Leituras – W. G. Sebald


De tarde, à hora do chá, estive sozinho no bar-restaurante do Crown Hotel. Os ruídos da louça na cozinha tinham já cessado há muito, no relógio de sala, que tinha no mostrador um sol nascente e poente e à noite uma lua, as rodas dentadas engrenavam, o pêndulo oscilava com regularidade, o ponteiro dos minutos ia dando, aos solavancos, a volta completa e eu sentia-me, já há algum tempo, numa paz eterna quando, ao passar os olhos pela edição de fim de semana do Independent dei com um longo artigo que estava em relação directa com as imagens dos Balcãs que nessa manhã tinha estado a ver na Reading Room. O artigo, que tratava das acções da chamada limpeza étnica realizadas há cinquenta anos pelos Croatas de conivência com os Alemães e os Austríacos, começava pela descrição de uma fotografia, sem dúvida tirada pelos Ustachis croatas para recordação, em que os camaradas da milícia, com uma boa disposição e poses heroicas, cortam a serrote a cabeça de um sérvio chamado Branco Jungi? Uma segunda foto de intenção humorística mostra a cabeça quase já separada do corpo, com um cigarro nos lábios entreabertos, soltando um último grito de dor. O lugar destes actos foi o campo de Jasenovac, situado junto ao Sava, onde setecentos mil homens, mulheres e crianças foram executados por métodos capazes de deixar os cabelos em pé até aos especialistas do império alemão, como alguns, ao que se diz, admitiam apenas para círculos restritos. Serrotes e sabres, machados e martelos, algemas de couro com lâminas incrustadas para prender no antebraço, fabricadas especialmente em Solingen para cortar pescoços, além de uma espécie de forca transversal onde penduravam em série sérvios, judeus e bósnios como corvos e pegas, eram estes os instrumentos de execução mais usados. Não longe de Jasenovac, num raio de não mais de quinze quilómetros, havia também os campos de Prijedor, Stara Gradiska e Banja Luka, onde a milícia croata, com as costas aquecidas pela Wehrmacht e a alma pela igreja católica, realizava pelos mesmos meios o seu trabalho de todos os dias. (…) Vem a propósito notar que, à época, entre os funcionários do serviço de informações do exército do grupo E encontrava-se um jovem jurista vienense encarregado sobretudo da concepção de memorandos, a pretexto de considerações pseudo-humanitárias, que permitissem acelerar os deslocamentos de populações considerados necessários e em recompensa desse valioso trabalho de escrita, o chefe do Estado croata, Ante Pavelic, concedeu-lhe a medalha de prata da Coroa do rei Zvonomir com folhas de carvalho. Nos anos do pós-guerra, este mesmo funcionário que logo no início da sua carreira se tinha mostrado um técnico administrativo tão promissor, ocupou diversos altos cargos, nomeadamente no secretariado-geral das Nações Unidas. Foi nesta última ocupação que lhe foi pedido que gravasse, na intenção de eventuais extraterrestres que partilhem o nosso universo, as palavras de saudação que estão agora, juntamente com outros exemplos da actividade humana, a atingir os limites exteriores do nosso sistema solar a bordo da sonda espacial Voyager II

W.G. Sebald, Os Anéis de Saturno, Parte IV (1995)

 Sebald Aneis

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