Ian McEwan – Cães Pretos


“Não parou imediatamente. O frio que do estômago lhe desceu pelas pernas impediu-lhe qualquer reacção imediata. Em vez disso, abrandou hesitantemente, deu meia dúzia de passos antes de parar, imóvel e desequilibrada, no meio do caminho. Eles ainda não a tinham visto. Sabia pouco a respeito de cães e não tinha grande medo deles. Mesmo os animais excitados das imediações de quintas remotas do causse pouco a tinham preocupado. Mas as criaturas que bloqueavam o carreiro, 70 metros à frente, só nos contornos eram cães. Em tamanho assemelhavam-se a feras míticas. O inesperado, a anomalia dessa presença, levou-a a pensar numa mensagem em pantomina, uma alegoria só para ela decifrar. Teve uma ideia confusa de algo medieval, de um quadro simultaneamente formal e aterrador. Àquela distância, os animais pareciam pastar tranquilamente. Emanavam significado. Sentiu-se fraca e nauseada de medo. Esperou o som dos passos de Bernard. Com certeza não viera muito à frente dele.

Naquela paisagem, onde os animais de trabalho eram pequenos e magros, não havia lugar para cães do tamanho de burros. As criaturas – mastins gigantescos, possivelmente – farejavam à volta de uma mancha de erva ao lado do carreiro. Não tinham coleiras, nem se lhes via dono. Moviam-se devagar. Pareciam estar a trabalhar juntos com qualquer objectivo. O negrume, o facto de serem ambos pretos, de parecerem relacionados um com o outro e de estarem sem dono, fizeram-na pensar em aparições. June não acreditava em tais coisas. Se agora se sentia atraída para essa ideia, era porque as criaturas lhe eram familiares. Eram emblemas da ameaça que sentira, eram a encarnação da inquietação inominável, desmedida e irracional que experimentara naquela manhã. Não acreditava em fantasmas. Mas acreditava na loucura. O que temia, mais ainda que a presença dos cães, era a possibilidade da sua ausência, da sua inexistência. Um dos animais, ligeiramente mais pequeno que o companheiro, levantou a cabeça e viu-a.”

Ian McEwan, Cães Pretos, Parte IV, St. Maurice de Navacelles 1946 (1992)

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