O que estraga um escritor?


Nas vésperas de morrer, Tolstoi escreveu que, de modo genérico, é imoral que um escritor publique as suas obras enquanto está vivo. Deve contentar-se, dizia, em entesourar; que nos publiquem, se quiserem, depois da nossa morte. Para não falarmos no facto de que Tolstoi só chegou a todos esses bons pensamentos depois de haver dado a volta das paixões e dos pecados, cumpre dizer que neste ponto ele se engana, ainda que se trate de épocas calmas; quanto mais estando em causa uma época tão apressada quanto a nossa. Ele tem razão ao dizer que o desejo de um novo êxito junto ao público estraga a pena do escritor, mas há outra coisa que a estraga ainda mais: a impossibilidade, durante anos, de ter leitores – leitores severos, hostis, entusiastas –, a impossibilidade de exercer alguma influência, por pequena que seja, graças à pena, sobre a vida ambiente, sobre a mocidade que cresce. O mutismo confere pureza, mas também acarreta certa irresponsabilidade.

Alexandre Soljenitsine, O Carvalho e o Bezerro, O escritor subterrâneo

 

 

Soljenitsine Bezerro

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