Leituras – Patrick Modiano


“De súbito, ouço a voz seca do senhor Pessac: “O que é que está aqui a fazer?” Dirige-se ao meu pai. Ao ver-me com a mala na mão, franze as sobrancelhas: “Vai-se embora? E quem é este senhor?” Hesito e, por fim, balbucio: “É o meu PAI!” Visivelmente, não me acredita. Desconfiado: “Se bem compreendo, preparava-se para se ir embora como se fosse um ladrão?” Esta frase ficou-me gravada na memória porque nós parecíamos, de facto, dois ladrões apanhados em flagrante delito. O meu pai, perante aquele homenzinho de bigode e casaco castanho de andar por casa, permanecia calado e mordiscava o charuto para disfarçar a atrapalhação. Eu próprio só pensava numa coisa: safar-me dali o mais depressa possível. O senhor Pessac voltara-se para o meu pai e observava-o com curiosidade. Entretanto, apareceu a mulher. E depois a filha e o filho mais velho. Ficaram todos ali a olhar-nos em silêncio e eu tive a sensaçãoo de que nos tínhamos introduzido por efração naquele ambiente burguês. Quando o meu pai deixou cair a cinza do charuto para cima do tapete, notei neles uma expressão de desdém divertido. A rapariga deu uma risada. O irmão, um fedelho borbulhento que afetava um chique inglês (coisa corrente em Bordéus), lançou com uma voz esganiçada: “Talvez o senhor deseje um cinzeiro, não?…” “Então, François-Marie”, murmurou a senhora Pessac, “Não seja mal-educado.” E articulou estas últimas palavras olhando para o meu pai com insistência, como que para lhe fazer compreender que aquele qualificativo lhe era dirigido. O senhor Pessac conservava a sua fleuma desdenhosa. Julgo que aquilo que mais os irritava era a camisa verde-clara do meu pai. Face à hostilidade manifesta daquelas quatro pessoas, ele parecia uma grande borboleta apanhada numa armadilha. Remexia o charuto entre os dedos e não sabia onde o apagar. Começou a recuar para a porta da rua. Os outros não se mexiam e gozavam desavergonhadamente com o embaraço dele. De repente, senti uma espécie de ternura por aquele homem que mal conhecia, dirigi-me para ele e disse em voz alta: “Permita-me que lhe dê um beijo”. Depois, tirei-lhe o charuto da mão e esmaguei-o conscienciosamente em cima da mesa de marchetaria de que a senhora Pessac tanto gostava. Puxei o meu pai pela manga do casaco.

            – Já chega – disse-lhe. – Vamos embora.”

 

Patrick Modiano, As Avenidas Periféricas (1972)

 

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