Danilo Kis – Enciclopédia dos Mortos


“E entretanto”, prossegue Simão cuspindo um gole de água morna, pois acaba de avistar um grupo de peregrinos de capas brancas, surgidos das sombras das casas, grupo em que reconheceu Pedro e os seus discípulos, armados de cajados de pastor. “… E entretanto, sob o negro lençol dos céus, por entre as negras muralhas da terra, na prisão da existência, desprezai a riqueza, como eles vo-lo ensinam, repudiai os prazeres da carne, desprezai a mulher, essa taça de néctar, essa urna de felicidade, em nome do falso paraíso deles e por temor do seu falso inferno, como se o inferno não fosse antes esta vida…”

– Uns escolhem o reino terrestre, outros o reino celeste – lança então Pedro, apoiado com as duas mãos ao cajado.

– Só quem conheceu a riqueza a pode desprezar – réplica Simão, fitando-o com os olhos muito abertos. – E admirar a pobreza aquele que foi pobre; rejeitar os prazeres carnais aquele que os saboreou.

– O Filho de Deus conheceu o sofrimento – diz Pedro.

– Os seus milagres são a prova da sua justiça – lança um dos discípulos de Pedro.

– Os milagres não são prova de nenhuma de justiça – responde Simão. – Os milagres servem de prova, de prova suprema para o povo crédulo. Essa moda foi lançada pelo vosso infeliz judeu que acabou na cruz.

– Só aquele que possui um tal poder pode falar desse modo – diz Pedro.

Simão salta então do barril e fica cara-a-cara com o seu provocador.

– Vou subir imediatamente ao céu – diz Simão.

– Muito gostaria de ver isso – responde Pedro, com um ligeiro tremor na voz.

– Eu conheço os limites do meu poder – prossegue Simão – e sei que não posso atingir o sétimo céu. Mas vou transpôr os outros seis. Só o pensamento pode atingir o sétimo, pois nele tudo é luz e felicidade. E a felicidade é negada ao homem mortal.

– Basta de palavreado – diz um dos discípulos de Pedro. – Se atingires aquela nuvem além, respeitar-te-emos como respeitamos o Nazareno.

(…)

E todos eles viram de repente o corpo mortal de Simão o Mago subtrair-se à terra, elevar-se a prumo e cada vez mais alto, batendo os braços ao de leve, como um peixe as barbatanas, muito ao de leve, quase imperceptivelmente, com o cabelo e a barba a flutuarem enquanto voava suavemente, enquanto planava.

Nem um só grito, nem um suspiro vieram perturbar o silêncio que se formou subitamente. A multidão estava imóvel, como que petrificada, de olhos cravados no céu. Até os cegos viravam as escleróticas vazias para o céu, pois haviam compreendido o que se passava pelo silêncio súbito, para onde a multidão dirigira os olhares, do lado para que estavam voltadas todas as cabeças.

Pedro também se conservava petrificado, boquiaberto de estupefacção. Ele não acreditava em milagres, excepto nos milagres da fé, e o milagre só podia vir d’Ele, o único Mago, aquele que transforma a água em vinho; tudo o resto não passava de truques de ilusionistas e fios invisíveis. O milagre só era concebido aos cristãos e, entre os cristãos, apenas àqueles cuja fé era sólida como a rocha, à imagem da sua fé, a Ele.”

Danilo Kis, Enciclopédia dos Mortos, Simão o Mago (1983)

 Danilo Kis

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