Patrick Modiano – O Horizonte


Durante seis meses, deslocou-se regularmente a casa de Simone Cordier para lhe remeter novas páginas e recuperar as já dactilografadas. Por precaução, pedira-lhe que conservasse em sua casa as folhas manuscritas.

–       Receia alguma coisa?

Lembrava-se perfeitamente de que, certa noite, a mulher lhe fizera esta pergunta, fixando-o com um olhar surpreendido e ao mesmo tempo benevolente. Naquele tempo, a inquietação devia transparecer no seu rosto, na maneira de falar, de caminhar e mesmo de se sentar. Apoiava-se sempre no rebordo das cadeiras ou das poltronas, apenas com uma nádega, como se não se sentisse realmente no seu lugar e se preparasse para fugir. Por vezes, esta atitude surpreendia num jovem de estatura elevada e cem quilos de peso. Diziam-lhe: “Está mal sentado… Descontraia-se… Ponha-se à vontade…”, mas era mais forte do que ele. Exibia frequentemente um ar de quem se desculpa. De quê, afinal? Era a pergunta que muitas vezes fazia a si próprio quando caminhava sozinho pelas ruas. Desculpar-se de quê, hein? De viver? E não conseguia evitar uma sonora gargalhada que levava os transeuntes a voltarem-se para trás.

Patrick Modiano, O Horizonte (2011)
 
 

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