Komrij: uma coincidência em diferido


O senhor Gerrit Komrij morreu. Lamento sabe-lo. Komrij, um dos grandes poetas holandeses contemporâneos, morreu. E eu sem ter lido nada do que escrevera. Komrij, um grande poeta holandês a viver há longos anos em Portugal, morreu. Fiquei em alerta, quem seria? Por que veio para Portugal ganhar os dias? Por que razão nunca ouvi falar de tal autor? Morreu Komrij, o poeta holandês que residia nas proximidades de Coimbra. Eu, que resido em Coimbra, fico desconcertado. Como é possível um autor desta grandeza passar-me despercebido durante tanto tempo? Primeiro fiquei surpreendido; depois fiquei, como direi, desanimado, com a oportunidade perdida. Pensei: esta proximidade poderia ter contribuído para me fazer parte de uma equação de coincidência, mas não cheguei a tempo de a testemunhar. Chocava-me nunca ter coincidido com ele. Foi mais ou menos este o efeito em mim das notícias que corriam nos meios de comunicação, quase todas tendo como fonte as revelações de Fernando Venâncio, um dos tradutores para português de Komrij.

Notem-se bem estas coordenadas: Komrij residia em Vila Pouca da Beira, concelho de Oliveira do Hospital, a uns setenta quilómetros de Coimbra, desde 1988, ou seja, há mais de vinte anos. Não era de todo descabido supor que o poeta pudesse visitar a cidade de Coimbra e eu me pudesse ter cruzado com ele. É uma sensação estranha esta (talvez: formigueiro na alma), a de descobrir que estive tão perto de um grande criador sem ter consciência disso. Fica-nos um ressaibo a perda, a oportunidade perdida. Porque a formação de um escritor não passa apenas pela leitura e pelo exercício de escrita; passa também pelo convívio com modelos relevantes. Ofereceram-me esta imagem: tal como qualquer português de hoje sabe quem é Saramago, qualquer holandês sabe quem é Gerrit Komrij.

Numa conversa, comentando o insólito de descobrir que o falecido poeta holandês vivia perto de Coimbra, sofro um verdadeiro golpe de rins: sou informado que afinal o conhecia, que me fora apresentado. Não quis acreditar. Sim, lá na livraria do Adro, atrás da igreja de S. Bartolomeu. Ah! Afinal dera-se a coincidência. Mas foi-me então apresentado como cliente destacado e não como ilustre poeta; e muito menos como o melhor dos criadores poéticos da Holanda. Não guardava sequer memória do estranho nome: Gerrit Komrij. Se calhar tive um daqueles pensamentos elásticos sem substância ao vê-lo inspecionar as prateleiras das edições raras: mais um estrangeiro excêntrico a levar os melhores espécimes. Afinal, partilhei duas ou três vezes o mesmo espaço com Gerrit Komrij em eventos realizados lá na livraria, sem ter a noção real de quem aquele homem era.

Recordo um indivíduo modesto nos gestos, óculos arredondados, todo vestido de negro. Recordo-me que se fazia acompanhar de uma mala de cabedal grande demais, de cor preta, que usava a tiracolo quando estava em pé, e depositada no chão, a seu lado, quando sentado – percebo agora que aquela mala tinha as dimensões ideais para receber folhas A4 sem as torcer. Detectei nele aquele abandono de mulher que deixa nos homens uma aparência crua, quase descuidada, o aspecto solitário de um alicerce. Lembro-me de o ver a revirar livros, como se esperasse encontrar qualquer coisa de excepcional a qualquer momento. Agora irrita-me ter captado apenas uma impressão superficial, porque não fui atento, não sabia quem ele era. Tomei-o por um qualquer literato (categoria que serve igualmente para identificar um universitário, um historiador, um colecionador) e como só trocámos as palavras de um cumprimento não imaginava que falasse português fluentemente. Nada nele declarava: eis o grande poeta neerlandês.

Por que não era conhecido em Portugal? Essa foi uma das tónicas nas notícias que se espalharam por todo o lado. Segundo Fernando Venâncio, não chegou a haver um “verdadeiro clique” com os vultos literários portugueses. Foi uma questão de química empática ou Komrij não se predispunha? Pelo que li, arrisco dizer que Komrij não queria ser conhecido aqui como o era na Holanda. É, até, paradoxal: em Portugal Komrij comportava-se como Fernando Pessoa, incógnito; na Holanda era o oposto, o crítico mediático, o opinion maker famoso. Até em spotes publicitários entrou.

Ele não veio para Portugal para ser português, veio para se afastar de Amesterdão, para ganhar perspectiva. Veio apropriar-se do tempo, domesticá-lo nos termos da sua conveniência. Escreve isto sobre Amesterdão em Um Almoço de Negócios em Sintra: “A cidade já se me havia tornado alheia, e eu um alheio para a cidade”. Saramago fez o mesmo ao descentrar-se para Lanzarote (independentemente do episódio que espoletou esse movimento). Creio que são reveladoras estas palavras do protagonista do romance Atrás dos Montes que igualmente se afasta dos ambientes urbanos: “Era espaço o que ele queria. (…), não desejava mais que preocupações escusadas lhe fossem impingidas pelas fantochadas diárias por enfezados que se julgavam os sabichões da pátria, não queria mais alguma vez ser importunado pelo barulho da cacofonia dos dementes, da corneta de guerra dos cobardes, das chicotadas dos impotentes, das escaramuças banais dos convencidos.”

Essa ideia que Gerrit Komrij era um perfeito desconhecido em Portugal não é exatamente correta. Para mim era, mas eu sou muito distraído. Não deixará de ser significativo que foi entrevistado algumas vezes, pelo jornal Expresso e pelas revistas Visão e Ler. No entanto, fico com a impressão que era em Coimbra que mantinha as interações culturais mais frequentes. Na verdade vinha com muita regularidade a Coimbra – a minha suposição inicial estava correta – e tinha passagem obrigatória na Livraria do Adro, na Baixa, onde o alfarrabista Miguel de Carvalho lhe entregava encomendas de livros e onde se cruzava com outros compatriotas, nomeadamente, o pintor surrealista Rik Lina. Komrij não perdia, por exemplo, as Feiras das Velharias que se realizam ao quarto sábado de cada mês na Praça do Comércio; e entre as antiguidades que lhe interessavam não se contavam só os livros. Em 2004 Komrij participou no V Encontro Internacional de Poetas, no mesmo ano em que também cá esteve Seamus Heaney, encontros organizados periodicamente por docentes da FLUC.

O único sítio em Portugal onde Komrij era tão bem conhecido como na Holanda era Vila Pouca da Beira. Nenhum dos seus noventa habitantes ignora o “escritor holandês”, como é comummente designado, ou então, enxertando no estrangeiro um antigo hábito popular português, o “senhor doutor”. As pessoas que abordei lá na aldeia reconhecem sem hesitar a figura do escritor e praticamente o tomam como um dos seus, pois ele participava na vida da aldeia como qualquer outro: aparecia nas festas populares, contribuía com donativos para a reparação da igreja, gostava de ter a piscina cheia de crianças da aldeia. Também frequentava o único café da aldeia (esteve presente na inauguração), mas mais raramente; quem o faz em frequência diária é o companheiro do poeta. Num largo existe um painel de azulejos de grandes dimensões que serve de mapa onde se assinalam os motivos de interesse turístico na freguesia: a casa do “escritor holandês” lá se encontra. A recepcionista da Pousada Convento do Desagravo, Catarina Correia, contou-me que em criança foi recebida por Komrij na sua biblioteca para fazer um trabalho da escola: o trabalho era entrevistar o escritor; e ele acedeu.

À imagem do que muitos de nós conhecem de Rentes de Carvalho, que vive em Amesterdão sendo um escritor português, muitos holandeses conhecem Komrij como o escritor que vive em Portugal. Aliás, ignoro quanto do interesse dos holandeses pelas coisas de Portugal, que em Rentes de Carvalho se traduz em venda de livros, não se deve a Komrij. Mas ao invés do caso de Rentes de Carvalho, o afastamento físico em relação à terra natal não significa ausência no espaço mediático nativo: Gerrit Komrij era uma presença constante no espaço mental holandês. Em 1993, já residia em Portugal há nove anos, recebeu o Prémio P.C. Hooft, um dos mais importantes galardões literários da Holanda. Em 2000, já residia em Portugal há 16 anos, foi-lhe atribuído o título Dichter des Vaderlands, uma espécie de estatuto de poeta oficial holandês por um período de quatro anos. Escrevia semanalmente no jornal NRC, um dos melhores na imprensa holandesa, e a TV holandesa não evitou vir a Portugal escutar o poeta: uma das entrevistas foi gravada na capela do antigo Convento do Desagravo. A própria homenagem fúnebre que lá na Holanda teve privilégio de transmissão televisiva em direto, durante horas seguidas, é indicador dessa centralidade da crítica Komrijiana na sociedade holandesa.

Tão bem se sentia na sua terra adoptiva que quando chegou o momento de planear o fim, decidiu ficar. Nas últimas semanas de vida rumou a Amesterdão, formalizou a relação com o companheiro e morreu. Como era seu desejo, foi enterrado no cemitério de Vila Pouca da Beira. Mais um momento teatral, irónico e desconcertante: o homem agnóstico, nascido num país protestante, teve uma cerimónia fúnebre católica. Ficará para sempre em solo português. Ironicamente o cemitério está perto da casa do escritor: é só atravessar a estrada e descer um pouco. Até parece que foi tudo pensado para não se afastar muito da biblioteca que foi constituindo ao longo da vida.

Os comentários dispersos que li sobre a poesia de Komrij apontam para uma natureza clássica, muito consciente da forma e do ritmo, ao mesmo tempo que se enfunava de fantasia, liberdade e transgressão, o que lembra o surrealismo. Consta que chegou a conhecer Salvador Dalí. A sua pena crítica – cáustica, sarcástica – provém precisamente do poder surrealista, teatral, de olhar a realidade. Até nos escritos prosaicos: veja-se o tom do episódio em que explica como conseguiu desalojar os inquilinos da casa que possuía em Amesterdão (em Um Almoço de Negócios em Sintra, Uma Casa a Sério). Aparentemente a cerimónia fúnebre em Portugal inscreve-se neste modo de estar teatral na vida. Ele próprio afirmou que gostava de Portugal por ser um país onde o teatro é mais importante que a realidade.

Quanto mais penso nesta oportunidade perdida, mais me parece lamentável. Porque não abundam em Coimbra os grandes escritores. Imagino que um jovem criador em Lisboa procure o contacto com Lobo Antunes ou Mário de Carvalho; no Porto procura o contacto com Mário Cláudio; em Coimbra procura-se quem? Já não estamos na época em que se cruzavam por cá Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, Antero de Quental, Miguel Torga, Ruben A., Agustina Bessa-Luiz e tantos outros. Embora se conheçam alguns autores literários que estão a crescer, hoje residem em Coimbra poucos, ou nenhuns, nomes decisivos. Komrij foi o último dos consagrados a passar por Coimbra, mas só coincidi com ele em diferido.

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