Peter Handke – A angustia do guarda-redes antes do penalty


Enquanto estiveram sentados à mesa, falaram um com o outro. Bloch tinha impressão de ser incapaz de dizer qualquer coisa séria. Dizia piadas, mas a locatária tomava tudo à letra. Ele dizia que a blusa dela era às riscas como uma camisola de futebol, queria continuar a falar, mas ela perguntava-lhe logo se ele não gostava da blusa, o que é que lhe desagradava. Não valia de nada dizer-lhe que tinha sido só uma brincadeira, que a blusa até ficava muito bem com a sua pela clara: ela perguntava-lhe então se a pele era clara de mais. Ele dizia-lhe na brincadeira que a cozinha estava mobilada quase como se fosse uma cozinha da cidade, e ela perguntava-lhe porque é que ele dizia “quase”. Se as pessoas lá tinham as coisas mais limpas? Até quando Bloch disse uma piada sobre o filho do proprietário (ele tinha-se declarado, não tinha?), ela tomou-o à letra e respondeu que o filho do proprietário não era livre. Ele quis então explicar com uma comparação que não tinha falado a sério, mas também a comparação a entendeu ela à letra. “Eu não quis dizer nada com isso!”, disse Bloch. “Mas deves ter uma razão para dizeres isso”, respondeu a locatária. Bloch riu-se. A locatária perguntou-lhe porque é que se ria.

Lá dentro no quarto a criança chamou. Ela saiu e foi acalmá-la. Quando voltou Bloch estava de pé. Ela parou em frente dele e olhou-o durante um certo tempo. Em seguida falou de si própria. Como ela estava tão próxima dele, não conseguiu responder e deu um passo atrás. Ela avançou para ele, mas depois parou. Bloch quis agarrá-la. Quando mexeu a mão, ela olhou para o lado. Bloch deixou cair a mão e fez como se tivesse dito uma piada. A locatária sentou-se no outro lado da mesa e continuou a falar.

Ele quis dizer qualquer coisa, mas não se lembrou de nada que quisesse dizer. Tentou lembrar-se: não se lembrava de que é que se tratava, mas tinha qualquer coisa a ver com a repugnância. Em seguida um movimento da mão da locatária lembrou-lhe qualquer outra coisa. De novo não se lembrou do que era; era qualquer coisa relacionada com vergonha. As suas percepções de movimentos e de coisas não lhe lembravam outros movimentos e outras coisas mas sensações e sentimentos: e não se lembrava dessas sensações e desses sentimentos como uma coisa passada, antes os vivia de novo, como se se tratasse de algo presente: não se lembrava de vergonha ou de repugnância, mas envergonhava-se e sentia repugnância agora que se lembrara sem ser capaz de recordar as coisas que lhe causaram vergonha e repugnância. A mistura de repugnância e de vergonha era tão forte que todo o seu corpo começou a tremer.

Peter Handke, A angustia do guarda-redes antes do penalty (1970)

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