Patrick Modiano – No Café da Juventude Perdida


Quando entrei no Condé, os ponteiros do relógio redondo da parede do fundo marcavam exactamente cinco horas. Em geral, ali, é uma hora morta. As mesas estavam livres, excepto a que se situava ao lado da porta, à qual se sentavam Zacharias, Annet e Jean-Michel. Olharam-me de uma maneira estranha. Não disseram nada. Os rostos de Zacharias e Annet estavam lívidos, com certeza por causa da luz que entrava pela janela. Não responderam quando lhes disse bom-dia. Fixaram-me daquela maneira estranha, como se eu tivesse feito algum mal. Os lábios de Jean-Michel contraíram-se e senti que queria falar comigo. Uma mosca pousou nas costas da mão de Zacaharias e ele enxotou-a com um gesto nervoso. Depois pegou no copo e bebeu o conteúdo de um trago. Levantou-se e avançou em direcção a mim. Disse-me numa voz átona: “Louki. Lançou-se da janela abaixo”.

Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida (2007)
 
 

2 Respostas to “Patrick Modiano – No Café da Juventude Perdida”

  1. sempre que posso revisito este blog para (re)ler estes magníficos trechos, fragmentos e poemas, muito bom, uma óptima iniciativa.

  2. Pedro Miguel Gon Says:

    Obrigado por seres um leitor, Daniel.

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