Patrick Modiano e o Prémio Nobel


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São numerosos os livros que Modiano escreveu, mas até ao momento só li seis romances. Hesito em escolher entre Domingos de Agosto (1986) e Na Rua das Lojas Escuras (1978) como exemplo da minha obra preferida. São duas joias, ao mesmo tempo máquinas perfeitas de ficção e campos fluídos de humanidade.

O Na Rua das Lojas Escuras é talvez o mais conhecido, ganhou o prémio Goncourt, e aquele que torna mais óbvia a característica maior da literatura de Modiano: a memória. Os vários romances de Modiano são tentativas de recolher memórias como significado da identidade e do sentido da existência, de modo que estes personagens têm sempre algo na vida mental que os remete ao passado. O Na Rua das Lojas Escuras começa assim: “Não sou nada”. Nos 47 capítulos seguintes Modiano tentar contrariar, tanto quanto é possível a um amnésico contrariar, este incipit. Guy Roland, nome auto adoptado, pois não se recorda do verdadeiro nome, vive onde? Em Paris. Por isso as ruas da cidade enchem as páginas, rue Anatole-de-laForge, rue Cambon, rue Charles-Marie-Widor, rue Claude-Lorrain, rue Boileau…

A ação de Domingos de Agosto passa-se em Nice, mas os personagens são fugitivos que vêm da área de Paris. Henri, um antigo fotógrafo, só vive no passado, nada o liga ao presente, está como que encravado em alguma coisa que aconteceu a Sylvia, à culpa pelo que aconteceu, que a principio não está óbvio, e que quando se descobre parece tão ridículo que não há como cobrir um homem de vergonha. Tudo desaparece perante um falhanço tão grande.

Num segundo patamar colocaria os romances No Café da Juventude Perdida (2007) e O Horizonte (2010). No Café da Juventude Perdida (2007) o personagem principal é a cidade de Paris, mas por intermédio dos seus cafés, neste caso o Condé, onde se cruzam vários focos de subjetividade, em especial Roland (outra vez) e Louki, as diferenças individuais, a história da Paris recente. Como é viver sem saber a nossa história individual? A nossa história individual nunca coincide com a percepção que o outros fazem de nós.

Em O Horizonte Modiano volta a esse exercício de repescar no passado motivos para dar sentido à existência desanimada no presente. O autor admite que a vida comum de um homem, ou mulher, não tem nada de espetacular, ao contrário do que pretende a histeria da atual sociedade espetáculo. Jean Bosmans recorda Margaret Le Coz, uma mulher da sua juventude, e decide voltar aos locais da cidade que antes frequentara e tenta reencontrar neles os antigos personagens. Depois descobre que afinal Margeret Le Coz não está morta e decide procura-la. “Então, Bosmans pensara que o destino, às vezes, insiste”. Acaba por saber que ela está em Berlim. Vai vê-la ou não?

Não me posso esquecer desse Um Circo que Passa (1992) onde alguém de quem não sabemos o nome procura reconstituir as memórias de um momento feliz, no passado, numa altura em que conheceu uma mulher, chamada Giséle, que nunca mais voltou a ver. Onde? Em Paris. E lá voltam as ruas de Paris para dentro do livro: rue Saint-Leu-la-Forêt, boulevard Haussmann, rue des Belles-Feuilles, rue Saint-André-des-Artes…

Aquele que menos gostei foi Dora Bruder (1997), curiosamente o livro mais divulgado, mais editado, mas não me parece que seja por razões literárias. Talvez seja o contexto que é atrativo para os editores, mais um caso de judeus que desaparecem num campo de concentração nazi.

Acho que nenhum outro autor tornou o desânimo, a perda, um tema tão elevado na literatura.

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