Leituras – Agota Kristof


A Avó chama-nos:

– Filhos da mãe!

As pessoas chamam-nos:

– Filhos de uma Bruxa ! Filhos da puta!

Outros dizem:

– Imbecis! Vadios! Ranhosos! Burros! Porcalhões! Nojentos! Canalhas! Dejectos! Pedaços de merda! Malfeitores! Sementes de assassino!

Quando ouvimos estas palavras, sentimo-nos corar, as orelhas a arder, os olhos a picar, tremem-nos os joelhos.

Não queremos corar nem tremer, queremos habituar-nos aos insultos, às palavras que magoam.

Instalamo-nos à mesa da cozinha um em frente do outro e, olhos nos olhos, dizemos palavras cada vez mais atrozes.

Um:

– Bosta! Cara de cu!

O outro:

– Paneleiro! Sacana!

Continuamos assim até que as palavras deixem de penetrar no nosso cérebro, nem sequer entrem nos ouvidos.

Exercitamo-nos desta maneira durante cerca de meia hora por dia, depois vamos passear pelas ruas.

Arranjamos maneira de ser insultados pelas pessoas e verificamos que conseguimos ficar indiferentes.

Mas também há palavras antigas.

A nossa mãe dizia-nos:

– Meus queridos! Meus amores! Meus tesouros! Meus adorados bebés!

Quando nos lembramos destas palavras, os nossos olhos enchem-se de lágrimas.

Mas teremos de esquecer estas porque, presentemente, ninguém nos diz semelhantes palavras e porque as nossas recordações são uma carga muito pesada de transportar.

Agota Kristof, O Caderno Grande (1986), Exercício de endurecimento de espírito
 
Agota Kristof
 

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