Leituras – Lars Gustafsson


E Torsten Bergman pensava. Um trabalhinho simpático, que não lhe tomasse muitos dias seguidos, vinha bem a calhar. As contas amontoavam-se em cima do frigorifico. Nem sequer a taxa da televisão e o seguro do carro estavam pagos.

E azulejos, tinha-os ele, se por alguma triste ocorrência eles viessem a faltar no local. Azulejos aos montes, como as memórias do seu trabalho de toda a vida, como as suas obras completas, poderia dizer-se, espalhados por aí. Ladrilhos de várias espessuras no jardim, porque suportavam melhor o frio do Inverno, e azulejos na cave.

Actualmente não gostava de ir lá abaixo, e quando o toque do telefone, àquela hora pouco cristã, já se lhe tinha enroscado na cabeça e queria convencê-lo a aceitar talvez o seu último trabalho como ladrilhador, era a ideia de ter de ir à cave que mais o retraía.

Desde que a porcaria dos canos tinham gelado e rebentado, no Inverno anterior, havia sempre bastante água lá em baixo, e não era nada agradável meter as mãos na água gelada para tirar aquilo que queria. Azulejos, por exemplo.

Não punha lá os pés desde que os canos da retrete gelaram. Preferia manter a porta fechada.

Lars Gustafsson, A Tarde de um Ladrilhador, Obras Completas (1991)
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