13 de Abril


Eu conheci a história de O Tambor há muitos anos num filme que passou na RTP1. Bom, no tempo em que na RTP1 havia o conceito de qualidade. Hoje sei que era um filme de Volker Schlondorff que ganhou o Oscar para melhor filme estrangeiro em 1980, adaptando o romance homónimo de Gunter Grass. Mas eu na altura não sabia quem era Gunter Grass. Muito menos sabia quem era Volker Schlondorff.

Nunca me esqueci da história do miúdo que decidiu deixar de crescer: resistia ao arbítrio inconsequente da segunda guerra mundial, permanecendo infantil, sem se apartar do tambor de lata que lhe haviam oferecido. Só muito mais tarde vim a saber quem era esse Gunter Grass e só mais tarde ainda descobri a ligação entre o escritor e o filme. Portanto, o meu contacto com Gunter Grass começa com esse filme que vi nos anos oitenta.

No dia 13 de Abril de 2015 reuni alguns amigos lá em casa para me ajudarem a acreditar que havia uma marca no tempo. Estava a completar 45 anos de existência. Lembro-me que foi um momento bom, diverti-me e devo-o aos meus amigos. À mesa escorreu o vinho do Douro e do Alentejo, a língua soltou as asneiras e qualquer coisa de infantil que persiste no mais intimo e que só a informalidade da amizade liberta.

Agora descubro que quando me estava a divertir, Gunter Grass terminava a sua presença entre a espécie humana. É estranho acontecer-me isto. Como é que se explica isto, quando não há explicação? Até é estranho eu pensar que me aconteceu isto, mas aconteceu, no instante em que soube que ele tinha morrido naquela data. E fiquei com aquilo alojado na consciência.

Por mais banal que seja o caso, na minha existência individual não deixa de ser estranho que no dia em que me estava a divertir, celebrando a vida, um homem grande da literatura, que aprendi a respeitar, estava a morrer. Eu na pequenita Coimbra, ele na alemã Lubeck. Gunter Grass morreu a 13 de Abril, eu nasci a 13 de Abril. Eu sei que é só uma perplexidade literária, sem interesse nenhum, mas não deixa de incomodar o menisco racional.

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Uma resposta to “13 de Abril”

  1. Fátima Marques Says:

    Senti nostalgia quando li o que escreveste e orgulho por em tempos ter tido o privilégio de ser tua amiga. Um bj

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