Leituras – W. G. Sebald


Assim, embora nas poucas semanas que teve para passar na ilha Saint-Pierre não tenha estado muito ocupado, o escritor Rousseau tem deste período uma visão retrospectiva que faz dele uma tentativa de se libertar das exigências da literatura. Diz a esse propósito que aspira a uma coisa diferente da fama literária cujo cheiro, diz ele, lhe repugna assim que chega ao seu nariz. Este dégout que sente pela literatura não era uma reação passageira, antes existiu sempre nele a par da escrita. Em conformidade com a sua teoria da natureza inocente primitiva, via no homem pensante um animal degenerado, na reflexão uma forma abastardada de energia espiritual. Nesta época em que a burguesia proclamava a sua emancipação com grande dispêndio de filosofia e de literatura, ninguém conhecia o aspecto patológico do pensamento tão bem como Rousseau, cujo maior desejo era poder parar os mecanismos que giravam na sua cabeça. Só se agarrava à escrita para, como observou Jean Starobinski, convocar o momento em que a pena lhe caísse da mão e o essencial se dissesse no abraço mudo da reconciliação e do retorno. Num tom menos heroico mas com igual justeza também podemos entender a escrita como contínuo trabalho forçado que prova que o escritor é o mais incurável de todos os indivíduos doentes do pensamento.

W. G. Sebald, O Caminhante Solitário (1998), A propósito de uma visita à ilha de Saint-Pierre
 
 
SEbald Acminhante

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