Vergílio Ferreira – Escrever


“205.  Nada. Restos detritos desperdícios. Disso se faz hoje a literatura (…). São as últimas gotas de quem se espremeu. As estradas reais da cultura deixaram de ser transitadas e a erva e a floresta absorvem-nas como nas civilizações perdidas. Caminha-se hoje por carreiros desviados com uma problemática possibilidade de comunicação. Não se pensa o pensamento mas as margens dele ou as suas sequelas. Não se fala do homem mais do que há dele na sua ausência. Não se fala do que se come mas do prato em que se come ou dos sobejos que se deitam ao lixo. Hoje é o tempo do nada que não ousa o seu nome. Hoje é o tempo de se não ser. Hoje é o tempo de a própria morte se não dizer ou escrever na chamada tinta simpática para algum desocupado a tornar legível um dia.”

Vergílio Ferreira, Escrever, 205 (2001)

 

 

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