A comodidade de um Indisciplinador literário


É muito bom estar atrás de uma secretária de nogueira ou recostado num sofá de couro, num chaise longue de design italiano, quando foi a empregada doméstica quem preparou atempadamente o almoço e nos deixou a sala limpa, brilhante, agradável para assumirmos o nosso ócio e apreciar a leitura de um desses indisciplinadores de almas que nunca tiveram uma sala tão limpa como aquela, nem nunca tiveram um almoço tão disciplinado e tão dentro do convencional bem-estar de classe média. Por isso é tão fácil essa comodidade burguesa de elogiar os indisciplinadores literários. Parece um paradoxo: o burguês seriamente alicerçado na sua disciplina, esse que nunca arriscaria a sua comodidade, a venerar a antítese do seu espírito: o artista marginal, o louco, o incitador à indisciplina criativa. É a este perigoso tipo que o educado burguês se rende: estuda-o nas universidades, presta-lhe homenagens, dedica-lhe livros que vendem o que o artista nunca conseguiu vender. Aos outros artistas menos indisciplinados, mais próximos da normalidade burguesa não presta tanta devoção. Será matéria de inconsciente? Estará o cómodo burguês a glorificar o que desejava e nunca teve coragem de abraçar? O que é que o espírito castrado pretende dos espíritos indisciplinadores se verdadeiramente se contenta com essa castração convencional?

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