Leituras – Michel Tournier (2)


Por muito escandalosa que pareça à primeira vista, ninguém pode negar que existe uma profunda afinidade entre a guerra e a criança. O espetáculo dos Jungmannen, assistindo, numa bebedeira feliz, aos monstruosos ídolos de aço e fogo com as suas monumentais trombas erguidas no meio das árvores, é a prova irrefutável de tal afinidade. De resto, é a própria criança que, para brincar, se põe imperiosamente a exigir espingardas, espadas, canhões, tanques, soldados de chumbo e guerreiros. Dir-se-á que não é senão para imitar os mais velhos, mas, às vezes, chego a pensar se não será precisamente ao contrário porque, de facto, os adultos passam muito mais tempo nos escritórios ou nas oficinas do que na guerra. Esta não existirá só para permitir que o adulto volte a fazer de criança e regrida, aliviado, à idade dos soldadinhos de chumbo? Farto das suas responsabilidades de chefe de secretaria, esposo ou pai de família, o homem, quando mobilizado, demite-se de todas as suas funções e atributos e, livre e despreocupado, junta-se a companheiros da sua idade para brincar com canhões, tanques ou aviões que mais não são do que réplicas em ponto grande dos brinquedos da sua infância.

Michel Tournier, O Rei dos Álamos, Cap. V – O ogre de Kaltenborn

Rei dos Álamos

 

 

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