Traduzindo para o MalDito


Traduzindo malditoFotografia da Sandra Cruz

***

Román Luján. (Monclova, Coahuila, México, 1975).

Embassy

Há mais alguém. Sorri. Há outros tu sem ti. Um que se escondeu nas comissuras. Outro que está chorando tinta por dentro. Outro ainda que te observa no microscópio. Podem ser vários meses. Busca-te em porta alheia e sem boas maneiras. Disseca retratos na almofada. Escuta-te respirar. Olho que te percorre.  Corroído. Saliva de outra sede. Faz de cada esquina uma estação dolorosa. Agora o polegar direito. Um dos três por mim. Nós chamamos-te. Aparece nas crostas da pronuncia. Há um na converseta. Melhora as tuas versões. Lambe as tuas garatujas para corrigir o pulso. Documentos. Compagina os sublinhados nas tuas fotos. As datas nos teus lábios. Desenterra luares que esqueceste. Parecidos. O teu nome em vermelho escuro. Converte os segredos em brasas de papel. Sorri. As tuas chagas não coincidem. Espera que aclaremos essa mancha na tua voz. Duas palavras. Calhaus. Podem ser vários meses. Passa à fila zero. Sê a mão que imita e não repete. Agora o polegar esquerdo. Descobre sem mentir as sete diferenças. Podem ser vários meses. Um dos três por mim e por todos os meus escolhos. Há um que celebra os teus deslizes. Prova o teu lixo. Outro que te respira debaixo da água do sonho. Passa por estas linhas com devoção de oráculo. Sorri. A assinatura em vermelho escuro. Duas palavras que rimam. Enlarvam-se. Atrás de uma carícia por favor. Uma auréola de larvas sobre uma data antiga. Capaz de duplicar-te. De esperar que chegues. Não existirá passo que dês sem encontrá-lo. Nós chamamos-te. Não saberás se és tu.

***

Lorena Ventura (Oaxaca, México, 1982)

BACH MIRA LLOVER

Aquilo que me foi enchendo a partir do fundo

era a sua música.

Sei-o porque algo de mim

foi ficando entre as árvores.

Algo distinto da chuva

que não era trovão

nem rumor de pássaro

nem adejar negro da ira.

O vento era ondulação de cristais partidos

que um anjo

– apertado pela neblina

levantava.

A tarde: um tumulto de estrelas imprecisas.

Para quem o amor é um colibri adormecido entre as suas mãos.

Para os morcegos

–verborreia da noite

em cuja pele a lua ressoa.

(Os morcegos,

atados a um galho

entendem a noite ao contrário.

E quando dormem

são partidários unânimes da gravidade.

E o seu amor é cego)

Para os caracóis no seu amor paciente:

espiral de ar caindo na floresta.

Para quem sofre com a afronta de uma espada

o fruto amargo da noite.

Para a primavera,

porque antes dos seus passos tudo estava abandonado

(Esta manhã veio a colher de uma abelha

averiguar algo entre as flores)

E para tudo o que vem

que seguramente será rosado.

Aqui está o seu canto de pão e leite quente,

de cacimba e animal adormecido.

De fugitivo escondido.

Agora só resta esperar

o puro e simples chapinhar:

ruído feito de mineral de cosmos,

arena-ritmo

de girassol marinho.

E ter o cuidado de calar

a locomotiva ruidosa no nosso peito

para não despertar o nosso anjo da guarda

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: