Leituras – Juan Rulfo


Era meia-noite e lá fora o barulho da água abafava todos os sons. Susana San Juan levantou-se devagar. Endireitou-se lentamente e afastou-se da cama. Ali estava novamente o peso, aos seus pés, caminhando pela orla do seu corpo; tentando encontrar-lhe a cara:

– És tu, Bartolomé? – perguntou.

– Pareceu-lhe ou vir a porta ranger, como quando alguém entrava ou saía. E depois apenas a chuva, intermitente, fria, rodopiando sobre as folhas das bananeiras, fervendo no seu próprio fervor.

Adormeceu e não acordou até a luz iluminar os tijolos vermelhos, aspergidos de orvalho na cinzenta manhã de um novo dia. Gritou:

– Justina!

– E ela veio imediatamente, como se já ali estivesse, envolvendo o corpo numa manta.

– O que queres, Susana?

– O gato. Veio outra vez.

– Pobrezinha de ti, Susana.

Encostou-a ao seu peito, abraçando-a, até que ela conseguiu erguer a cabeça e lhe perguntou:

– Porque choras? Direi a Pedro Páramo que és boa para mim. Não lhe direi nada acerca dos sustos que me prega o teu gato, Justina. Não fiques assim, Justina.

– O teu pai morreu, Susana. Morreu anteontem à noite e hoje vieram dizer que já nada a fazer; que já o enterraram; que não puderam trazê-lo porque o caminho é muito longo. Ficaste só, Susana.

– Então era ele – e sorriu. – Vieste despedir-te de mim. – disse, e sorriu.

 

 

Juan Rulfo, Pedro Páramo (1955)

Pedro Páramo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: