Na tertúlia de poesia


Eis alguns dos textos que li na tertúlia de sexta-feira, dia 23, à noite:

 

tenho para mim a suspeita

que o mundo é apenas o depósito dos nascimentos

 

por isso as árvores levantam-se

à luz pluviométrica das madrugadas

e diurnam o planeta

 

sou musgo incestuoso

mas tu avançaste tetinicamente num golpe de humidades

e glória

 

dizes,

não há fôlego na informática

senão na nictografia dos afectos

 

eu,

viro monumento

 

dizes,

ganho as emoções na empena das ideias

e guardo-as em torno de mim

como cintura de asteróides

 

 

 

***

 

 

 

logo de manhã fecho a porta do livro e vou

trabalhar. sou obrigado a entrar nos andaimes

para sarar este cio do estômago

sapatos novos uma camisa possivelmente lavada

 

o dia inteiro com a maceta e ponteiro na mão

e a espinha vergada

o dia inteiro com o ranho por dentro

a mesma cola da moralidade ultra-cozida

 

a implacável deserção da gravata apresenta-me:

um homem do povo das cadernetas

os pernetas

 

as árvores andam mais do que eu

os aselhas luminescem mais do que eu

 

quando volto para casa a porta já não está na página certa

é como se a perdesse irremediavelmente e nunca mais voltasse

a entrar

na pele que a leitura me dá

 

 

 

***

 

 

 

as vírgulas amparam-se umas às outras como soluços

de giz

contentes como seios desnudados que não têm que saltar

imparáveis como úteros

 

a tolice cristaliza nos frigoríficos e nos encerados

mas o universo inibe-se de perseverar

sem esses meticulosos dedos

 

nas vírgulas em que cresceu o ponto trinca-se o mesmo

tom curvo da alegria dos seios

é difícil saber se o drama cresce com o ponto

ou se é o ponto que cresce com o drama

 

o papel de cada vírgula na linhagem dos coitos e erecções

é citado na memória e no mundo que desesperamos

 

há duas coisas que as vírgulas não sabem fazer:

uma é ficar feliz; outra é tornar feliz

 

 

 

2 Respostas to “Na tertúlia de poesia”

  1. José Taborda Says:

    Confesso que fiquei confuso com este género de poesia. Desculpem a minha ignorãncia.

  2. Pedro Miguel Gon Says:

    Olá caro José. Posso saber o que o confunde? Não se inquiete que não é ignorância.

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