturítico que ao ler estas linhas assume já o caso como uma miserável mania de “operário da leitura” ou um desprezível caso de “leitura a metro”. Lugares comuns para comuns preconceitos. Ou será a mais vulgar inépcia? Hoje em dia (bom, como sempre) o culturalmente correto é usar os expedientes vulgarizados nos pasquins, nas mesas de café do bairro, para esconder a falta de leitura, a falta de silêncio, a falta de reflexão, a falta de diálogo, a falta “disso” que depois quando descoberto vem desconstruir os textinhos todos arrepanhados, relambidos de esquemas repetitivos com que se monta a falta de ideias, cozidos ao calha e que tanto trabalho deram a fazer, somas de várias pontas onde falta coração, vitalidade. Um encolher de ombros por escrito.

Mas retomando. Ajuda muito passar dos livros de um autor para o outro num curto espaço de tempo. O caso concreto é este: li de seguida três romances de Simenon (O homem que via passar os comboios, Crime Impune, Betty) e passei de imediato para os livros de Tournier. Assim, por contraste, torna-se mais evidente a diferença do “estilo” do escritor. Os livros de Simenon, apesar de bons, são construções localizadas, ancoradas, com um foco cognitivo contido, ao passo que os livros de Tournier precisam de balanço, só começam a ser o que são depois de ultrapassados muitos capítulos, pese embora a dignidade da primeira página. O espectro cognitivo é muito vasto e pressupõe-se a necessidade de sair do livro para estar no livro. As fronteiras são mais vastas e incertas que as necessárias em Simenon, como um velho limes romano, na vastidão de um império.

Deu-se o caso de estar disponível para iniciar uma nova sequência de leitura e já ter as melhores obras de Tournier na prateleira. Pela primeira vez ia iniciar esse exercício amalucado de fazer a leitura pela linha cronológica de produção literária de um autor e não de acordo com o tradicional arbítrio. É verdade que o tentei antes, mas incompletamente, com atropelos, e improvisando à medida que subia, com Handke, Hrabal, Sebald, etc.

Comecei com a primeira obra, claro está, Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico (Grand prix du roman de l’Académie Francaise) que apareceu em 1967, quando Michel Tournier tinha 42 anos e trabalhava como redator da editora Plon. Trata-se de uma apropriação do personagem Robinson Crusoe de Daniel Dafoe (alguém que fica sozinho numa ilha perdida no meio do pacífico, vítima de naufrágio), concebido a partir de um interior reflexivo sobre o que teria um náufrago de fazer para sobreviver numa ilha deserta. Numa perspectiva filosófica explora-se a tensão indivíduo – alteridade, explora-se o filão das convenções da sociedade organizada ao modo ocidental que entram em conflito com a “sociedade natural“. Emergem inúmeras divagações próprias num indivíduo isolado, desde os projetos de fuga, as soluções para a necessidade sexual num solitário, a sobrevivência a longo prazo numa ilha com recursos limitados, a frustração. Até que o acaso lhe providencia um companheiro, um nativo, a que chamou de Sexta feira, porque apareceu numa sexta-feira. Este único outro torna-se o “Povo” a que se dedica o “Governador”, passa a ser aquele que se submete às leis do bom governo. Ao mesmo tempo vai ser Sexta-feira a causa da destruição do sistema organizado, quando a gruta explode soterrando o que haviam armazenado. Finalmente um veleiro aproxima-se para se reabastecer de água e Robinson sente-se salvo. Mas ao privar com aqueles homens, ao fim de tantos anos sem outro contacto, não se reviu naquele tipo de humanidade e não quis partir com eles. Preferiu continuar isolado na ilha. Sexta-feira é que não aceitou e partiu. E mais não digo, descubram o resto.

A minha obra preferida de Tounier é a segunda, O Rei dos Álamos (Prix Goncourt), aparecida em 1970. A história centra-se no personagem Abel Tiffauges, um indivíduo vulgar que cresceu num colégio de rapazes e que nunca conseguiu regularizar uma vida convencional com mulher e filhos: perseguiu-o sempre o estigma de ser demasiado grande e ter os genitais pequenos. De certa maneira, Tiffauges é um pequeno monstro ou, como se diz no texto, um ogre. Tiffauges acaba preso, por causa de uma tara sexual com crianças, pouco antes do início do segundo conflito mundial e safou-se da execução capital por França ter acionado a mobilização geral: precisavam de todos os homens, mesmo os condenados à morte, para morrer patrioticamente frente aos alemães. Logo nos primeiros episódios da guerra, Tiffauges é capturado pelos alemães e vive todo o conflito na Prússia Oriental como prisioneiro. Na qualidade de prisioneiro, Tiffauges descobre a Alemanha e as raízes profundas da Prússia germânica, e, de certa forma, apaixona-se pelo país inimigo (os pais de Tournier eram de estudos germânicos e ele próprio estudou na Alemanha). Por lá existem monstros piores do que ele, mas não são condenados pela justiça. Cruza-se com verdadeiros ogres, o “ogre de Rominten” (Goring), o “ogre de Kaltenborn” e outros. Incluindo o “Rei dos Álamos”, um antigo rei germano encontrado nas turfeiras, prova da ancestralidade germânica naquela região. E mal se esperaria que o fim de Tiffauges estivesse aparentado com o da múmia.

Seguiu-se a terceira obra, Os Meteoros, aparecida em 1975, uma obra mais complexa e extensa que a anterior. Aqui Tournier tenta pesquisar o modo como as pessoas são todas diferentes (mesmo entre gémeos verdadeiros há diferenças) e o modo diferente como percepcionam a mesma realidade. E com estas diferenças, descobrir os modos que as pessoas encontram para se relacionar com os outros. A história centra-se na família Surin, de Rennes, especialmente nos três filhos do casal (Gustavo, Eduardo, Alexandre), que são muito diferentes entre si. Se o mais velho (Gustavo) segue os passos do pai e está em conformidade com as convenções dominantes na sociedade, o mais novo (Alexandre) é a figura do marginal, por se opor às condicionantes da família (procriação, fidelidade e heterossexualidade), é um caçador homossexual. O tema do sexo é uma constante na obra de Tournier, mas em Os Meteoros é longamente explorado. O tema religioso também é importante, chegando-se a levantar a hipótese de Jesus Cristo ter tido um gémeo. A faceta monstruosa da humanidade (como parte integrante da Humanidade) está novamente presente, tanto pela pesquisa de personagens com deficiência mental (a Colina dos Inocentes), como pela pesquisa da relação entre os gémeos Jean e Paul (ou melhor dizendo, a unidade Jean-Paul), filhos de Eduardo, onde se abre um episódio que evoca o personagem Tiffauges do romance anterior. O corpo essencial da obra desenvolve-se depois com as experiências, sempre intercomunicantes, em dois veios: a homossexualidade (através das relações Alexandre/Daniel e Fabienne/Eva) e o fenómeno gemelar (Jean/Paul). Parece-me ser o mais cru dos romances de Tournier, onde investiu muito da sua energia reflexiva, onde deixou muito da sua pessoa, e não voltou a fazer uma obra tão fraturante. Afinal, um meteoro como todos nós.

O quarto romance de Tournier é Gaspar, Belchior & Baltasar, aparecido em 1980, uma reinvenção do tema dos reis magos. Com este livro descobrimos que afinal foram quatro, e não três, os reis magos que chegaram a Belém. Cada um tinha uma motivação muito pessoal e singular para empreender essa viagem, motivações que afinal não estavam imediatamente ligadas ao nascimento de uma criança, em Belém. Gaspar, o rei negro, rei de Méroe, partiu por causa dos dissabores que a paixão por Biltine, uma das escravas do seu harém (uma mulher branca e loura), provocou. Afinal Galeka, o outro escravo por quem Biltine suplicara a não separação, não era o irmão mas o amante. O rei Méroe partiu do seu reino para curar uma ressaca de amor e na viagem encontrou o rei de Nippur. Baltasar, rei de Nippur, partiu por ser um esteta que queria descobrir a beleza do mundo, as belezas do seu reino já não bastavam, por isso restava-lhe a viagem perpétua para estar sempre a descobrir algo de novo. Belchior, Príncipe herdeiro de Palmira, partiu do seu reino em fuga porque o tio se apoderou do trono (de outro modo seria assassinado) e acabou por conhecer os outros dois reis junto de Herodes. E foi afinal Herodes quem convidou os três a procurar o “salvador do povo judeu” em Belém. Taor, Príncipe de Mangalore, na costa do Malabar, decidiu viajar até à Judeia porque era guloso e acreditava que estava para nascer o Divino Doceiro. Foi o último a partir e chegou atrasado, mas ainda encontrou os três reis magos que já regressavam a casa sem passar pela corte de Herodes.

O quinto romance, Gilles e Jeanne, aparecido em 1983, não está na minha prateleira. Não o li. Mas pelas referencias dispersas que encontrei parece ser obra a considerar. Apesar de não o ter lido, estou sossegado com isso porque tenho a sensação que já conheço razoavelmente bem a produção literária de Tournier. Arrisco que não seja uma obra acima de O Reis dos Álamos ou Os Meteoros.

O sexto romance aparece em 1985, A Gota de Ouro, com o qual fende um tema que hoje, trinta anos depois, é perfeitamente atual, assunto corrente nas televisões do mundo inteiro. A fuga das populações de África (e Médio Oriente) para a Europa. O pequeno Idriss, habitante no oásis Tabelbala, viu uma viatura Land Rover parar, de lá saiu uma mulher de cabelos loiros, como ele nunca vira, que lhe tirou uma fotografia. A fotografia só seria revelada em Paris. Depois disso só consegue pensar na mulher; e na fotografia. Idriss tinha a expectativa ingénua que lhe enviariam a fotografia para o oásis, onde afinal só havia uma única fotografia: a fotografia do tio Magadem (tirada em Itália durante a Segunda Guerra Mundial). Por isso, cada vez que o carro do correio chegava ao oásis postava-se com os demais à espera de ouvir o seu nome. Mas a carta com a fotografia não chegou. O tio Magadem aconselhou-o a procurar a fotografia, porque, segundo a crença local, uma fotografia não pode apartar-se do dono. Leva consigo uma joia de ouro com a forma de gota de água (que no tempo dos romanos identificava os escravos livres) e parte. O resto são a peripécias de Idriss até chegar a Paris. Sintomático é a perda da Gota de Ouro mal chega a França, para uma mulher fácil. A cena de Idriss a passear o Camelo nas ruas de Paris é deliciosa.

Por fim, Eleazar ou a Nascente e a Sarça, o último romance, que aparece em 1996, quase um estertor, algo que podia (cruz, credo!) não ter sido publicado. Não está à altura de nenhuma das obras que Tournier publicou antes. É um romance competente, mas não é brilhante, não nos sacode. Pode-se até desconfiar que tenha sido um compromisso editorial ou então alguma fixação filosófica do escritor. Ele, Tournier, o escritor, sabe-o. E por isso não voltou a publicar qualquer outro romance depois deste. Publicou outros textos, mas não romances.

Uma impressão geral. A mim parece-me que Tournier é um escritor da alteridade, querendo com isto dizer que é alguém que escreve fazendo descobrir os outros, os diferentes de nós. Diferente de um escritor do self, ocupado em procurar-se, em descobrir-se, em tornar nítido os contornos da identidade própria. O pressuposto da alteridade é aceitar que o outro é vário, abundante, e que essa abundância é a riqueza da Humanidade. Mais: nesta alteridade também cabe a monstruosidade. Ela existe e é igualmente humana. É parte integrante do humano. E é por este espelho que se educa a presunção do leitor, obrigado a descobrir nos meandros da alma os laivos de monstruosidade que tende a dissimular. Em Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico a alteridade pesquisa-se pela relação entre o homem civilizado e o homem nativo. Em O Rei dos Alamos a alteridade pesquisa-se pela relação entre os franceses e os alemães. Em Os Meteoros a alteridade pesquisa-se pela relação entre os heterossexuais e os homossexuais, ou melhor, os homens com par e os homens sem par. Em Gaspar, Belchior & Baltasar a alteridade pesquisa-se pela relação entre as elites e os escravos. Em A Gota de Ouro a alteridade pesquisa-se pela relação entre os europeus e os norte-africanos.

Depois desta confissão de leitor (ó meu deus, como estou de pijama!), deixem-me só mais uma opinião de tremoços: não deixem de ler O Rei dos Álamos, ou arriscam-se a ser seres humanos diferentes do que poderiam ser.

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