Leituras – Gustave Flaubert


    – Sabes do que a tua mulher precisa? – dizia a velha Bovary. – É de se entreter em qualquer coisa, ter obras de mão para fazer. Se ela fosse obrigada, como tantas, a ganhar o seu pão, não andava lá com essas teias de aranha, que é o resultado de uma porção de ideias que se lhe meteram na cabeça, e de viver sem fazer nada.

    – Mas ela trabalha – observou Carlos.

    – Ah! trabalha? Em quê? O trabalho dela é ler romances, livros ruins, obras contra a religião e onde se faz troça dos padres com palavreado tirado de Voltaire. Quem se ocupa dessas coisas não vai longe, meu pobre filho, e quem não tem religião acaba sempre por levar má volta.

    Ficou, pois, resolvido que se impediria Ema de ler romances. A empresa não era fácil. Mas a boa senhora encarregou-se disso: quando passasse em Rouen, iria a casa do alugador de livros e dir-lhe-ia que Ema terminava a assinatura. Pois não havia até o direito de fazer queixa à polícia, no caso de o livreiro continuar na sua função de envenenador?

Gustave Flaubert, Madame Bovary, Cap. VII

Madame Bovary

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