O que escreveríamos se escrevêssemos


E quando descobrimos de supetão que caímos na artimanha de um grande criador literário? É um regalo.

A frase é grande. Ao lê-la, compreendê-la, enchem-se os poros de existência. Só pode ser verdadeira. Só pode provir da própria escuta do ser: “escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”.

Em Outubro de 2001, Enrique Vila-Matas assinava um artigo na revista do parlamento internacional de escritores com o título: escrever é deixar de ser escritor. Foi nesse artigo que descobri pela primeira vez a citação que Vila-Matas recolheu em Marguerite Duras: “escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”.

O artigo é curto, mas muito interessante, um dos melhores na abordagem do ofício de escrever. Diz ele assim, depois de confessar o impacto que Mastroianni teve na sua imagem adolescente do que era ser escritor: “Decidir escrever é penetrar num espaço perigoso, porque se entra num túnel escuro sem fim, porque jamais e chega à satisfação plena, nunca se chega a escrever a obra perfeita ou genial, e isso causa a maior das mágoas. Aprende-se melhor a morrer do que a escrever. E ser-se (…) escritor, quando já se sabe escrever, é converter-se num estranho, num estrangeiro: tens de começar a traduzir-te a ti mesmo. Escrever é fazer-se passar por outro, escrever é deixar de ser escritor ou de quereres parecer-te a Mastroianni para simplesmente escrever, escrever o que simplesmente escreverias se escrevesses”.

Foi nesse artigo, por exemplo, que descobri pela primeira vez este nome – Danilo Kis – uma segunda vez detectado num prefácio de Eduardo Prado Coelho, cujos livros em português procuro e não se encontram em lado nenhum. Mas o que melhor retive foi aquela frase que Vila-Matas foi buscar a Duras, uma frase tão simples, sedutora e magistral que resume uma resposta possível à pergunta: porque escrevo? Numa obra mais recente, um dos seus melhores feitos, Bartleby & Companhia, no apontamento número quarenta Vila-Matas volta a usar aquela frase atribuindo-a a Duras.

Ora, há dias recebi a revista LER de Maio e depois das primeiras digressões indisciplinadas, atinei na entrevista de Carlos Vaz Marques ao escritor catalão. A certa altura o jornalista pede uma confirmação mais ou menos nestes termos: é verdade que atribui a autoria de frases suas a outros autores mais célebres, como Nietzsche e Shakespeare, de modo a que ganhem maior credibilidade por serem atribuídas a um grande autor? E Vila-Matas confirma sem rodeios. Ora, a frase que recordou para ilustrar esta prática, foi precisamente a frase atribuída a Marguerite Dura.

Primeiro vem a ferroada do inacreditável; depois vem o puro gozo. Caí que nem um patinho! E, pelos vistos, não fui o único. Na vizinha Espanha, o emergente escritor Agustin Fernández Mallo apresenta como epígrafe do seu primeiro romance, Nocilla Dream (2006) esta mesma frase, atribuindo a autoria a, claro, Marguerite Duras. Menos arriscado que um livro apócrifo, a frase apócrifa é mais insinuante e versátil, talvez uma das ferramentas da literatura portátil.

Mas depois veio outro choque. Peguei no livro “Écrire” de Marguerite Duras, um dos últimos livros que publicou e onde divaga sobre a natureza do ofício de escrever, um livro de 1993, e no primeiro dos quatro textos que constituem o livro, o texto que dá título ao livro, encontra-se um pequeno parágrafo, precisamente o penúltimo, onde se inclui a tal fase: “Escrever é tentar saber aquilo que escreveríamos se escrevêssemos – só o sabemos depois – antes, é a interrogação mais perigosa que nos podemos fazer. Mas é também a mais corrente.” Subitamente a reputação do autor apócrifo transforma-se em meu espírito numa ameaça de plágio.

Dá para baralhar, não dá? Como não acredito que Enrique Vila-Matas faça plágio, onde está a artimanha? Como se explica isto? Quem é, afinal, o autor da frase?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: