O cemitério de Jean Genet


Há notícias que nos atingem com uma violência inesperada.

Acabei de ler algo que deixou em mim a impressão de desgraça – bom, agora que escrevo não sinto tanto a agressão, mas no instante em que acabei de ler a frase sentia-me realmente amargurado. Acabei de ler que Jean Genet está enterrado em Larache, no norte de Marrocos, num cemitério espanhol que não se encontra longe de uma prisão e de um bordel (não sei se a ironia é engenho do jornalista ou se é realmente intrínseca à localização do cemitério). Para o mais comum dos leitores, esta não passa de uma informação avulsa que não tem como se ancorar na memória; em breve seria sepultada sob nova avalancha de faits divers.

Mas eu registei a informação como uma falta grave. Tudo se explica pelo facto de eu ter estado em Larache e ter perdido a oportunidade de conhecer o cemitério em que Jean Genet se encontra sepultado. Sem dúvida, se o tivesse sabido, teria feito esse desvio, necessário (claro, claro, taradices de leitores convencidos). Dessa viagem a Marrocos apenas me lembro de ter magicado a ousadia de procurar Paul Bowles em Tânger: havia lido qualquer coisa e julgava que ele vivia num certo hotel no centro de Tânger (ou seriam aqueles que o visitavam que ficavam no tal hotel?) ou coisa pareciada…

Consultei o diário daquela visita a Marrocos em 1997 e descobri que achei Larache uma terra feia e suja. O roteiro turístico que então usei não faz qualquer referência a Jean Genet. Em vez de dormir em Larache, no Hotel Riad, como estava previsto, fui dormir mais a sul em Moulay Bousselham, à beira de um estuário famoso pelas aves migratórias que acolhe. Dormi no Hotel Le Lagon, com vista para o estuário e para os flamingos.

Depois, regressando ao norte, voltei a parar em Larache e almocei numa esplanada incipiente de um restaurante ainda mais incipiente na Place de La Liberation, uma espécie de praça central diante da entrada da Medina. Ora, o cemitério espanhol está a menos de mil metros, a seguir ao cemitério muçulmano, numa das ruas que irradia da Place de la Liberation. Estive tão perto, sem o saber.

Ainda não li na íntegra os romances de Jean Genet, a não ser o pequeno texto «A Criança Criminosa» que a Hiena Editora publicou, mas guardo o «Diário de um Ladrão» e o «Querelle de Brest» onde vou chapinhar ao acaso como um razoável leitor diletante. Falta-me encontrar o «Nossa Senhora das Flores» (em Portugal o verbo apropriado é “encontrar”). Mas já antes de encontrar os livros (raros) me intrigava esse personagem que toda a gente compõe como o grande marginal, o grande não-alinhado; desconcertava-me o ambiente inusual que o filho de prostituta deu às suas histórias marginais, reduzindo-nos a nós, todos, a meninos-da-mamã da normalidade, da rotina, do convencional, por mais criativos que queiramos ser. Diário de um Ladrão: “Chamo violência a uma audácia em repouso apaixonada pelos perigos. Distinguimo-la num olhar, no modo de andar, num sorriso, e é em vós que ela gera a ressaca.”

Se bem me recordo, éramos os únicos turistas na pretensa esplanada de Larache. Não me lembro da refeição. Lembro-me sim que enquanto comíamos apareceu um magrebino a vociferar uns escândalos quaisquer naquela língua enrolada, estava agitado e não parava de fazer piscinas diante da esplanada: quando perguntei ao empregado o que se passava, respondeu que o homem era louco.

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