Bohumil Hrabal – Eu que servi o rei de Inglaterra


Uma vez, na minha cidade, quando ia comprar flores, duas raparigas estavam a arranjar a montra da loja de Katz: fixavam com preguinhos um tecido, andavam de gatas uma atrás da outra, uma tinha o martelo e pregava o cheviote e a bombazina plissados e, quando se lhe acabavam os pregos, estendia a mão e da boca da colega, que estava atrás, tirava o preguinho e pregava uma outra dobra e, sempre assim, ia tirando da boca da outra um preguinho atrás do outro – aquela rapariga tinha a boca cheia de pregos –, brincavam assim naquela montra, eu estava parado e segurava um cesto cheio de gladíolos e, no chão, tinha um segundo cesto cheio de margaridas, era de manhã, olhava para aquelas raparigas que arranjavam a montra e andavam de gatas, havia muita gente na rua, elas deviam-se ter esquecido que estavam numa montra, estavam sempre a coçar-se no rabo ou noutro lado, depois, outra vez de gatas, aproximavam-se da vidraça com um martelo e de chinelos, riam até às lágrimas, uma delas desatou às gargalhadas e os preguinhos saltaram-lhe da boca, sempre de gatas riam a bandeiras despregadas e rosnavam uma para a outra, em travessura menineira, como os cães; as blusas descaíam e viam-se-lhes os seios, e aqueles seios, como elas estavam de gatas, balouçavam de um lado para o outro, ao ritmo da agitação do riso feliz; de roda já estava imensa gente, que olhava, com espanto, aqueles quatro seios a balouçar do decote, como os sinos da igreja matriz, de repente uma delas olhou para aquela gente, ficou séria, dobrou o braço e corou, quando a outra emergiu das lágrimas do riso – a primeira mostrou-lhe a assembleia em frente da firma Katz – assustou-se de tal maneira que encostou o cotovelo à blusa, de tal forma que se desequilibrou e caiu de costas, as pernas abriram-se-lhe e viu-se tudo, embora escondido nas modernas cuecas de renda, e as pessoas que riam ficaram sérias com esta visão, umas iam-se embora e outras lá estavam e continuavam a olhar espantadas, embora já tivesse passado, há muito, do meio-dia e há muito que as raparigas estivessem a almoçar, no Praga Dourada, no nosso restaurante, mesmo assim lá estavam parados (embora os amanuenses já tivessem baixado o estore), tocados pela beleza daquelas raparigas – vejam só como a beleza de um corpo de menina consegue perturbar algumas pessoas…

Bohumil Hrabal, Eu que servi o rei de Inglaterra, O Hotel Sossego (1971)

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