Leituras – Michel Tournier (3)


Franz impressionava à primeira vista pelos seus olhos desorbitados, brilhantes, largamente rasgados, de expressão fixa, desvairada e furiosa. Incendiado por uma espécie de fogo interior, era de uma magreza esquelética, e quem lhe poisasse a mão no ombro, dar-se-ia conta de que um tremor ligeiro e rápido o percorria sem cessar. Mas o que nele atraía, confundia, irritava, era a mescla de génio e de debilidade mental de que a sua pessoa se tornara exemplo. Com efeito, ao mesmo tempo que exibia um nível mental próximo da idiotia – mas era difícil avaliar a parte da má vontade nos resultados desastrosos dos testes a que o submetiam -, dava provas de um virtuosismo espantoso na manipulação de datas, dos dias, e meses do calendário, desde mil anos antes de Jesus Cristo até ao ano quarenta mil da nossa era – ou seja, muito para além dos lapsos de tempo cobertos por todos os calendários conhecidos.

(…)

Compreendo-o e julgo ter descoberto o segredo do seu calendário de milénios bem como o da sua fuga mortal. O espírito de Franz era realmente o deserto que revelavam nele todos os testes de inteligência a que foi submetido. Mas, porque esse vazio lhe era afectivamente insuportável, conseguira arranjar dois cérebros mecânicos exteriores – um noturno, outro diurno – que o preenchessem. De dia, vivia de certo modo acoplado ao velho tear jacquard da fábrica. De noite, deixava-se embalar pelas luzes da baía do Arguenon.

(…)

Mas era por causa da música que dele se desprendia que Franz ficava dias inteiros ao pé do jacquard. O seu cantar era muito diferente do ronco metálico e confuso dos aparelhos modernos. A abundância das peças de madeira, a lentidão relativa do seu movimento, as articulações complexas, mas, bem vistas as coisas, pouco numerosas e, em todo o caso, identificáveis por um ouvido exercitado, tudo isso contribuía para conferir ao ruído do antigo tear uma distinção que o aparentava a uma forma de linguagem. Sim, o tear falava, e Franz compreendia a sua língua.

(…)

O pensamento caótico de Franz, afectado pelas intempéries, fizera do grande jacquard um instrumento auxiliar e como que um prolongamento de si próprio, benfazejamente acertado. O tear fazia, para ele, as vezes de organização cerebral. Pensava por ele e para ele – um pensamento obviamente monstruoso pela sua monotonia e complexidade, e cujo único produto era o calendário milenar.

Michel Tournier, Os Meteoros (1975), Cap. III, A colina dos Inocentes

Meteoros - Tournier

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