Peter Handke – A Mulher Canhota


Passado algum tempo o editor olhou para ela, como se não soubesse que mais havia de fazer. A criança chamou por ela, mas ela não reagiu, olhou para trás como que cheia de curiosidade. O editor percorreu-a com o olhar. – Tem uma malha na meia.

Ela fez um movimento com a mão, que isso lhe era indiferente, e quando a criança voltou a chamar por ela levantou-se mas não se afastou imediatamente.

Enquanto ela se voltava a sentar no seu antigo lugar na frente do editor, disse: – O que me aborrece nesta casa é a maneira como uma pessoa tem de se virar para ir de um quarto para o outro: sempre no ângulo direito e ainda por cima sempre à esquerda. Não sei por que razão este tipo de movimento me é tão desagradável; incomoda-me mesmo.

O editor disse: – Escreva sobre isso, Marianne. Senão de repente você deixa de existir.

A criança chamou pela terceira vez e ela foi imediatamente ter com ela.

O editor, sozinho, tinha um aspecto cansado. A cabeça descaíu-lhe um pouco para o lado. Endireitou-se, sorriu então como que de si próprio, deixou descaír outra vez a cabeça, deixou dobrar as costas.

Peter Handke, A Mulher Canhota (1976)

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